Crítica | ‘Anna Karina, Para Você Lembrar’ possui a informação básica de um documentário, mas falta emoção

O ano de 2020 vem sendo triste e difícil para muita gente, entretanto, para os admiradores e fãs da atriz Anna Karina, 2019 já vinha sendo ruim. Ano passado a atriz dinamarquesa faleceu aos 79 anos, deixando para trás seus filmes, personagens e uma grande marca na história da nouvelle vague e do cinema. O documentário ‘Anna Karina, Para Você Lembrar’ de Dennis Berry relembra a infância e o início da carreira da atriz, passando por seus grandes encontros no cinema e pela sua importância na história após maio de 68 na França. 

O documentário abriu o Brasília International Film Festival (BIFF), o primeiro festival de cinema inteiramente online e gratuito nesse período de quarentena. Deixando sua marca ao referenciar um dos maiores símbolos do cinema francês e a musa de Jean-Luc Godard, o filme possui Anna como personagem e como público, com o uso da metalinguagem, ela assiste à sua própria vida, dentro do filme, e vê sua trajetória sendo contada nas telas do cinema. O longa é narrado pelo diretor do filme que utiliza cenas de outros longas e filmagens caseiras para recontar a história de sua personagem título. 

Acompanhamos as fotos de infância da jovem Anna que fugiu da Dinamarca aos 17 anos, indo para Paris de carona tentar a vida. Vinda de uma família abusiva, encontrava refúgio no cinema, tendo os musicais como seus favoritos. Gene Kelly, Judy Garland e Louis Armstrong são algumas das figuras que encantaram a jovem atriz, despertando sua curiosidade pela arte. Em Paris foi descoberta nas ruas pela Katherine Arlé, agente de uma das empresas mais importantes de modelo da época. E assim, através de fotos e propagandas comerciais é que Anna começa a encantar os parisienses e chamar a atenção de Jean-Luc Goddard. 

Uma vez inserida na indústria artística, Anna não sai mais. De pontas, a curtas, a parcerias, protagonistas, teatro, musical, cd… não há algo no ramo que ela não tenha feito. Aprendeu a falar francês através dos filmes, suas idas no cinema garantida por seu grupo como Godard, Jean-Paul Belmondo, Jean-Pierre Léaud dentre outros, já que ainda era menor de idade para certos filmes. A construção de sua carreira e sua libertação artística vem mesmo após maio de 68, época onde houve renovação dos valores acompanhada pela proeminente força de uma cultura jovem, tornando-se assim a primeira atriz francesa a ir para trás das câmeras, dirigindo o longa Vivre Ensemble (1973). 

Anna Karina, Para Você Lembrar (2017)

Conhecer mais a carreira e os caminhos traçados pela atriz é um mergulho na nouvelle vague até os dias atuais. Para aqueles que não conhecem o seu trabalho, é um bom apanhado do porque seu nome é tão grande na história do cinema. Entretanto, o documentário se sustenta apenas por isso, por definir quem e o que fez Anna Karina para se tornar uma estrela de cinema. O filme não se dedica a conhecer o que está para além de sua carreira, suas histórias íntimas e sentimentos que ultrapassam personagens.  

O filme, que possui 54 minutos de duração, poderia ter tranquilamente mais 40 minutos. Há muito material a ser explorado, que aqui, é desperdiçado, a começar da própria Anna Karina. A artista que vê ali sua vida passando aos seus olhos é pouco abordada, o que é de grande tristeza. Ver que há em seus olhos tanta história, mas ninguém para lhe tirar, o diretor também não faz muita questão. Viúvo de Anna Karina, se satisfaz em saber o que sabe, e tira dela poucas informações que confortam quem assiste, mas deixa a desejar pelo que poderia ser alcançado. 

Se a plataforma do IMDB – a base de dados online de informação sobre música, cinema etc – fosse uma obra audiovisual, seria essa. As informações contidas como filmes, prêmios, festivais, todas estão presentes. Mas falta aqui mais que a Anna atriz, principalmente pelo filme ter sido feito por alguém que passou tantos anos ao seu lado. Falta exploração para além de seus talentos, a investigação da intimidade de Anna como mulher, como parceira e como amiga. O documentário não faz jus a despedida digna que ela merece, mas serve como uma boa obra para apresenta-la àqueles que ainda não conhecem o seu maravilhoso trabalho como artista. 

ANNA KARINA, PARA VOCÊ LEMBRAR | ANNA KARINA, SOUVIENS-TOI
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RESUMO

Filme de abertura do BIFF, Anna Karina, Para Você Lembrar é dirigido pelo víuvo da atriz, Dennis Berry, que deixa a desejar ao abordar apenas o básico.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.