Crítica | Westworld 3×06: ‘Decoherence’ organiza as peças para o fim da temporada

Em uma temporada que tem andado numa velocidade menor do que poderia, mas ao mesmo tempo entrega memoráveis cenas de ação e produção impecável, Westworld caminha para o fim de seu terceiro ano de forma previsível em seu arco central, mas reservando algumas boas surpresas.

Deixando a aventura de Dolores e Caleb de lado, o foco aqui passa a ser Maeve (Thandie Newton), Charlotte (Tessa Thompson como uma versão de Dolores, você sabe…) e o Homem de Preto (Ed Harris). Esses três personagens tem andado à margem da história central, mas o episódio acaba servindo para preparar o organizar as peças para o final da terceira temporada.

Tudo em Decoherence gira, inevitavelmente, em torno de Serac (Vincent Cassel) e suas maquinações. No final das contas, foram necessários seis episódios para que a grande ameaça pudesse comprar a Delos, em um movimento que parece ter sido bem fácil para ele, na verdade. O retorno ao parque nazista soa mais como uma despedida aos personagens de Rodrigo Santoro e Simon Quarteman, Hector e Lee Sizemore, uma espécie de show off da Maeve, enquanto seu novo corpo fica pronto. Já a sessão de terapia do Homem de Preto, esse sim, é um momento estranho e singular, com uma grande atuação de Ed Harris, mas nem por isso desinteressante, e diz muito sobre a sociedade que está por vir na série.

O único ponto fora da curva e incógnita ainda é Bernard (Jeffrey Wright). Confesso não fazer a menor ideia sobre sua jornada aqui, uma vez que ele parece ter sido deixado vivo por Dolores por ser o único que não pode ser substituído, logo ela sendo alguém cujo ele mesmo quer impedir. A não ser que seja uma jogada de Dolores no sentido dele próprio a impedir caso as coisas deem muito erradas, não há uma provável justificativa na trama, o que desperta curiosidade. Estou realmente ansioso por isso. Faltando dois episódios para o fim da temporada, as peças começam a se organizar.

Westworld 3×06 – Decoherence (HBO)

Sessão de terapia de William

Depois de assombrar a terapia de grupo com um monólogo sombrio de autoindulgência, William é colocado em uma espécie de experiência vívida de realidade aumentada. Imagine você, sentado em uma cadeira, amarrado, com um óculos que faz todas essas coisas a partir de um implante bizarro no céu da sua boca. Isso deve incomodar bastante. Agora, imagine o caos tomando conta do local em que você está, ficando ali para sempre? Chegaremos a esse ponto no final.

A alucinação vívida de William é uma experiência perturbadora. O roteiro ensaia nos contar que William fora abusado quando criança, o que, a essa altura, não pareceria razoável. No que ele se tornou, agora, acaba sendo um reflexo de quem ele já era, mesmo que no processo, tenha existido uma versão boa de si mesmo.

As várias versões dele, portanto, são momentos chave e pontos de virada em sua personalidade. O menino problemático, o bom moço jovem William (Jimmi Simpson), o Homem de Preto e o William empresário. Várias versões de si mesmo. Faz todo sentido que o chefe dessa sessão seja James Delos (Peter Mullan). Afinal de contas, se não fosse por esse homem, nada disso teria acontecido.

Ao matar todas as suas versões, William resolve olhar para o presente. Antes, ele examina o passado. Seu “eu” no parque não o torna necessariamente uma pessoa ruim, mas desencadeia todo o processo que leva Dolores ao mundo real para se vingar da humanidade. É estranho, evidentemente, ver alguém que matou a própria filha assumir o papel de mocinho. Mas, entre o ímpeto de Serac e as intenções de Dolores, um terceiro elemento surge como um elemento bem-vindo à trama.

Voltando ao ponto inicial, quando Bernard e Stubbs (Luke Hemsworth) encontram William, é um alívio para nós e para ele. É visceral e desconfortável a cena dos Williams sendo mortos. Agora a dupla virou um trio improvável. Ainda sobre esse momento, a instalação, após os dados do Rehoboam serem divulgados a todos, começa a ruir. A terapeuta do Homem de Preto que o diga, ela não suporta e se mata. Não é possível que ninguém tenha recebido uma notícia boa do Rehoboam?

Westworld 3×06 – Decoherence (HBO)

Mais uma tragédia para Maeve

Decoherence não deixa de ser uma vitória para Maeve. Mas é agridoce. E trágico. Por um momento, pensamos que Hector vai para o mundo real, mas o que a gente tem para hoje é a despedida de Rodrigo Santoro da série. Pelo menos é o que parece.

Algo que não faz muito sentido nesse ponto do episódio é Serac ter escolhido as instalações da Delos para imprimir os novos corpos. Vejamos: após a primeira simulação com Maeve no episódio dois desta temporada, uma nova versão corporal da anfitriã surge. Assumimos então que ele tem esta tecnologia em local seguro. Então, por que correr o risco de fazer isso na Delos, uma vez que desconfiando de Charlotte/Dolores, poderia haver alguma resistência? Tanto é que, por algum motivo, a pérola de Dolores/Connells permanece intacta depois do episódio anterior, e acaba sendo desperdiçada.

Algo que é dito na simulação reforça ainda que não há lado bom. Apesar de terem matado e arrastado terceiros para suas respectivas e contraditórias jornadas, Dolores e Maeve parecem chegar a conclusão de que não estão certas, nem erradas. Ok, essa é uma provocação para o inevitável conflito que as colocará frente a frente.

Westworld 3×06 – Decoherence (HBO)

Charlotte renasce

Se faltava um motivo para Charlotte/Dolores entrar na briga, e agora ele existe. Ela cumpriu todo o planejamento. Se passou pela executiva, fingiu ser mãe e esposa, e em determinado momento, escolheu voltar para a falsa família. Essa Dolores carrega tanta humanidade que é justamente isso que a denuncia, de acordo com Serac. Charlotte nunca ligaria para saber do filho. Triste.

O que vem a seguir é uma sequência de cenas memoráveis. Charlotte executa planos astutos, bate, apanha, mata, leva tiros, atira em todo mundo, mata, manca, utiliza robôs (!), mata, e consegue fugir. Tentando se colocar um passo a frente, é lógico, ela nunca está. Serac parece ter tudo sob controle mais uma vez, embora não estivesse na sua equação a sobrevivência dela. Algo improvável para um humano, diga-se.

Últimas palavras

* Se Bernard ainda não tem função clara até então na trama, Stubbs está bem definido como alguém que o segue fielmente e apanha como ninguém. Quantos finais violentos o esperam?

* Como William foi encontrado? Para isso teremos que voltar ao episódio cinco, quando Charlotte/Dolores fura William com uma agulha, para rastrear seu sangue. Dolores usou William para descobrir a localização da instalação que ele está, por isso Connells/Dolores dá a informação a Bernard. Por isso, quando William faz exames de sangue, a mensagem “proteína desconhecida” aparece e, em seguida vemos “violação de dados”. A razão por trás disso é que se torna difícil de entender.

Westworld 3×06 – Decoherence (HBO)

* As cenas de ação envolvendo aqueles robôs (destacamos há cinco semanas sua possível utilidade) e a trilha ciberpunk de Ramin Djawadi era tudo o que estávamos precisando naquele momento.

* Caleb (Aaron Paul), que tem aqueles agoniantes implantes na boca, teve flashbacks de estar amarrado em uma cadeira, em um processo semelhante à terapia de realidade aumentada. Por alguma razão desconhecida, ele deve ter sido colocado nas instalações de Serac, que por outro lado, servem aos “fora do padrão”. Teria sido ele “editado” e depois reinserido na sociedade?

* Mesmo com todos os problemas, o corpo de Maeve é impresso mais uma vez e ela fica ao lado de outro barril de líquido branco. Quem serão seus aliados? Haviam cinco pérolas sendo impressas: o morto Hector, Connells/Dolore, também morto, Maeve, e mais dois anfitriões. Bom suspense, daqueles que podem ser resolvidos no próximo episódio, sem enrolações.

* Se tem alguém para quem as coisas nunca dão certo, é Maeve. Mesmo ganhando, ela sempre perde. Muito diferente do que tem acontecido com Serac.

Westworld 3×06 – Decoherence (HBO)

* Como atiram mal esses guardas da Incite! Fizeram, provavelmente, escola de tiro com stormtroopers e bandidos de filmes dos anos 80.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...