Artigo: o prazer em contemplar o fim do mundo pelo entretenimento

Uma proliferação de obras catastróficas 

Há cerca de 100 anos surgiu um subgênero da ficção científica destinado a tratar o fim do mundo através do perigo do progresso da tecnologia e da ciência e dos governos autoritários. Uma das primeiras obras, foi escrita por um russo Ievguêni Zamatian em 1924, chamada Nós. Não à toa, foi escrita alguns anos após a Revolução Russa (1917). Esse livro, apesar de não ser tão famoso, serviu de inspiração para outras várias distopias escritas décadas mais tarde. A popular obra de George Orwell, 1984 (1949) contém inúmeras semelhanças, sendo considerada por parte da crítica um plágio de Nós. Outros vários clássicos seguiram essa linha: Admirável Mundo Novo (1932) de Aldous Huxley, Eu, robô (1950) de Isaac Asimov, Fahrenheit 451 (1953) de Ray Bradbury, Planeta dos Macacos (1963) de Pierre Boule.

Os romances distópicos inauguraram uma importante tendência seja na literatura, cinema ou televisão. Nessas obras ocorre sempre uma desgraça fatal com a humanidade, geralmente ocasionados por guerras, vazamentos nucleares ou pelo simples desenvolvimento desenfreado da espécie humana. Há também as produções fictícias que exploram catástrofes naturais, como as mudanças climáticas como O Dia Depois de Amanhã (2004). Ou a fatal queda de um meteoro na Terra como Impacto Profundo (1998).

Uma outra ameaça fulminante vinda do espaço também, é a invasão alienígena, essa categoria também está presente em muitas histórias. Entre elas há O Dia em a Terra Parou (1951 e 2008), Guerra dos Mundos (1953 e 2005), Independence Day (1996), entre outros.

Outro estilo calamitoso muito explorado, principalmente nas últimas décadas é do apocalipse zumbi. O primeiro filme desse gênero é muito mais antigo do que parece, lançado em 1932, Zumbi Branco. Ainda há outros clássicos como Noite dos Mortos Vivos (1968), A Hora dos Mortos Vivos (1985), Extermínio (28 dias depois) (2002), entre outros vários. Atualmente há a famosa série The Walking Dead, lançada em 2010, baseada na obra de Robert Kirkman.

Ameaça vindo do espaço: Tom Cruise e Dakota Fanning em “Guerra dos Mundos” (2005)

The Walking Dead e a reconstrução social

The Walking Dead pode ser considerada uma obra diferencial das outras histórias de zumbi. Pois, em quase todas as outras, relata-se apenas o apocalipse em si e a derradeira morte de todos os personagens ou com o desfecho da narrativa com alguns sobreviventes. Já na famosa série, o telespectador não soube a origem do fim do mundo e a história se desenrolou a partir da forma como os personagens sobreviveram e das reorganizações sociais a partir de pequenos grupos.

Depois de algumas temporadas, os zumbis já não são o maior dos problemas e sim os grupo rivais que também disputam comida e território. A grande proeza da série é explorar o terreno fértil da reorganização social e da tentativa de reconstrução de uma civilização. Essa nova reorganização social se aproxima de uma espécie de anarquia, em que não há um Estado, mas grupos de sobreviventes sendo liderados por uma pessoa ou por uma parcela do grupo. Por não haver um Estado ou um código de leis bem estruturado, os conflitos se tornam constantes. A ética e a moral passam a ser prejudicadas também, caindo em um fatal vale-tudo pela sobrevivência.

O voyeurismo sádico pela destruição

Esses estilos e obras foram citados para demonstrar a grande quantidade de material produzido no que se refere a extinção ou ao menos uma destruição de uma grande parcela da humanidade. Por um lado existe um forte sentimento de paranoia, já que um dos maiores medos do ser humano é o de morrer. Afinal, em termos psíquicos, não temos condições sequer de saber como é a morte, restando apenas a imaginação e a religião. Por outro, parece que há um estranho deleite em assistir o fim do mundo. A posição do leitor ou do telespectador em contemplar a destruição da civilização talvez seja originada de uma espécie de um voyeurismo sádico. Nesse lugar distanciado, há uma confortável sensação de proteção, graças ao distanciamento e ao pensamento inconsciente “antes eles do que eu!”.

Apocalipse zumbi: The Walking Dead e a reconstrução social (2010 até o momento)

Em Mal-Estar na Civilização (1930), Freud a partir de Hobbes, cita o contrato social. Em troca de segurança contra as adversidades da natureza ou da ameaça das outras pessoas, o Homem sacrificou parte da sua segurança, tornando-se assim submisso a um Estado e a um conjunto de leis. Entretanto, esse preço foi bastante custoso, pois para se adequar perante uma sociedade, precisou sacrificar e enterrar seus impulsos inconscientes. Precisou se submeter a um rígido código moral e repressivo. Não havia mais a liberdade em fazer sexo com quem quisesse, precisava se casar e constituir uma família. Além disso, precisou adquirir o controle de seus esfíncteres, ser educado e cordial com as outras pessoas. Todas essas exigências sociais tornaram o homem infeliz.

A partir do atravessamento da Cultura, o Homem passou por uma série de castrações simbólicas. Ao ser proibido de amar a sua mãe e não poder matar seu pai (mito edípico), o sujeito então barrado, é obrigado a se adequar a uma norma. Ao perceber suas limitações, o indivíduo agora dividido entre a razão e o inconsciente, herda assim o superego. Essa é uma instância psíquica fundamental para auxiliar o ego no seu controle dos impulsos inadequados vindos do voraz id. Apesar das tentativas de domínio, os impulsos primitivos, sejam eles de vida ou de morte, continuam presentes no inconsciente. Esse conflito entre a racionalidade e os impulsos inconscientes produz a neurose, mal do qual a grande maioria dos sujeitos não pode escapar.

Talvez a paixão em escrever ou contemplar o fim do mundo seja devido a um desejo inconsciente em destruir a civilização, já que ela fabrica tantos martírios e sofrimentos. A via da ficção e da fantasia pode ser considerada uma forma de solução de compromisso, pois mantém esse deleite masturbatório preservado e o intricado desejo caótico escondido. Por meio da sublimação, esse impulso de morte é canalizado pela via da arte.

Em busca do fim do mundo

Ameaça biológica: Em Contágio (2010), um vírus desconhecido também assola a humanidade

Apesar dos desagradáveis efeitos colaterais da civilização, muito provavelmente a espécie humana não teria perdurado por milhares de anos. Mesmo que se por algum motivo fosse decretado o fim do Estado, é valido lembrar o caos que seria, muito bem retratado em The Walking Dead. Sem contar que uma vez tocados pelo processo civilizatório esse é um caminho sem volta. Ainda que tenhamos herdado da cultura a neurose e o sentimento constante de insatisfação, tivemos outros ganhos como o conhecimento e a educação. Mas é preciso reconhecer que o progresso pode de fato produzir a nossa destruição, assim como podemos ser extintos pela curva desastrosa de um meteoro, como no caso dos dinossauros.

No que se refere ao nosso atual contexto, precisamos lidar com a COVID-19 e suas consequentes limitações como a quarentena. Essa praga viral matou milhares em alguns meses e provavelmente matará milhões até o término de seu ciclo. Ainda que ela não represente o fim da humanidade, deixará um enorme estrago, seja pelo número de mortos, pela crise econômica e pelas questões sócio-políticas. Se havia algum prazer em imaginar o fim do mundo e lamentar as frustrações da vida, o sentimento hoje é o de angústia por todas as incertezas. Essa é uma prova de que nunca estamos satisfeitos!

Na atual conjectura, perdemos o conforto de apreciar o fim da civilização pela ficção, deixamos de ser plateia para sermos os atores no palco da calamidade. Contra um inimigo silencioso e contagioso, somos obrigados a sacrificar ainda mais a nossa liberdade permanecendo quietos em casa. Ironicamente a nossa melhor forma de lutar é pelo isolamento, essa pode parecer uma atitude passiva, mas é a única ação ativa que podemos realizar no momento. Pelo menos por quem não foi contaminado.

Ao invés de assistir o fim da humanidade, talvez consigamos assistir de camarote o fim dessa pandemia globalizada, vislumbrando um novo horizonte. Será necessário força e paciência para recolher os escombros e talvez construir uma nova perspectiva das relações humanas.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.