Crítica | Westworld 3×05: ‘Genre’ aposta suas fichas no espetáculo audiovisual

Se partirmos do velho princípio de que todo vilão é o herói de sua própria história, pode-se dizer que Genre vem em boa hora. Abrindo a segunda metade dos episódios da terceira temporada de Westworld, o episódio é responsável por nos tornarmos íntimos do passado e das motivações de Engerraund Serac (Vincent Cassel), enquanto Dolores (Ewan Rachel Wood) e Caleb (Aaron Paul) continuam suas jornadas.

Linear e pautado na liberdade de escolha, Genre oferece aquele que é um dos momentos mais divertidos da temporada: o passeio alucinógeno por gêneros de Caleb, que dá título ao episódio (genre, gêneros em tradução livre). Os estudantes de cinema iriam curtir esse barato. Há uma ação constante aqui, intercalada com a história de vida de Serac, e a ambientação futurista ajuda a ampliar a atmosfera de desesperança e tecnologia. Há uma certa confusão a respeito do plano de Dolores, no entanto. Afinal de contas, ela quer libertar ou acabar com a humanidade?

Porém, tire de lado as perseguições frenéticas (são sim muito divertidas), as armas futuristas, os easter eggs musicais (David Bowie, Soundgarden, trilhas de O Iluminado e Love Story – Uma História de Amor) e a aventura cinematográfica por dentro da mente de Caleb. O que fica, no fim, é uma narrativa inflada por eventos que poderiam ter 15 ou 20 minutos a menos, e que deixa personagens que até então imaginávamos ser importantes, como Bernard (Jeffrey Wright), deslocados. Salva-se, portanto, o bem-vindo e necessário background para Serac, para que a partir disso possamos saber com mais clareza de seus planos, mesmo que isso aconteça, seja necessária uma certa dose de diálogo expositivo.

A responsabilidade de suceder um episódio tão revelador como The Mother of Exiles  é, portanto, algo que resulta em uma narrativa ancorada nos belíssimos efeitos visuais, na direção criativa de Anna Foerster, e na brilhante trilha sonora que Ramin Djawadi tem dado a Westworld. Genre poderia aprofundar um pouco mais a relação entre Serac e a Delos, inserindo Charlotte Hale (a essa altura você sabe que é a personagem de Tessa Thompson é uma versão da Dolores mas vamos nos situar dessa forma ok?) nesse contexto da espionagem corporativa, e até mesmo que diabos acontece com Maeve, após o capítulo anterior.

A não ser que esta temporada abra espaço para algo ainda maior e inesperado (ainda confio em vocês, Jonathan Nolan e Lisa Joy), o arco da terceira temporada parece limitado, justificando, portanto, ser a menor de todas as temporadas, e quiçá, poderiam ser episódios mais curtos, ou em menor quantidade. Mas não desinteressantes, cabe ser justo.

Westworld 3×05: Genre (HBO)

Genre reforça um futuro distópico com ares de atualidade

Algo que a terceira temporada de Westworld tem feito com brilhantismo é traçar paralelos com a atualidade, mesmo com os avanços tecnológicos pensados para muitas décadas a frente do nosso tempo. Cabe lembrar que o ano em Genres é 2058. O tráfico de dados pessoais e o uso deles para fins empresariais, que dá origem ao Rehoboam, é um exemplo disso, se levarmos em conta escândalos recentes envolvendo o uso desse tipo de dados pessoais, como o que aconteceu com o Facebook recentemente, por exemplo.

Durante duas temporadas, o mapeamento dos perfis das pessoas que frequentavam o parque caminhou lado a lado com o despertar dos anfitriões. O trato de Charlotte Hale com Serac, que parecia uma história de fundo, agora é, na verdade, a temática central da série. Controle e livre arbítrio para humanos e sintéticos. Dados e máquinas que podem decidir futuros de nações e moldar um novo mundo.

Para mostrar ao público essa questão, o episódio exemplifica o tipo do negócio que Serac e o Rehoboam são capazes de fazer. Abalar a democracia de um país e controlar mercado de ações são exemplos que estão muito além dos destinos das pessoas que são revelados nesse episódio. A sociedade como um todo é uma imensa narrativa nesse sentido.

Do outro lado da moeda estão Dolores e Caleb. Certamente há grandes coisas por vir, relacionadas ao ex-militar, cujo passado aprendemos um pouco, mas a parte justamente mais importante, pela história que tem sido contada, ainda está por vir. Afinal de contas, qual o papel de Caleb nesse choque de forças entre Dolores e Serac, e o que exatamente ele é?

Westworld 3×05: Genre (HBO)

Últimas Palavras

* Para tentar persuadir Connels (Tommy Flanagan), ou melhor, a versão de Dolores no corpo dele, Bernard tenta utilizar o livre arbítrio como argumento. Um contraponto interessante em um episódio que trata a liberdade como algo ambíguo, sobretudo, no aspecto humano.

* Os dois lados da moeda oferecidos pela tecnologia são interessantes. Veja o exemplo do carro inteligente. Você se senta nele e desce na porta de seu destino, sem transtorno algum. Porém, se o sistema é comprometido, tudo vai por água abaixo, a não ser que você seja amigo de Dolores Albernathy.

* Desde O Incrível Hulk eu não via um português tão falado de forma tão estranha em produção norte-americana. Evidentemente, é uma espécie de boa intenção colocar um personagem que fale em uma língua nativa, portanto, é louvável quando uma série ou filme estadunidense não se rende à tentação de colocar personagens de outro país falando inglês em seus países. No entanto, essa boa vontade poderia se estender ao ator também (oi, Chernobyl). Nada contra o ator Al Coronel, que interpreta o presidente brasileiro, mas nesses momentos, nós até compreendemos tais escolhas dos produtores norte-americanos (oi, Lost).

* Ainda sobre o segmento acima, não é de se estranhar a desenvoltura de Vincent Cassel com a nossa língua. O ator francês tem residência fixa no Brasil (Ipanema, Rio de Janeiro) e já atuou em filmes brasileiros. A filha mais nova do ator, que é apaixonado pelo nosso país se chama Amazonie, em homenagem a floresta Amazônica.

Westworld 3×05: Genre (HBO)

* O nome do presidente brasileiro é FILO e segundo o Rehoboam, será destituído por um general.  Uma indireta?

* Toda vez que Lena Waithe e Marshawn Lynch estiverem em cena, terão minha atenção.

* Ok, a morte de Liam Dempsey (John Gallagher Jr.) não era algo pelo qual esperávamos, mas a deixa de Dolores era clara: o herdeiro da Incite não era mais necessário. Verdade.

* Editar humanos nos remete diretamente aos técnicos de Westworld, que na primeira temporada, identificavam anomalias em anfitriões fora de suas narrativas. Aqui, veja como a forma como aquela instalação no deserto mostra essas pessoas editadas, em boxes, é semelhante aos experimentos com James Delos, e as próprias instalações do parque.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...