Years and Years e seu paralelo assustador com a atualidade

Artigo com leves spoilers da série Years and Years, da HBO

Na entrada de uma cidadezinha na região serrana do Rio de Janeiro, policiais barram a entrada de qualquer carro. O dia está escuro pelas nuvens nubladas que se acumulam a indicar uma chuva próxima. Um vento frio clama seu lugar, o verão acabou. Homens e mulheres equipados de máscaras e luvas, armas nos coldres, fazem sinal para que o veículo pare. “Apenas moradores com documentos comprobatórios podem entrar na cidade”. E eu pensando que cenas como essa só existiam em filmes de ficção científica, mas não. O ano é 2020 e o mundo enfrenta uma pandemia cruel.

Com o novo ano não vieram a concretização de resoluções, o alcance de metas, o elencar de objetivos, o traçar de planos. 2020 mal se inicia e se noticia um bombardeio americano ao aeroporto de Bagdá por ordem do presidente Donald Trump. Em resposta, o Irã disparou 22 mísseis contra duas bases norte americanas no Iraque. O mundo prende a respiração diante da possibilidade de uma 3ª e fatal Guerra Mundial.

Na Austrália, a pior temporada de incêndios de sua história. Cerca de um bilhão de animais mortos por um fogo que destruiu mais de onze milhões de hectares de floresta no país.

No Brasil, a crise da água no Rio de Janeiro em que moradores de vários bairros passaram a relatar cheiro e gosto ruins. Uma corrida por água instala-se e muitos passam a comprar o líquido essencial da vida que deveria ser dado a todos de graça. Em Minas Gerais, as chuvas causaram mais de 50 mortes e desabrigaram mais de 30 mil pessoas, 100 municípios em estado de emergência.

Em 25 de fevereiro, o primeiro caso de Coronavírus é confirmado no Brasil. Hoje, são 1056 mortes confirmadas no país e mais de 92,5 mil no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. A impressão é de que a cada ano que se passa, o planeta pede socorro. O meio ambiente e o meio social estão por um fio. O sistema vigente destrói a natureza para nos proporcionar produtos que supomos querer. As desigualdades são exorbitantes. Pessoas morrem tentando participar de uma estrutura que só faz sentido ao excluí-las.

Years and Years (2019) – HBO

A série Years and Years, lançada pela HBO e criada por Russell T. Davies em agosto do ano passado, tangencia essa temática. Sua proposta é analisar o mundo e seu futuro próximo, tendo sua linha temporal entre 2019 e 2034, pela perspectiva da família Lyons. Durante esses quinze anos, observamos o ser humano comum – representado pelos membros da família – vivenciarem mudanças climáticas, guerras, transformações socioeconômicas e políticas, crises de refugiados, avanços tecnológicos, além de um vírus bastante similar ao Sars-Cov-2 (que dá origem à COVID-19), que aparece ao final da temporada.

Assistimos a diversos eventos desencadearem-se em âmbito nacional – Reino Unido, onde a série se instaura – e internacional e como tais circunstâncias afetam os Lyons direta e indiretamente. Uma figura importante a ser destacada é a da personagem Vivienne Rook (Emma Thompson) que poderia facilmente estar representando personalidades reais, como Donald Trump ou Jair Bolsonaro. Sua imagem surge pequena e ridicularizada e aos poucos vai ganhando apoiadores e adeptos até se tornar primeira-ministra. Seu discurso é bastante similar ao de certos indivíduos na contemporaneidade, indicando traços preocupantes do avanço da direita em escala global.

A pergunta que continua a aparecer é: por que esse tipo de narrativa tem ganhado cada vez mais atenção e, pior, cada vez mais apoio na sociedade pós-moderna? Por que esses movimentos perigosamente próximos, ideologicamente, do fascismo têm ganhado espaço em um corpo social marcado pelas atrocidades já ocorridas? É possível haver uma reedição dessa corrente diante de um enraizamento político que se inclina na direção dessas tendências e pode já estar acontecendo?

É possível que tenhamos chegado a um ponto da nossa História em que não haja esperança de mudança para as mazelas da sociedade? Durante a Revolução Industrial, o ser humano vingou-se da natureza, que por muitos anos pareceu imperar sobre a nossa sobrevivência sem que pudéssemos fazer nada contra. Então veio a ciência, a razão e a tecnologia, presumindo uma vitória frente aos fenômenos naturais, reinando soberanos sob a humanidade. Será? Veio também um processo desenfreado de industrialização, urbanização e manutenção da sociabilidade burguesa que hoje constituem nosso modo de vida. Modo de vida este que está destruindo o planeta e seus habitantes.

Years and Years (2019) – HBO

Chegamos em um ponto em que a eficácia da tecnologia e a verdade da ciência não nos são mais suficientes. Os heróis de um século passado não vão nos salvar. Vivemos a era da transparência. Os impactos negativos do sistema já não passam mais totalmente ocultos da massa. A informação está aqui e a internet nos deu voz. Deu voz a qualquer um. Vivemos a era da desinformação, alimentada pelas fake news. O que é verdade? Vivemos a era do virtual, da potência, do cancelamento, mas também do questionamento e desconstrução. Vivemos a era da diferença, do encarar o Outro, do reconhecer do Outro e o admitir. Também vivermos a era do ódio à diferença e uma crise de dominação.

Tudo isso também é evidenciado na série, em que o bombardeio de informações acaba por conseguir o efeito contrário: confusão, ascensão de conceitos estapafúrdios – Terra Plana, oi? –, falta de memória – Ditadura não existiu, oi? Insegurança, desconfiança, suspeita. Medo da tecnologia – que um dia já nos salvou – e, ao mesmo tempo, obsessão. Todo esse caos e desordem criam o terreno perfeito para que alguns discursos ganhem relevância. Radicais, incoerentes e irracionais. Por que estes estão se destacando? Talvez, só talvez, porque já tenhamos confiado na razão e em figuras aparentemente racionais. E a humanidade continua em decadência, as injustiças pioram. Qual é a solução? Quem ou o que nos mostrará a verdade? E verdade sob qual ponto de vista?

Então surge o cenário propício a fundamentalismos religiosos, alienação cega confundida por fé, o implacável, o drástico. O fanatismo. O absoluto. Utiliza-se de princípios irracionais para justificar falas e práticas de ódio xenofóbicas e segregadoras. A barbárie só existe quando está na boca de uns, quando outros a citam, ignora-se. A mídia cria o cenário perfeito do horror – mostrado em várias cenas de Years and Years.

Years and Years (2019) – HBO

A tragédia espetacularizada e os jornais sensacionalistas abordam e repercutem o terror para a maioria da população. E aí talvez o discurso da extrema direita comece a fazer mais sentido para as pessoas aterrorizadas e com raiva das injustiças e catástrofes diárias. É um discurso que apela para um “nós” e se utiliza daquilo que permite uma identificação entre angústias, anseios e incertezas gerados pela realidade em comum de todos.

O final de Years and Years é otimista ao mostrar a família Lyons lutando contra as violências experimentadas e, de fato, conseguindo mudar alguns resultados. Mas e a nossa realidade? Será que é possível uma transformação social e uma mudança de mentalidade geral? Hoje, vemos algumas iniciativas que podem indicar o princípio de uma transição entre raciocínios, como o desenvolvimento sustentável e a tendência a um consumo mais consciente. A esperança em admitir a evolução do mundo também contribui para sua recuperação.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"