Crítica | Westworld 3×04: Dolores onipotente e onipresente em ‘The Mother of Exiles’

Encerrando a primeira metade da terceira temporada de WestworldThe Mother of Exiles acumulou inúmeros pontos positivos. O novo capítulo teve a missão de promover o retorno de um dos personagens principais da série (William), ao mesmo tempo em que entregou três grandes sequências de luta e reuniu todos os personagens principais em suas respectivas jornadas.

Na semana passada, eu havia falado na crítica do episódio 3 sobre o mistério em torno da identidade no corpo da versão anfitriã Charlotte Hale (Tessa Thompson). Confesso que, a julgar pelo histórico da série, certos mistérios já não se tornam tão atrativos, e tudo parecia caminhar para uma resolução a longo prazo, o que não se confirmou. Ponto extremamente positivo para a série, que faz sua trama andar de forma dinâmica, entregando respostas sem muitas delongas, e avançando a história deste terceiro ano.

A partir não apenas da revelação das identidades, mas pelas intenções das forças antagônicas cada vez mais claras, tudo se encaminha para um grande embate que vai redefinir novamente a série. Afinal de contas, apesar de parecer, a série agora não se trata apenas de uma guerra entre corporações. Westworld sempre deu foco aos seus personagens, anfitriões ou humanos, investindo no desenvolvimento de seus arcos, e isso provavelmente evoluirá para um próximo nível em novas temporadas.

Outro aspecto interessante deste episódio foi estabelecer uma dinâmica entre três duplas, proporcioando uma fluidez muito bem-vinda, auxiliados por uma boa edição em parceria com a trilha já memorável de Rami Djawadi (o que ele está fazendo nesta temporada é louvável). E desta vez temos não apenas o olhar tecnológico futurista, mas também uma espécie de submundo, o que nos aproxima um pouco mais
daquela realidade, em contraponto aos algorítimos, equipamentos e paisagens futuristas.

Por agora, o que temos é bastante animador. Ainda temos mais duas identidades a saber – e Bernard ainda é Bernard, ainda bem. E Stubbs, bem… as coisas ficaram feias nesse ponto.

Ed Harris em “The Mother of Exiles” – Westworld (HBO)

A ruína do Homem de Preto

William é o personagem com o qual temos feito as principais descobertas da série, seja por causa das linhas temporais da primeira temporada, ou pelo labirinto explorado ainda mais no segundo ano da série. As descobertas sobre o personagem foram graduais, e o molde de seu caráter nos permitiu saber que o parque o mudou ao longo dos anos. No entanto, nunca havíamos visto o Homem de Preto na completa ruína.

A principal dúvida que fica, tanto na cabeça do público, quanto do personagem, é o questionamento sobre sua realidade. William é real, ou é um anfitrião? A incerteza é pior que a confirmação do pior cenário, e isso é extremamente perturbador.

É necessário dizer que Ed Harris é brilhante como nunca. Completamente despido do ar arrogante e ameaçador das duas primeiras temporadas, ele nunca esteve tão fragilizado e impotente quanto agora. Ao perder o controle da Delos e ser internado compulsoriamente, o fim de jogo proposto por Dolores parece o inevitável desfecho do arco do personagem. Mas nunca é demais lembrar a cena pós-créditos do último episódio da segunda temporada, em que o personagem aparece em um futuro desconhecido, recebido por sua filha (uma versão anfitriã) em uma espécie de bunker da Delos. Esse é um cenário que ainda visitaremos no futuro.

Tessa Thompson em “The Mother of Exiles” – Westworld (HBO)

Dolores e Caleb

Juntos novamente, Dolores (Ewan Rachel Wood) e Caleb (Aaron Paul) têm uma missão a executar. Desta vez, não entramos a fundo no passado dele e quem conduz a dinâmica – e o episódio – é ela. Note que em todas as duplas que o episódio mostra em ação, há um mentor. Aqui, com plenos poderes e possibilidades, ela conduz o rapaz ao seu plano. Mesmo tendo o convencido no episódio anterior, cabe a pergunta: ele vai continuar seguindo Dolores fielmente?

Outro questionamento válido é a respeito não de quem Dolores é, mas o que ela é. Em algum momento isto será posto em evidência, embora, até agora, também já seja possível admitir, mesmo que de maneira remota, se Caleb é um híbrido. Questionar a realidade é plausível.

Algo que tem conferido uma certa previsibilidade, no entanto, é a forma como Dolores tem sido retratada. É como se nada pudesse deter a personagem nesta temporada, com poderes ilimitados e uma variedade enorme de recursos. Quando ela e Caleb vão ao banco, isso fica evidente. Ela diz que se o plano não der certo, resolveria do jeito dela. Então, de uma forma ou de outra, é uma espécie de confissão do roteiro: ela sempre vai vencer.

Aaron Paul e Ewan Rachel Wood em “The Mother of Exiles” – Westworld (HBO)

Maeve e Serac

Assistir a terceira temporada de Westworld é constatar que, realmente, só Maeve (Thandie Newton) é capaz de deter Dolores. E aqui ela retorna em grande estilo, até morrer (mais uma vez!) nas mãos de Musashi Dolores (Hiroyuki Sanada). Mas, além da investigação feita por ela, as belas sequências de ação e as cenas em que ela assume o controle das máquinas, há mais para se observar.

Serac (Vincent Cassel) passa de um investidor misterioso do ramo de tecnologia a alguém realmente ameaçador. E mais: quando ele tortura o homem que lhe fornece o nome que ele precisa, utiliza uma tecnologia que parece prever o futuro das pessoas. Seria algum tipo de projeção simulada, nos moldes do que aconteceu com Maeve no episódio 2?

Quanto ao retorno de Musashi, mesmo que estejamos cientes de que não é o anfitrião que conhecemos no Shogun World e sim a própria Dolores, é bom ter novamente Hiroyuki Sanada no jogo. Sua presença em tela é inegável e suas habilidades na espada, também.

Thandie Newton em “The Mother of Exiles” – Westworld (HBO)

Bernard e Stubbs

Outra dinâmica interessante para se acompanhar é a dupla Bernard e Stubbs na caça ao milionário Liam. E vejam só, eles até apreciam uma cerveja (será que ficam bêbados?) e rendem momentos de um velado e peculiar humor. A investigação dos dois é bem feita, e o plano, sem dúvida alguma, tem êxito até certo ponto. Porém, a sensação de impotência ao saber que Connells (Tommy Flanagan) também é Dolores só reforça a onipotência que a anfitriã tem até o momento.

No fim, o saldo para Dolores é extremamente positivo: Caleb é seu importante aliado, e William, Maeve, Bernard e Stubbs foram contidos por ela. Quem vai para esta mulher e quando Maeve vai fazer isso? Saberemos em breve.

Últimas palavras

* Dolores levou 5 pérolas de Westworld, além da sua própria, na anfitriã de Charlotte Hale. Vale lembrar que ela recriou seu corpo. Sendo assim, não perca as contas. Uma delas é Bernard. As demais estão nos corpos de Musashi, Charlotte e Connells. A última pérola ainda não foi revelada. Façam suas apostas!

Jeffrey Wright em “The Mother of Exiles” – Westworld (HBO)

* A atriz Katja Herbers havia declarado em 2018 que sua personagem realmente havia morrido. Quem viu o trailer da terceira temporada pode ter ficado confuso, mas agora a dúvida é: Grace era uma alucinação ou uma programação?

* Aaron Paul está se tornando especialista em interpretar personagens cativantes e manipulados. Era assim com Jesse Pinkman em Breaking Bad, e tem sido assim com Caleb Nichols.

* Sobre o título: “A mãe dos exilados” faz referência a Dolores, a libertadora. No poema “O Novo Colosso”, de Emma Lazarus, gravado na base da Estátua da Liberdade, é possível ver o trecho em questão.

* Certas coisas nunca mudam. Quando William se recompõe para ir à Delos, ele veste… preto.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...