Crítica | Em ‘Freud’, Netflix errou rude ao misturar misticismo com a vida do pai da psicanálise – 1ª temporada

Poucos autores foram tão polêmicos e mal interpretados quanto o pai da psicanálise, Sigmund Freud. Suas teorias relacionadas ao inconsciente e sexualidade foram alvo de grandes críticas no final do século XIX e mesmo depois de mais de um século, continuam sendo distorcidas. No final do mês passado a Netflix lançou a série Freud (2020), com duração de 8 episódios. Antes que os amantes da psicanálise se animem, a série não é biográfica. Há uma estranha mistura de elementos com alguns fatos da vida de Freud, mas também com exageros, um toque de misticismo e investigações criminais.

A série se passa no final do século XIX, quando o pai da psicanálise ainda era um neurologista residente e trabalhava no Hospital Geral de Viena. Nessa época, Freud (Robert Finster) ainda estava distante da psicanálise, atendia suas pacientes utilizando a hipnose. Uma noite, seu amigo lhe convida para ir em uma estranho evento em que ocorre um ritual espírita de incorporação. Pela primeira vez se depara com Salomé (Ella Rumpf) ao ser invadida por um espírito, que em breve se tornará sua paciente.

No dia seguinte, Freud expôs uma palestra para os seus colegas no hospital. Ele apresentou uma de suas pacientes e a hipnotizou, com o intuito de demonstrar a força do inconsciente nos quadros de histeria. Naquela época, os quadros histéricos eram incompreendidos pela medicina, pensava-se que essas pacientes eram fingidoras. Como elas não apresentavam qualquer espécie de desordem fisiológica, os médicos as taxavam de mentirosas. A histeria representava uma tremenda contradição no discurso médico, pois como alguém poderia sofrer de uma desordem da qual não havia o menor sinal de dano orgânico?

No decorrer de Freud, assassinatos brutais ocorrem inexplicavelmente. Ao hipnotizar a sua nova paciente, Salomé, o jovem médico percebe que nas visões dela, durante o transe, ela vivencia as cenas do crime e consegue ver o rosto dos assassinos. Assim, Freud colabora com a polícia para encontrar os bandidos. Curiosamente, quando os assassinos foram encontrados, todos pareciam estar hipnotizados e fora de si. Os criminosos não parecem ter motivos ou um perfil para cometerem os seus atos. Em alguns momentos, percebe-se a intenção em criar uma Viena com um clima de terror e mistério semelhante as histórias de Jack Estripador ocorridas em Londres.

Paralelamente, há a história do investigador da polícia, Kiss (Georg Friedrich), que apesar de ser um ótimo profissional, vive um período conturbado de sua vida. Depois de sofrer um trauma na guerra, persegue obsessivamente seu antigo superior, o que apenas lhe trouxe mais problemas e consequências desastrosas. Durante a guerra, Kiss foi obrigado a executar vários prisioneiros, o que lhe gerou muita culpa. No decorrer da série, ele também pede ajuda ao neurologista.

Georg Friedrich e Robert Finster em Freud (2020) – Netflix

A série Freud, dirigida por Marvin Kren, perdeu uma grande oportunidade em explorar as teorias psicanalíticas e a forma como Freud as desenvolveu. Ao misturar realidade e ficção, a produção faz um terrível desserviço em confundir o público leigo. Tanto a vida de Freud como a teoria psicanalítica sofrem duras críticas infundadas, sem contar as generalizações pobres de que tudo em Freud se remete somente ao sexo. Na tentativa de quebrar alguns mitos, alguns pontos mostrados na série precisam ser esclarecidos.

Em muitos momentos mostra-se o pai da psicanálise utilizando cocaína em uma grande dosagem, como se fosse um viciado. A partir de estudos biográficos e de cartas, é possível dizer que de fato Freud usou cocaína nas décadas de 1880 e 1890. Após os meados de 1890, não há comprovação que ele tenha continuado. Não há também constatações que tenha sido dependente da substância. Inclusive, Freud chegou a escrever artigos sobre os efeitos estimulantes e analgésicos da cocaína. É importante lembrar que nessa época ainda não se sabia os malefícios dessa droga e de outras como o ópio.

Nos meados de 1880, Freud já estava noivo de Martha, conforme mostrou a série. Devido a sua falta de dinheiro, o jovem médico arrastou o noivado por 4 anos. Ele precisava provar para a família da noiva que era um bom partido, apesar deles não pertencerem a elite econômica, desfrutavam de um certo status social. Já o neurologista não possuía nenhum dos dois privilégios.

Por ter uma condição inferior, ele sofria de ciúmes da moça, que na época era disputada por outros homens. Ao que parece, ambos se mantiveram fiéis um ao outro por toda a vida, mesmo quando moravam distantes na época do noivado. Existem boatos de que Freud teria tido um caso com sua cunhada Mina, irmã de Martha, porém não há comprovações.

Breur realmente foi um aliado importante de Freud, seja como amigo, parceiro nas discussões dos casos clínicos e também por lhe emprestar dinheiro. Ao que tudo indica, esses empréstimos nunca foram pagos e Breur não esperava que fossem. Juntos discutiram e analisaram grandes casos de Histeria, como a paciente Anna O. (Bertha Pappenheim), citada na série Freud. Não há dúvidas do quanto essas pacientes foram fundamentais para o desenvolvimento da psicanálise e serviram também como musas inspiradoras.

Ella Rumpf em Freud (2020) – Netflix

Uma das maiores atrocidades da série, ocorreu logo no primeiro capítulo, quando Freud se apresenta para os seus colegas na palestra. Ele e sua paciente encenaram a hipnose para convencer a eficácia do métodos. Na época, de fato, a hipnose era vista somente como um espetáculo barato. Essa cena é completamente descabida, o neurologista apesar de não gozar de prestígio naquela época, jamais se colocaria nessa posição. É valido ressaltar que apesar da hipnose existir, a série abusou do seu potencial. A principal vítima do exagero é Salomé, que é controlada pela sua tia por meio dessa. Segundo os profissionais dessa área, é necessário que o sujeito se permita hipnotizar. Caso lhe seja mandado fazer algo que ele discorde, o comando não será obedecido, por mais forte que seja a sugestão.

Outra questão importante a ser esclarecida: Freud trabalhou com hipnose, principalmente na época em que fez a parceria com o Breur. Seu parceiro denominou o uso da hipnose com o intuito dos pacientes descarregarem os seus afetos como método catártico. Com o tempo, Freud percebeu que era possível induzir os pacientes à falsas memórias e aos poucos abandonou a hipnose e passou a apenas conversar. O ato de falar dos pacientes, foi denominado como associação livre, representando assim, a passagem fundamental do método catártico para a psicanálise.

A psicanálise não trabalha com a hipnose, é possível afirmar que ela teve a sua importância em dois quesitos. O primeiro foi o de comprovar por um meio mais “empírico” a existência do inconsciente e a legitimidade dos sintomas histéricos. A partir da indução do transe, era possível retirá-los momentaneamente, provando assim a sua natureza puramente psíquica. A outra contribuição da hipnose foi a de ter já revelado o fenômeno da transferência erótica. Muitos pacientes se apaixonam pelo terapeuta, pois inconscientemente, revelar os seus sentimentos e intimidades psicológicas, em certos casos, é semelhante com o ato de se despir.

A série Freud possui um ótimo elenco, uma boa fotografia, uma caracterização impecável do final do século XIX, e abordou bem a questão da Histeria. Apesar disso erra a mão com as alterações históricas da vida de Freud, em superestimar a hipnose e com o rumo extremamente fantasioso e inverossímil da história, principalmente do meio para o fim da trama.

Robert Finster em Freud (2020) – Netflix

Nas redes sociais, alguns dizem que Freud é criticada duramente, pois muitas pessoas o endeusam. A questão não é a admiração, mas a distorção de uma figura tão controversa e banalizada como o pai da psicanálise. Portanto, fica a sensação de uma atitude leviana da produtora, como se tivessem explorado o nome do Freud para atrair telespectadores. Talvez não seja a toa que a série esteja entre as 10 mais vistas da plataforma.

Para maiores esclarecimentos, vale a leitura da biografia Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo, escrita por Peter Gay. O filme Freud: Além da Alma, também é uma excelente referência sobre a passagem da hipnose para a associação livre e sobre as descobertas do Édipo e da sexualidade infantil.                   

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.