Crítica | Better Call Saul – 5×08: “Bagman” é o auge da série

Embora seja uma tarefa fácil elogiar Vince Gilligan, é necessário dizer que Bagman, dirigido por ele, além de uma obra-prima no universo de Breaking Bad, é o verdadeiro divisor de águas em Better Call Saul. Aqui, chegamos ao ponto em que a linha foi cruzada definitivamente, e os dois universos das séries se fundem em um batismo de areia, sangue e provação física.

Em fevereiro, o showrunner Peter Gould falou sobre o caráter do episódio e salientou o grau de dificuldade do diretor. “Vince me disse várias vezes que foi a direção mais difícil que ele já fez. Quando você o vir, entenderá o porquê. No decorrer desta temporada, ‘Better Call Saul’ como um programa, para o bem ou para o mal, muda um pouco. E vamos a alguns lugares novos ”, explicou ele. Agora tudo faz sentido.

De fato, nada será como antes para Jimmy McGill (Bob Odenkirk). Sua morte – não física – é representada através de vários simbolismos, como as últimas gotas de água que saem do cantil de Mike (Jonathan Banks, brilhante como nunca nas ações e diálogos), os copos destruídos por balas e urina, e o carro, que por cinco temporadas vimos fazer parte da rotina do velho Jimmy. É como se os brilhantes episódios anteriores, JMM e Wexler v. Goodman, também ápices de uma temporada transformadora, estivessem preparando o público de forma definitiva para um novo nascimento e a perda da inocência. Saul Goodman ganhou vida própria e nada será como antes, agora que ele se tornou um amigo do Cartel.

Mas, o problema é o seguinte: uma vez que você está dentro, está dentro. Essas foram as palavras de Nacho para Jimmy, depois que ele conheceu seus novos clientes no início da temporada. No entanto, vejamos seu erro crucial: contar tudo para Kim (Rhea Seehorn). Foi justamente tentando ser uma pessoa melhor que Jimmy cometeu um enorme erro. Os principais pontos de virada em sua vida, aliás, consistem nisso. Boas intenções, péssimas escolhas.

Nada será o mesmo também, e portanto, para Kim. É seguro dizer que esta temporada também é a sua temporada. Bússola moral de Jimmy depois da morte de Chuck, Kim tem sido levada ao extremo, tanto pelas atitudes do novo marido, e pelo Mesa Verde. E como é importante dar uma história de fundo aos personagens, o que justifica certas ações. Afinal de contas, quando decidiu ir caminhando de carro na infância para não pegar carona com a mãe bêbada, Kim resolveu que faria as coisas do seu jeito. Ações como a sua total entrega no caso do call center do banco e o despejo do senhor Acker, portanto, tornam sua ida à cadeira para falar com Lalo (Tony Dalton) algo que ela poderia fazer com certeza.

Ao se tornar parte do crime organizado, automaticamente, há o risco de arrastar quem está por perto. Estamos vendo há duas temporadas a submissão de Nacho (Michael Mando) a Gus Fring (Giancarlo Esposito), porque ao se envolver no negócio das drogas, mesmo sem querer, colocou uma permanente sentença de morte em seu pai. É o que aconteceu com a família de Walter White. É o inevitável efeito cascata que pode arrastar Kim para um caminho sombrio.

Tecnicamente, Bagman reúne o que há de melhor em termos de atmosfera neste universo. Gilligan, que tão bem sabe trabalhar com as cores quentes do deserto, não se priva de utilizar planos fechados, ora em Jimmy Saul, ora em Mike, acompanhando os momentos de aflição e dor dos personagens. Em atuações dignas de Emmy, ficaria muito surpreso se uma indicação não acontecer na próxima temporada de premiações. A construção das cenas de tiroteio emula um dos momentos mais tensos de Breaking Bad, quando Hank encara os irmãos Salamanca, que retornam aqui para uma breve participação.

“Você não entende o que eu sou capaz de fazer”.  Uma das últimas palavras de Jimmy McGill em JMM, 7º episódio da quinta temporada de Better Call Saul, diz muito sobre o personagem. Afinal de contas, se este ano da série é o verdadeiro testemunhar das primeiras ações do alter ego do advogado assumindo o controle de sua vida, podemos dizer que, pela primeira vez, Jimmy percebeu que aquilo que estava fazendo era errado, e tudo aquilo que ele seria capaz. Os paralelos entre Saul e Heinsenberg ficam cada vez mais claros, cada um à sua maneira.

Desta vez, Jimmy viu a morte de perto, e percebeu que os raios disparados pelos seus dedos podem feri-lo, e ferir quem ele ama. Ele viaja por mundos que Howard realmente não imagina, mas o grande problema é quem ele próprio não seria capaz de imaginar os rumos que as coisas tomariam. É uma estrada de via única, que irá terminar no Nebraska.

Quanto a Mike, bem… nós já sabíamos de tudo o que ele é capaz de fazer. Não é surpresa alguma sua atuação aqui, e o mérito de Better Call Saul é justamente dar mais pano de fundo ao personagem. Agora ele definitivamente está dentro e Bagman não deixa de ser também um atravessar de fronteira para o personagem.

Últimas Palavras

* Na cena de abertura, a câmera passeia pelo galpão que abriga o braço da organização dos Salamancas chefiada pelos primos. É a primeira vez que vemos, de fato, isso acontecer, e temos a ideia de como é o negócio deles.

* Se restava alguma dúvida, sim, o deserto batiza os criminosos de Albuquerque.

* Tony Dalton como Lalo é uma grande adição ao elenco. Isso já fora dito antes, e cabe dizer novamente.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...