Artigo | ‘Rua Cloverfield, 10’: o dilema entre confiança e a manipulação das informações (análise)

Em tempos de pandemia, parece que vivemos uma situação tão surreal quanto os dos filmes de terror ou ficção científica. Ter que ficar em casa para realizar uma quarentena por tempo indeterminado foi algo inimaginável. No filme Rua Cloverfield, 10 (2016), os personagens também se isolaram, mas em uma situação muito mais catastrófica e se mantiveram presos em bunker por meses. No início do filme, Michelle (Mary Elizabeth Winstead) dirigia em uma estrada a noite e tinha recentemente terminado o relacionamento com o namorado. Em um instante de distração, sofreu um acidente, bateu o carro e saiu da estrada.

Michelle acordou confusa dentro de um quarto com a perna algemada, apesar de conseguir pegar o seu celular, de nada adiantou. Afinal estava em um quarto subterrâneo que estava sem sinal. Pouco depois surgiu Howard (John Goodman), o homem que a manteve presa. O estranho sujeito lhe contou que logo após o acidente de Michelle houve um ataque nuclear, talvez químico e que muito provavelmente dizimou grande parte da população da Terra. A moça insistiu de que seu namorado a estava esperando e que precisava ir embora.

Howard insistiu que o namorado dela deveria estar morto com todos os acontecimentos recentes. Michelle não acreditou nele, suspeita que esse seja um argumento falacioso para mantê-la presa. Por mais que o estranho homem houvesse tentado provar pra ela mostrando os porcos mortos na fazenda, ela duvidou. A protagonista tentou escapar algumas vezes, em uma delas, se deparou com uma mulher com várias manchas na cara e um aspecto sinistro, como se ela tivesse sido exposta à radioatividade. Quando Michelle estava na porta, muito próxima da liberdade, se deparou com essa mulher implorando para entrar no bunker.

Depois desse incidente, ela se convenceu por um tempo que talvez Howard estivesse certo. Durante o período em que estiveram de quarentena, havia mais um hóspede, Emmett (John Gallagher Jr.). Para driblarem o tédio eles desenvolveram hobbies e jogaram jogos de tabuleiro. Entretanto, Michelle e Emmett começaram a se cansar do confinamento e queriam sair do abrigo. Esse é um ponto de virada chave em Rua Cloverfield, 10. Para isso, secretamente, conseguiram roubar o material para tecer uma roupa de proteção contra a possível radioatividade ou moléstia do meio externo.

Rua Cloverfield, 10 (2016)

Um dia, Howard desconfia que os dois estavam tramando algum plano de fuga. Ele pega um barril de ácido sulfúrico e os ameaça jogar lá caso não confessem. Emmett, na tentativa de proteger Michelle, mentiu e disse que ele estava roubando o material e as ferramentas para fazer uma arma. Howard, logo em seguida, atira em Emmett e o coloca dentro do barril de ácido, para que não sobre vestígios de seu corpo. Pouco tempo depois, Howard viu a roupa que Michelle havia costurado, e por sorte, ela conseguiu escapar. Durante a perseguição, ela derrubou o barril de ácido em seu algoz e fugiu por um duto de ventilação e vestiu a roupa.

Quando Michelle estava fora do bunker, viu um pássaro voando e percebeu que o ar não estava envenenado. Porém, pouco depois, viu uma nave alienígena rondando a fazenda despejando uma substância tóxica. Chegou a ser perseguida por um extraterrestre, se escondeu dentro do chiqueiro e em seguida se trancou dentro de um carro. A nave tentou abduzi-la, dentro do carro havia uma garrafa de vinho e um isqueiro. Rapidamente, ela improvisou um coquetel molotov e durante abdução atirou a garrafa dentro da nave, causando uma explosão. No carro, escuta uma chamada no rádio alertando sobre um abrigo de sobreviventes em uma cidade próxima, e então, partiu em busca deles.

O sentimento de negação em Rua Cloverfield, 10

Rua Cloverfield, 10, dirigido por Dan Trachtenberg e produzido por J. J. Abrams, além de ter tido o êxito em criar um ótimo clima de suspense, soube deixar o telespectador em dúvida quase todo o tempo. Seria Howard um sequestrador perverso, capaz de manipular Michelle e Emmett para mantê-los preso? Ou talvez estivesse dizendo a verdade? A protagonista tinha fortes motivos para duvidar da versão dos fatos de Howard. Entretanto, pouco antes do acidente, ela escutou no rádio que algumas cidades estavam sem eletricidade.

Rua Cloverfield, 10 (2016)

Em relação ao Coronavirus, até há algumas semanas, vivenciamos um sentimento de negação semelhante. Como a mortalidade desse vírus não é tão alta, se comparado a outros, como o ebola, muitos subestimaram o seu potencial. Como no caso da Itália e da Espanha. Por mais que os principais afetados estejam em grupos de risco específicos, é preciso ter o cuidado de não contaminá-los e de não colapsar o sistema de saúde.

Michelle, por estar em uma condição mais alienante, precisou de uma prova mais palpável, no caso foi a mulher com o rosto manchado. Em tempo de fake news, é preciso ter cuidado com a veracidade das informações e com a negação dos fatos. Por outro lado, mesmo quando as informações são corretas, os meios de comunicação contribuem com uma sensação de distanciamento dos fatos. Principalmente quando eles não ocorrem com pessoas próximas. No caso do coronavírus, até há algumas semanas, era fácil acreditar que a epidemia era grave apenas em alguns países como China e Itália.

Em um conto do imortal Edgar Alan Poe, A Máscara da Morte Vermelha, um vilarejo era devastado por uma peste terrível durante alguns meses. O príncipe Próspero, subestimando o perigo, decidiu realizar um baile de máscaras em seu luxuoso castelo. Ele acreditava que lá dentro estariam a salvo da epidemia. Entretanto a peste conseguiu entrar de penetra na festa, com um aspecto assustador e rapidamente o arrogante príncipe e seus convidados foram todos mortos. Esse conto é uma ótima metáfora no que se refere à negação. Próspero quis quebrar o isolamento sem se importar com as consequências. O baile de máscaras do príncipe pode ser compreendido como cegueira e uma negação da realidade.

Já em Rua Cloverfield, 10, ocorrem duas questões: a primeira é a de que Howard não mentiu, houve uma invasão alienígena e eles jogaram na atmosfera uma substância tóxica realmente. Por outro, o misterioso homem, não foi apenas um salvador. Em alguns momentos, gostava de citar a sua filha e da falta que ele sentia dela. Segundo ele, sua ex-esposa a levou para outra cidade e então perderam o contato.

No decorrer da trama, em uma conversa entre Michelle e Emmet, eles perceberam que a moça da foto, na verdade não era a filha de Howard, mas uma garota que havia sido sequestrada há alguns anos. Ou seja, Howard se aproveitou de uma situação real para manter Michelle presa; talvez ele nem quisesse que Emmett estivesse lá, por isso talvez não tenha sido difícil matá-lo. Por algum motivo, deve ter assassinado a primeira moça sequestrada e se livrou do cadáver dela com o ácido.

Rua Cloverfield, 10 (2016)

Diante das informações que recebemos da mídia, nos colocamos em uma posição de desconfiança, como no caso de Michelle. O quanto as notícias são falsas? Ou talvez aumentadas no teor de dramaticidade? Há pouco tempo, o Coronavírus era apenas uma “gripezinha” e o cuidado deveria ser redobrado com os idosos e com os grupos de risco. Atualmente é visto como uma ameaça mais iminente, pois é difícil prever como cada sistema imunológico reagirá diante do vírus. Talvez o melhor a ser feito é se resguardar e não subestimar essa ameaça invisível.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.