Crítica | ‘A Jornada’ e o eterno dilema da mulher

Como diz Úrsula em A Pequena Sereia, “a vida é cheia de escolhas difíceis, não é”? E alguém tem como negar? A diretora Alice Winocour certamente concordou com a vilã quando escreveu o roteiro de seu mais novo longa, A Jornada (Proxima). E para mostrar o quanto, resolveu abordar uma das questões mais difíceis da vida da mulher moderna: a escolha entre a maternidade e a carreira de sucesso.

Já tem algum tempo que nós, mulheres, lutamos pelo nosso espaço no mercado de trabalho e muitas estão aí para provar nossa capacidade profissional. Sonhamos desde pequenas em nos tornar grandes advogadas, médicas, atrizes, jornalistas e até mesmo (e por que não?), como é caso de Eva Green na trama do filme, astronautas.

É por isso que, em A Jornada, quando a engenheira Sarah (Green) é chamada para uma missão em Marte, vê-se em face do maior dilema de sua vida: ir atrás de seu sonho ou abrir mão dele para ficar com a filha, Stella (Zélie Boulant). Durante 107 minutos, assistimos a esse impasse, nos perguntando se a moça teria coragem ou não de entrar na nave espacial.

E apesar do tema forte, Winocour tem o mérito de entregar uma obra dinâmica e sensível que passa longe da pieguice. É linda a forma como a cineasta consegue abordar essa questão sem deixar nenhum detalhe para trás, ajudada, é claro, pela impressionante atuação de Eva Green e da pequena Zélie Boulant.

É assim que percebemos o brilho no olhar de Sarah quando ela é escolhida para a missão espacial, seu sonho desde a infância, e como ela fica confortável no macacão azul da agência espacial em que trabalha. Notável também a forma superior com que ela lida com o preconceito de seus companheiros, pouco se importando se eles gostam ou não de ter uma mulher na missão. E não é difícil reparar em sua dedicação tanto para com o trabalho, como em relação à Stella.

A química entre Green e Boulant é tanta, que é difícil acreditar que elas não são realmente mãe e filha. Esta aliás, é outra das minúcias do longa. Winocour quis uma menina e não um menino para o papel, uma vez que, em geral, as meninas se identificam mais com as mães do que com os pais, o que tornou o laço entre Sarah e Stella ainda mais forte. Isso e o fato de a garota ter dislexia e dificuldades de socialização, sendo por isso, ainda mais apegada à sua progenitora.

E assim, cada cena mostra o quanto é bonita a relação das duas e quanto é difícil para ambas entender que ficarão mais de um ano (tempo missão) afastadas. A angústia de Sarah é ainda maior, porque a escolha da separação é inteiramente dela, que fica no meio do cabo de guerra entre o amor pela filha e a força de seu sonho.

A Jornada (2019) – Paris Filmes

Quanto aos aspectos técnicos de A Jornada, absolutamente nada a reclamar. O azul e o branco destacam-se, duas das cores da França, nacionalidade do filme, das atrizes principais e também da cientista e astronauta Claudie Haigneré, única mulher daquele país a ter ido ao espaço e a quem a diretora presta uma clara homenagem em sua obra.

A película também alterna entre os idiomas, passando do francês ao inglês à medida em que Sarah interage com a filha, o ex-marido e seus colegas de trabalho, dentre os quais se destaca Matt Dillon, em bela atuação. Interessante assistir como seu personagem, Mike, vai superando o preconceito em relação à colega de missão conforme a vai conhecendo melhor, reconhecendo sua capacidade. Ele acaba entendendo também como é muito mais difícil para ela deixar a filha do que é para ele deixar os seus.

Sendo assim, não é difícil afirmar, sem dúvidas, que A Jornada é o melhor longa francês a que já assisti e torço, de antemão, por uma indicação ao Oscar. Tomara que a Academia preste atenção porque esse longa já decolou rumo às estrelas.

A JORNADA | PROXIMA
4

RESUMO

Alice Winocour se supera com seu A Jornada e Eva Green entrega uma das melhores atuações de sua vida.

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Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.