Crítica | ‘O Poço’ é um excelente suspense visceral com crítica social pertinente à época atual

Curiosa produção espanhola que chegou de maneira tímida no catálogo da NetflixO Poço conta a história de Goreng (Ivan Massagué), um homem desavisado que decide participar de um experimento de isolamento com o objetivo de cumprir dois juramentos pessoais, deixar de fumar e ler o livro Dom Quixote. Ele acorda em um aposento cercado por paredes cinzentas e com um buraco retangular no centro. Junto dele, há mais um colega de quarto, um rabugento senhor de idade chamado Trimagasi (Zorion Eguileor).

Os problemas começam quando uma plataforma desce repleta de comida (ou melhor, os restos de uma luxuosa refeição) e é quando o protagonista descobre que eles se encontram em um complexo de vários níveis (o número exato é desconhecido) e que o nível 1 é o primeiro por onde a plataforma passa, ou seja, eles são os únicos que tem acesso à refeição completa, o que significa que nos próximos níveis por onde a plataforma irá passar, seus habitantes deverão comer o que eles deixarem.

A grande problemática do longa se dá ao fato de que as pessoas se empanturram de comida, o que faz com que os níveis mais inferiores, não fiquem com nada, passando fome e até morrendo (ou fazendo de tudo para sobreviver, inclusive atacando seus próprios companheiros de quarto).

É incrível como o filme foi lançado em uma época pertinente, o isolamento social causado pela pandemia do coronavírus. Em dias em que as pessoas correm ao mercado e estocam suprimentos, deixando os mais desfavorecidos sem ter o que comer, um filme como esse é uma excelente ferramenta para que as pessoas posam refletir o quão desprezível são suas ações. Desta forma, O Poço ganha ainda mais valor ao compôr sua narrativa com inúmeras referências e símbolos, que remetem inclusive aos ensinamentos cristãos presentes na Bíblia.

O Poço (2019) – Netflix

Os aspectos da película são bastante dignos de nota, uma vez que a fotografia, com paleta de cores frias, utiliza-se de planos bastante fechados, que causam em muitos momentos, claustrofobia, ilustrando a sensação que os personagens estão vivendo. Os quartos não são necessariamente claustrofóbicos em uma primeira impressão, porém, quando se imagina passar dias e dias enclausurados naquele ambiente sem janelas, a rotina começa a se tornar algo insuportável.

Outro elemento importante de ressaltar é a violência gráfica, que mostra o quão bestiais os seres humanos podem se tornar quando estão sob pressão ou quando pensam que sua sobrevivência está sendo ameaçada. Ao observar a violência praticada pelo personagens, é difícil não se recordar dos vídeos recentes propagados na internet, que mostram pessoas comuns saqueando e destruindo lojas para obter os itens vendidos nos comércios.

A direção de Galder Gaztelu-Urrutia é muito acertada e bastante detalhista, o que não é pouca coisa, ao se destacar que se trata de um diretor estreante, uma vez que o mesmo só havia produzido curtas-metragens. O Poço ganhou destaque em razão da fase em que o planeta vive atualmente, e promove uma boa reflexão sobre o que estamos vivendo.

O POÇO | EL HOYO
4.5

RESUMO

A curiosa produção espanhola O Poço chegou de maneira tímida no catálogo da Netflix, mas ganhou destaque em razão da fase em que o planeta vive atualmente.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...