Crítica | O total nonsense da 3ª temporada de ‘O Último Guardião’

Com spoilers da 3ª temporada de O Último Guardião

É. Não tem jeito. O Último Guardião descambou de vez. Mas se querem saber, depois do final da terceira temporada, lançada recentemente pela Netflix, cheguei a uma conclusão em relação a essa série: se você deixar de esperar alguma coerência de continuidade e se acostumar com as “soluções divinas” que lhes são peculiares, até que dá para assistir.

Para explicar o porquê, peço licença para fazer uma rápida recapitulação das temporadas anteriores, de modo que fique mais fácil entender a afirmação que fiz acima.

Novo: Leia a nossa crítica da quarta temporada de O Último Guardião

Temporada 1

Sem dúvida a melhor de todas, o motivo claro e inarredável do sucesso da série. Fomos apresentadas a Hakan (Çagatay Ulusoy), um jovem turco comum que trabalhava com o pai em uma loja no Gran Bazar, tinha um melhor amigo e se dava bem com a mulherada.

Um belo dia, porém, o moço resolve ir procurar um emprego na maior empresa de Istambul, que pertencia ao magnata Faysal Erdem (Okan Yalabik). Na entrevista, ele conhece a bela Leyla Sancak (Ayça Aysin Turan), alta executiva da corporação e, a partir daí, sua vida muda radicalmente. Hakan descobre que pertence à linhagem dos poderosos Protetores, cuja missão, acima de tudo, é proteger Istambul, principalmente dos malvados Imortais, que querem destruí-la. A ele, então, se juntam os membros da Lealdade, grupo de pessoas que juraram fidelidade ao grande herói. Dentre elas, destaca-se a destemida Zeynep Erman (Hazar Ergüçlü), sobre quem recai a árdua tarefa de treinar o novo Protetor.

Assim desenhadas (e muito bem) as bases da história, a temporada se desenvolve entre a busca de Hakan pelos Instrumentos que o auxiliariam em sua nova responsabilidade: a Adaga e o Anel (uma vez que a Veste do Protetor ele já possuía); o nascimento de sua relação com Leyla; e o amor platônico que Zeynep desenvolve por ele.

Assim, quando no final o sangue do Protetor escorre para acordar os Imortais e salvar Leyla da morte certa, consolidou-se um seriado digno de muita nota.

O Último Guardião – 1ª Temporada (Netflix)

Temporada 2

Mas veio a sequência que estragou tudo de bom que havia sido construído. A criadora Binnur Karaevli perdeu a mão. Depois da ascensão do time do mal, era óbvio que a segunda temporada teria que explorar a luta de Hakan contra não somente um (Faysal), mas todos os outros Imortais que se levantaram depois de uma longa soneca de várias e várias décadas. Porém a evolução da trama foi pessimamente desenvolvida. Entram em cenas as tais “soluções divinas” sobre as quais comentei lá no começo.

Sem saber o que fazer com alguns personagens, Karaevli simplesmente os colocava em situações absurdas para, então, mata-los. Foi assim com Kemal Erman (Yurdaer Okur), pai de Zeynep, e praticamente todos os integrantes da pobre Lealdade do Protetor.

Nem comento sobre Leyla, que de grande executiva e mulher muito segura de si, obrigada, transforma-se numa daquelas donzelas em apuros depois que sua mente passa a ser controlada ridicularmente por Faysal.

E os Imortais… Nada explica como puderam sair dos túmulos num século totalmente novo e tecnológico, já sabendo dirigir carros e manipular celulares com a maior facilidade. Uma facção milenar que usava espada, arco e flecha e poderes mágicos das trevas na luta pela destruição de Istambul, agora resolve acabar com a cidade de uma maneira muito mais sutil, desenvolvendo (agora vocês são cientistas e infectologistas, Imortais?) e lançando um vírus letal no ar (qualquer semelhança com a atual realidade do Coronavírus é mera coincidência).

Continuando nas mancadas do seriado, Karaevli mata Leyla. Se, com isso a intenção da criadora era juntar Hakan com Zeynep, falhou lindamente, já que os dois nunca possuíram nem uma faísca de química.

E para culminar, do nada, Hakan ganha um irmão. Seu nome é Levent (Engin Öztürk). Então vocês estão querendo dizer que a Lealdade, o grupo de apoio mais fanático e jurado ao Protetor, não sabia da existência dessa pessoa? Foi demais para a inteligência do espectador.

O Último Guardião – 2ª Temporada (Netflix)

Agora sim, a terceira temporada

Não entendi, portanto, porque resolvi assistir à terceira temporada de O Último Guardião, mas creio que foi em homenagem à primeira, tão interessante e instigante ela foi. Torci para que, de alguma forma, as coisas melhorassem e a série me reconquistasse. E de certa maneira, reconquistou, porque aprendi a relevar as falhas e a encará-las como a forma de contar a história que Karaevli passou a adotar.

Portanto, se entendermos que a criadora não está preocupada com a continuidade das cenas ou para a plausibilidade dos acontecimentos, o seriado passa a ser extremamente cômico!
Vejamos, então. Nessa temporada, depois de vencida a pandemia do vírus mortal, uma horda de novos personagens apareceu. Pipocaram (do nada!) vários integrantes da Lealdade com as mais diferentes habilidades para ajudar Hakan em seu novo desafio – vencer o pior dos Imortais (que até hoje ninguém sabia que existia): o poderoso Vizir.

Tenho que admitir, entretanto, que esse vilão é bastante interessante, porque não vemos o seu rosto até os dois últimos episódios, uma vez que ele só aparece nos espelhos, usando a imagem da própria pessoa com quem ele está conversando. Porém até lá, dá para se divertir bastante com o nonsense!

Como não morrer de rir com a impulsividade extrema de Hakan? Me peguei refletindo como alguém tão açodado como ele pode ser o Protetor de qualquer cidade. Esse foi, aliás, o grande desafio de Zeynep desde o primeiro momento. Treinar, e depois aguentar as explosões desse homem não é para qualquer um.

O Último Guardião – 3ª Temporada (Netflix)

Como era óbvio que o romance entre os dois não ia dar certo, trataram de arranjar um novo affair para a garota, o escorregadio Burak (Taner Ölmez). Inacreditável então o ataque de ciúmes do Protetor quando ela confessa que tinha passado a noite com seu novo “amigo”, só para depois ele também se dizer apaixonado por outra: a meiga e misteriosa Nisan (Funda Eryigit).

E assim, entre vírus, conversas com o espelho, ataques de raiva e várias quase-mortes de Hakan, passou a terceira temporada… quando então nos vimos no século XV, e agora teremos um seriado de época turco. É mole? Bom, eu até que gostei. Por incrível que pareça, o gancho para a quarta temporada de O Último Guardião me prendeu. Só espero conseguir manter a cabeça e não me arrepender da espera pelos próximos absurdos cômicos.

O ÚLTIMO GUARDIÃO – 3ª TEMPORADA
3.5

RESUMO:

Terceira temporada de O Último Guardião dá continuidade ao completo descaso com a coerência, mas por isso mesmo, acaba divertindo.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.