Crítica | Westworld 3×01: ‘Parce Domine’ é um “reboot” muito bem-vindo para a série

Já faz algum tempo que Westworld foi exibido na HBO pela última vez. Para ser bem sincero, nesses quase dois anos de intervalo, muita coisa se perdeu na memória desde “The Passenger“. Entretanto, a sensação de reboot em “Parce Domine” é inevitável, e não menos agradável. O mundo acaba de se expandir consideravelmente na série.

O episódio, dirigido brilhantemente por Jonathan Nolan e escrito por ele e Lisa Joy, confere ao programa um ar futurista mais perceptível, passeando por três países – China e Inglaterra no início – até chegarmos em uma Los Angeles do futuro. Se as duas primeiras temporadas, focadas essencialmente nos parques da Delos e nos anfitriões nos privaram do “mundo real”, agora estamos desvendando esse olhar de uma forma completa, pela primeira vez.

Se as temporadas iniciais focaram na natureza dos anfitriões e suas jornadas de autoconhecimento, seja para culminar na saída daquele universo fictício para o mundo real, ou para Além do Vale, agora as atenções se voltam para Caleb, personagem interpretado por Aaron Paul. “Parce Domine” estabelece Dolores (Ewan Rachel Wood) planejando sua revolução, com um modo de operação já estabelecido (mas que desejamos conhecer em algum flashback). Certamente ainda veremos o espaço de tempo entre suas ações e o dia em que saiu do parque, no corpo de Charlotte (Tessa Thompson). O episódio também nos mostra Caleb como alguém farto dos humanos e sua relação com a tecnologia. A jornada dos dois se unirá a partir desse desejo de mudança, portanto.

Em termos narrativos, há um frescor muito bem-vindo. Nada de linhas do tempo distintas ou quebra-cabeças. Além de uma boa hora de TV (na verdade 67 minutos), “Parce Domine” confirma os ares de reboot, pois funciona como um piloto, estabelecendo quem são, quais as intenções e o caráter dos aparentes protagonistas da terceira temporada. O foco aqui são os personagens e sua jornadas, lançando mistérios que serão desenvolvidos ao longo da temporada de forma mais palpável, como por exemplo, de que forma, ou melhor, por que Bernard (Jeffrey Wright) virou um açougueiro; de quem é a consciência no corpo de Charlotte (lembre-se que Dolores sai de Westworld no corpo dela, uma anfitriã, já que a verdadeira Charlotte está morta); e o que o super computador da Insight é capaz de fazer realmente.

Jeffrey Wright em “Parce Domine” – HBO

Ainda há muito o que ver, é verdade. Se você ficou para a cena pós-créditos, agora o mundo da Segunda Guerra é o mundo de Maeve. Aliás, é impressionante o fato de Thandie Newton precisar de tão pouco tempo de tela para roubar a cena. Mal posso esperar para ver isso, e como ela vai agir, já que era uma super anfitriã. Pelo menos era. Ver o desenrolar da sua história, além dos outros anfitriões em paralelo ao mundo futurista fora do parque, em uma narrativa mais linear, confere à trama um vigor novo e necessário.

Últimas Palavras

* Quando a rotina diária do personagem de Aaron Paul, Caleb, começa, ele acorda da mesma maneira que os anfitriões em Westworld. Tudo, desde seu enquadramento até sua posição na cama, remete a como Dolores costumava acordar quando seu loop reiniciava, antes dos prazeres violentos assombrarem a moça. Porém, o que os roteiristas querem nos dizer com isso? Caleb é uma anfitrião, ou Jonathan Nolan e Lisa Joy querem que você pense que Caleb é um robô? Ou isso é apenas uma rima narrativa, alguma espécie de metáfora para a rotina que pode ser extenuante para qualquer “espécie”. Em última instância, há muitas semelhanças ente as jornadas de Caleb e Dolores, então está claro que a união entre os dois faz todo sentido.

* “Os deuses reais estão chegando, e eles estão com muita raiva”, diz Dolores, em determinado momento. O título do episódio 1, “Parce Domine”, tem relação com uma canção católica que diz “Poupe, Senhor, poupe seu povo, não fique zangado conosco para sempre”. Dolores se considera e é praticamente um deus. Uma espécie mas evoluída. A questão é, quem, além de Caleb, ela irá poupar?

Ewan Rachel Wood em “Parce Domine” – HBO

* Que cena! É certo que “Parce Domine” remete bastante a obras ciberpunks, nos brindando com cenas em que o design de produção se sobressai absurdamente. No entanto, há uma cena que chama a atenção. Dolores sai do veículo, atira nos homens que tentaram drogá-la, enquanto assistimos tudo pelo para-brisa. Um homem baleado foge e é atropelado por ela, e dá para colocar os pés na ponta da cadeira e virar os olhos quando o carro passa em cima do corpo, duas vezes.

* Quanta coisa aprendemos em pouco tempo com Caleb, e o quanto ele parece ser um personagem interessante. Ex-militar, ele viveu um trauma que ainda não superou, assim como sua decepção com o seu tempo; ao mesmo tempo em que não suporta a inteligência artificial que domina quase tudo, não está pronto para voltar ao convívio social. Em paralelo ao seu desejo de uma melhor colocação de emprego – trabalha como construtor e tem como um parceiro um robô, bem diferente dos anfitriões da Delos –, ele descola uns bicos ilegais através de um aplicativo para lá de controverso. Aaron Paul é o cara certo para esse tipo de caracterização disruptiva.

* Se a abertura, a la Millennium: A Garota na Teia de Aranha, mostra Dolores no controle extremo da situação (para sentenciar um homem abusivo, Thomas Kretschmann, que morre de forma bem tosca), é curioso notar o tom caótico das cenas finais, em que ela termina baleada nos braços de Caleb. Determinação e sangue nos olhos não vão faltar. Imagine o que ela, mais sofisticada do que nunca (e com um Wi-Fi de dar inveja), poderia fazer com Bernard como sua dupla, já que ele agora ativa o modo exterminador quando quer, e faz auto-diagnóstico através de uma espécie de controle remoto.

* Ainda sobre Bernard, quem diria, há uma forma clandestina, ou digamos, alternativa, de chegar ao parque. A tecnologia evolui, mas certas coisas nunca mudam.

“Parce Domine” – HBO

* A ambientação da temporada, além do design de produção, e de som, se beneficia muito da trilha sonora sempre impecável de Ramin Djawadi. Ora futurista, ora pesando a mão no piano, o episódio, com exceção de raros momentos, utiliza a música como elemento essencial para contar a história.

* É impressionante como o elenco da série mantém o alto nível nesta temporada, pelo menos no início. Lena Waithe (Ash) e Marshawn Lynch (Giggles) mostram uma presença incrível na tela, trazendo um tipo de caracterização bem diferente e mais mundano para a série. Tommy Flanagan, chefe de segurança de Liam (John Gallagher Jr.), é ameaçador, e felizmente, Connells ainda voltará, em outra versão. Vale lembrar que ainda conheceremos  a jornada de Vincent Cassel, que provavelmente tem relação com a misteriosa personagem de Pom Klementieff. Parece bom!

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...