Crítica | Muita ação e fumaça em ‘Bloodshot’

Não é sempre que um diretor estreante consegue fazer sucesso. No Cinema contemporâneo, agradar um público cada vez mais exigente não é tarefa tão fácil, ainda mais quando o cineasta resolve, em sua primeira investida, tomar para si um desafio como Bloodshot, um dos personagens de quadrinhos mais populares da Valiant Universe. Contudo, Dave Wilson saiu-se muito bem no projeto a que se propôs.

Com o implacável Vin Diesel no papel principal, deparamo-nos com um filme que não traz nada de inovador. É a velha história dos americanos na eterna busca pelo super soldado, cujo maior exemplo é o próprio Capitão América. Não obstante, o longa cumpre perfeitamente seu papel de entreter, e é ação pura do começo ao fim, cheio de efeitos especiais que não deixam nem um pouco a desejar, mas que exagera na fumaça. E quando eu digo fumaça, refiro-me tanto ao sentido literal como ao figurado.

Assim, na trama, o ex-combatente Ray Garrison (Diesel), morto durante uma missão, tem o corpo modificado por uma corporação para se tornar, então, o super-humano Bloodshot. Essa organização, entretanto, passa a controlar também sua mente, tornando as lembranças da vida pregressa do soldado bastante enevoadas para ele.

Dessarte, ao levar tal premissa em consideração, não é de hoje que o cinema mostra o futuro inevitável da raça humana, quando então evoluiremos para nos tornarmos uma nova espécie, mais forte e letal, fundidos com a máquina. E são vários os personagens nos mostram isso. Além de Ray, que tem seu sangue enriquecido com um exército nano-tecnológico, ainda temos KT (Eiza González), que respira com a ajuda de um artefato preso ao tórax; Jimmy Dalton (Sam Heughan), que tem as pernas mecânicas por ter perdido as originais, e Martin Axe (Toby Kebbell), que tem os olhos substituídos por outros bem mais poderosos. Isso para não falar do próprio Dr. Harting (Guy Pearce, em excelente performance), comandante da corporação de tecnologia, que possui um braço artificial.

A parte mais importante, porém, ainda é o cérebro, como bem nos mostra o excelente A Origem, de Christopher Nolan, filme a que Bloodshot faz remeter bastante o pensamento do espectador. Um exemplo é quando o Dr. Harting entra na cabeça de Ray, construindo um belo cenário para os dois conversarem. Não há como não lembrar da figura do arquiteto do filme de Nolan, a pessoa responsável por construir os locais onde a equipe de Cobb (Leonardo DiCaprio) iria trabalhar.

Bloodshot (2020) – Sony Pictures

Fica claro, além disso, o cuidado que existe com os detalhes da película, como a tatuagem de KT, que lembra uma escama de peixe, referência a sua capacidade de respiração dentro d’água, cortesia que a ciência lhe proporcionou; ou o chiclete que Dalton não para de mascar, reforçando sua personalidade nojenta, tão diferente do apaixonante Jaime de Outlander. E além disso, a montagem do filme também é muito bem-feita, com a trama se encaixando redondinho ao longo do tempo. Quanto a isso não o que reclamar.

Por outro lado, todavia, como já dito, não há nada de original em Bloodshot e é claro que existem alguns furos, como a falta de atenção a alguns personagens. Continuo com o exemplo de KT. Eiza González, além de estar maravilhosa, é uma das figuras mais interessantes da história e merecia ter sido melhor trabalhada, dada sua importância na trama. Outro que seria digno de maior atenção é Wigans (Lamorne Morris), um dos programadores nerds responsáveis pelo desenvolvimento de todo o programa tecnológico utilizado em humanos.

Fora isso, ainda há a questão do fumacê em sentido literal, usado à exaustão na película. Explosões são normais nesse tipo de filme, porém, na parte técnica, o único senão do longa de Wilson é o excesso de fumaça. Quando ela não vem de bombas e granadas dá um jeito de aparecer. Em uma cena, inclusive, Ray estoura sacos de farinha para atrapalhar a visão de seus adversários. Fumaça, fumaça e fumaça. Não é nada que atrapalhe, contudo, a experiência do público.

Sendo assim, Bloodshot mata a bola no peito que brilha como o do Homem de Ferro e consegue fazer um gol, não de placa, mas com nível e beleza o bastante para agradar.

BLOODSHOT
3.5

RESUMO

Em sua primeira empreitada na direção de um longa-metragem, Dave Wilson se sai muito bem com Bloodshot.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.