Crítica | ‘A Maldição do Espelho’ se afoga em águas rasas

Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?“ A famosa frase da Rainha Má em Branca de Neve pode ter sido a primeira experiência de muitas pessoas com uma entidade estranha dentro de um espelho. Porém, afora esse tão conhecido clássico, muitas outras histórias, digamos, sobrenaturais com essa superfície refletora podem ser citadas. De doppelgängers a vampiros, essas narrativas geralmente não possuem uma conotação muito positiva, e com A Maldição do Espelho não é diferente.

O filme russo do diretor Aleksandr Domogarov pode ser considerado, portanto, mais uma tentativa de mergulhar no mundo invertido que observamos quando encaramos nosso próprio reflexo, mas falha em vários aspectos e esconde muito menos do que deveria.

No enredo, os irmãos Olya (Angelina Strechina) e Artyom (Daniil Izotov) ficam órfãos depois que a mãe morre afogada num terrível acidente. Eles então acabam matriculados em um internato isolado sediado numa mansão muito antiga, onde os esperava uma diretora meio gótica e um professor boa pinta. Os problemas começam, porém, quando, numa noite de diversão proibida, Olya e seus novos colegas são interrompidos por Artyom que dizia ter visto a mãe morta andando pelos corredores. Agitado, o garoto acaba levando todos a um porão sombrio onde jazia um enorme espelho.

Faço aqui um adendo para dizer que várias dessas facetas do longa me lembraram muito o eterno e inesquecível Harry Potter. O lúgubre internato, principal locação do longa, apesar de não ser um castelo, pode bem ser comparado em essência a Hogwarts e seus estudantes atarefados. Ademais, assim como a escola de bruxaria, o casarão fica localizado perto de um grande lago frio; um dos novos amigos de Olya é chamado de Dobby; e, finalmente, não há como não lembrar da cena em que Harry acidentalmente encontra o espelho de Ojesed em A Pedra Filosofal. O bruxinho logo descobre que o grande artefato mostrava em seu reflexo o desejo mais íntimo de quem o mirava, mas em A Maldição do Espelho, é com a Rainha de Espadas que os garotos terão que lidar.

Contudo, diferente da obra de J. K. Rowling, o filme de Domogarov peca principalmente pela falta de profundidade em tudo a que se propõe, conformando-se com soluções rasas e simplistas até mesmo em relação aos elementos técnicos. A fotografia parece se resumir a uma bela imagem da chegada dos irmãos à escola e pronto. A trilha original fica a cargo da caixa de som dos garotos na noite da festinha proibida e acabou. A diretora do internato parecia saber muito mais do que mostrava, mas fica por isso mesmo. E o professor herói, de herói não tem nada, e termina por não fazer diferença nenhuma.

Também não há qualquer atuação marcante que nos faça ignorar os clichês do terror e o fato de o filme ter chegado ao Brasil com dublagem em inglês – isso mesmo, os atores russos são dublados em inglês! – só torna as coisas mais bizarras, com suas bocas fazendo movimentos diferentes dos sons que saem delas e atrapalhando enormemente a experiência do espectador. Se existe algo realmente assustador é isso.

Para finalizar, trago aqui uma informação a título de curiosidade. Em 1834, na Rússia, Alexander Pushkin lançava sua obra mais famosa, um conto que o tornaria o pai da literatura moderna naquele país. O título é A Dama de Espadas. Consagrado, o livro teve sua história transformada, mais tarde, em duas óperas, uma de Tchaikovsky (The Queen of Spades) e outra de Franz von Suppé (Pique Dame). A Maldição do Espelho não é exatamente baseado na obra literária de Pushkin, mas tem como figura central uma entidade cujo nome tomou emprestado de Tchaikovsky: a Rainha de Espadas.

Confesso que passo longe de ser grande conhecedora das lendas soviéticas e que não li o livro a que me refiro acima, mas posso dizer que o longa de Domogarov não ajuda muito a aprofundar o conhecimento. Muito pelo contrário, é um dos filmes mais rasos que já encontrei em minha experiência cinematográfica, como já afirmado. A sensação é a de ficar flutuando à margem da história tentando encontrar uma brecha por onde entrar realmente na trama, sem jamais conseguir.

Sendo assim, apesar da boa associação entre o espelho e a água, que também reflete a imagem, A Maldição do Espelho deixa muito a desejar.

A MALDIÇÃO DO ESPELHO
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RESUMO

Por incrível que pareça, o que mais assusta em A Maldição do Espelho é um fator totalmente inusitado…

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.