Crítica | ‘Por Lugares Incríveis’ desperdiça bom material de origem entregando uma adaptação frustrante

A obra de Jennifer NivenPor Lugares Incríveis, publicada em 2015, fez um enorme sucesso no período de seu lançamento. Com o intuito de alertar e informar o público jovem sobre saúde mental, o livro foi elogiado pela responsabilidade com que o assunto foi abordado, trazendo uma trama pesada, mas que, ao mesmo tempo, consegue dialogar perfeitamente com o público alvo. Sua adaptação, aguardada desde então, demorou a chegar, e talvez o apelo e a empolgação dos fãs tenha diminuído pelo intervalo de 5 anos entre a leitura e o lançamento do filme.  

Netflix, principal casa das adaptações de livros jovem-adulto, felizmente agarrou o projeto para si, e resolveu lançá-lo em um período que pode ir contra ao desejado pelos leitores, mas que ainda vai de encontro diretamente com uma época em que filmes teen estão obtendo um enorme sucesso na plataforma, vide Para Todos os Garotos que Já Amei e A Barraca do Beijo, por exemplo.  

Porém, é sempre válido lembrar que a empresa não possui uma boa reputação quando se trata de abordar saúde mental e suicídio, os quais são os principais pontos de discussão de Por Lugares Incríveis. Sim, estou falando com você novamente, 13 Reasons Why. Dessa vez, a irresponsabilidade pode não ter beirado ao absurdo que foi inserir uma cena explícita de suicídio em tela, mas ainda assim precisa ser discutida e revista. 

A trama segue a história de Violet (Elle Fanning) e Finch (Justice Smith). Os dois se conhecem em um momento bastante delicado da vida de Violet, o que faz o garoto passar a tentar ajudá-la ao mesmo tempo em que fazem em conjunto um projeto da escola em que o intuito é conhecer e escrever sobre os lugares que consideram mais incríveis na cidade. A premissa pode parecer simples, mas o subtexto da história é o que a torna tão especial e comovente. 

Por Lugares Incríveis (2020) – Netflix

Deixando de lado as comparações entre adaptação x livro, o roteiro não esconde sua preferência em fazer da personagem de Fanning a principal protagonista da história. Por mais que o protagonismo seja – indiretamente – dividido entre Violet e Finch, o principal foco acaba indo quase que totalmente para a garota. Em partes, é um ponto positivo pois Fanning brilha em cena, mas em outras, tira a importância de Finch e da discussão que o personagem traz. 

Na transição do segundo para o terceiro ato, há um pequeno desenvolvimento de Finch para que o roteiro consiga chegar até o ponto crucial da história. Mas, por ter dado apenas pinceladas no que ele realmente vem sofrendo há muito tempo, o impacto do ato final acaba sendo diminuído. Quando se tem uma história com um peso dramático desse tamanho, a necessidade de trabalhar corretamente seus personagens é enorme, e o filme não parece ter conhecimento disso. 

Ao se tratar de Finch, a sensação passada é de apenas dúvida. Para quem leu o livro, pode não ter ficado clara a precariedade de desenvolvimento com o personagem, mas para o espectador que estava apenas procurando assistir à um bom filme, a interrogação que o final deixa se torna difícil de ignorar. O que Finch tinha? O que se passava na cabeça dele? Por que ele sumia em determinados pontos da história?  

Mesmo que o impacto seja diminuído, o filme dirigido por Brett Haley ainda tentar fazer o espectador se emocionar e se importar com os personagens. Justice Smith, por mais que tenha um talento questionável, não estraga a experiência, e a química dele com Fanning consegue funcionar durante a maior parte do tempo. Quando os dois estão juntos, o filme cresce, quando estão separados, o efeito é o contrário.  

Por Lugares Incríveis (2020) – Netflix

Por Lugares Incríveis pode não alcançar o mesmo nível de irresponsabilidade que outras produções da Netflix, mas não esconde a falta de carinho e apreço que tinha com o material de origem. A obra de Jennifer Niven traz uma discussão muito mais profunda sobre saúde mental, a qual o roteiro aqui tenta trazê-la da mesma forma, mas falha eliminando o desenvolvimento de personagem que faria a reflexão ser passada com mais clareza. Uma pena, pois o resultado acaba sendo apenas frustrante.

POR LUGARES INCRÍVEIS | ALL THE BRIGHT PLACES
2.5

RESUMO

Por Lugares Incríveis é frustrante. Com um bom material de origem nas mãos, o filme peca ao deixar o desenvolvimento de um dos principais personagens de lado, fazendo com que a mensagem e o impacto do ato final não sejam sentidos da forma que deveriam.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.