Crítica | ‘O Homem Invisível’ utiliza alegoria para criar suspense psicológico acerca da violência doméstica

Conhecida pela série O Conto da Aia, Elisabeth Moss vive uma mulher sem direitos ou vontades em um futuro distópico, no qual, sua única função é procriar, gerando assim os filhos do casal para quem trabalha. Não satisfeita ao dar vida a uma das personagens femininas mais importantes da TV dos últimos anos, Moss intercala seu trabalho com a tela grande. Em O Homem Invisível, a mesma vive Cecília, uma mulher que decide fugir de um relacionamento abusivo que vivia com seu agora, ex-namorado. Após cometer suicídio na casa na qual moravam, o homem é dado como morto. Entretanto após achar que o suspeito se suicidou, seguido por uma série de coincidências macabras, Cecília trabalha para provar que está sendo caçada por alguém que ninguém pode ver, nem ela mesma.

Com o suspense instaurado em menos de 10 minutos de filme, O Homem Invisível não poupa emoção em sua apresentação. Morando em uma casa completamente isolada, Cecilia foge após dopar o seu parceiro, sua irmã (Harriet Dyer) a pega em frente à sua casa, enquanto câmeras do lado de dentro apresentam um possível passado vivido pela mulher.

Câmeras por todos os lados, alarmes e travas especiais acompanham Cecilia de forma frenética em busca de liberdade, enquanto Adrian (Oliver Jackson-Cohen) dorme, sedado por remédios. Acompanhando os seus passos pela casa moderna com eletrônicos avançados e vidros por todos os lados, é assim sabido de quem se trata o homem que dorme, um renomado cientista especialista em optica.

A câmera apresenta a personagem através dos corredores em que segue para sair do que se parece ser o seu pesadelo, entretanto, desde o início, o ângulo da escolhido perpassa locais que não estão no foco da personagem, ou nos quais ela se quer está presente em cena. Assim, o diretor Leigh Whannell (Sobrenatural: A Origem) mostra ao público locais vazios, se a protagonista ocupa o lado direito da sala, o esquerdo será objeto de mais tempo de tela, evidenciando algo que não se vê, mas que é tão importante quanto Cecília, a ponto de roubar o protagonismo.

Em tom premonitório, o suspense do longa se constrói quando a personagem principal não está em cena. Assim como em Atividade Paranormal onde as coisas que ocorriam eram apresentadas pelas câmeras, enquanto os personagens se ausentavam – seja dormindo ou não estando presente –, em O Homem Invisível vemos coisas que Cecilia não vê. Uma faca que cai da arquibancada é algo que pertence ao público, não a personagem. Entretanto, quando a protagonista passa a perceber o que ocorre ao seu redor, ela também é a única, nenhum outro personagem possui tal percepção.

O Homem Invisível (2020) – Universal Pictures

Vendo as cenas antes delas de fato acontecerem, o público está sempre à frente de Cecília. Entretanto, não se sabe o que ou quem que pratica tais atrocidades com a mesma, já que o mesmo – não podendo ser visto – está à frente do público. A opção dentre a infinidade de possiblidades é o que sustenta o resto de 1h30 de filme. É nesse tempo que a protagonista passa a entender a realidade que está vivendo, entretanto, não tendo provas que validem a sua palavra, a jovem começa a viver um novo pesadelo. E é aqui que o longa estabelece suas maiores afinidades com a política vigente no mundo real.

A violência contra mulher é um crime institucionalizado desde -, entretanto, isso não fez com que os índices da violência, diminuíssem. Tendo em vista que a mulher além de sofrer a violência, precisa de provas que sustentem sua fala. Não foi preciso cenas de agressões para que ficasse explicito o funcionamento do relacionamento de Cecília e Adrian. O abuso físico complementa o que, de forma implícita, já foi apresentado. Se Zeus, cachorro “endeusado” de Adrian tem medo do mesmo, porque Cecília não teria? Vítima corriqueira de gaslighting por aquilo que a persegue, sempre que busca por provas é desacreditada. Emocionalmente abalada e instável psicologicamente, Cecília não consegue ir até a caixa de correio de seu amigo sem pensar que algo pode lhe acontecer estando fora de casa. Mas é dentro dela que os acontecimentos tem início.

Sem entender o que está acontecendo, Cecília apenas sabe que Adrian tem algo a ver com o que ocorre, entretanto, como poderia ela provar se o mesmo foi dado como morto? Ao tentar provar de alguma forma o que está passando, procura por aqueles mais próximos. Sua irmã, Emily e seu amigo, James (Aldis Hodge) compõem o elenco secundário, ambos dando ao filme os aspectos de segurança e amparo. Por acompanhar o que Cecilia está vivendo, mas estando de mãos atadas, é reconfortante para o público saber que ela não está completamente só. O filme assim, explora bem os coadjuvantes, de forma que suas presenças não sejam passivas e artificiais, mas que impliquem de fato na trama.

Para um longa que possui seu suspense construído logo no início, O Homem Invisível sabe exatamente a que veio. Os ângulos que são mostrados ao espectador, mas não a protagonista, – até o jogo de gato e rato construído do meio para o final – constituem um dos melhores longas de suspense do ano, mesmo com 2020 apenas começando. Elisabeth Moss vive Cecilia de forma mutável e completamente verossímil com tudo o que passa. A personagem passiva e assustada do início da lugar a persistente e corajosa Cecília do final. As alegorias utilizadas para falar sobre a violência doméstica não só funcionam – como por exemplo o fato do suspense existir na maior parte do tempo em casa quando a protagonista está só – como vai além, criando sua própria identidade a partir de uma causa importante.

O Homem Invisível (2020) – Universal Pictures

A trilha sonora de Benjamin Wallfisch (It) dá ao filme um tom tecnológico, inovador porém atordoante, casando bem com a casa e seus artifícios tecnológicos e dando ao filme a atmosfera necessária de suspense e ação. O longa reinventa seu mistério conforme as revelações ocorrem, o que desemboca com sua protagonista se reerguendo após tudo o que viveu.

Mesmo que o final de O Homem Invisível deixe um sentimento agridoce com relação a Cecilia e seu amigo mais próximo, James, a sensação de missão cumprida transborda a tela de cinema tornando ainda mais grandioso acompanhar a protagonista tendo seus últimos minutos em cena em paz.

O HOMEM INVISÍVEL | THE INVISIBLE MAN
4

RESUMO:

Em O Homem Invisível, Elisabeth Moss dá vida a Cecilia, personagem que vive suspense a partir dos abusos físicos e psicológicos de algo que não pode ver.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.