Crítica | O começo de um fim tosco para ‘As Telefonistas’

Julguem-me se quiserem, mas lembro-me de que comecei a assistir As Telefonistas (Las Chicas Del Cable), série de drama da Netflix, somente por causa de Maggie Civantos. A atriz havia acabado de deixar o excelente Vis a Vis, que a alçou ao estrelato, para interpretar uma das protagonistas da nova produção espanhola. Depois da raiva que senti em saber que ela havia abandonado uma das melhores séries da TV dos últimos tempos – ainda mais depois da excelente segunda temporada -, precisava saber se tinha valido a pena.

Leia a crítica da segunda parte da temporada final de As Telefonistas!

Assim, quando li o resumo da trama de As Telefonistas na plataforma de streaming, o seriado me pareceu bem interessante. Mas tinha que ser mais do que isso, já que a saída de Civantos de Vis a Vis mudou radicalmente os rumos que a história poderia ter tomado se ela tivesse permanecido e, para mim, a compensação tinha que ser grande.

Já no primeiro episódio do seriado, porém, ficou claro que a inesquecível Macarena, apesar de ter uma participação bem importante – interpretando Ángeles Vidal, a melhor das telefonistas da maior empresa de telefonia da Espanha do começo do século passado -, não era a protagonista. Esse papel caberia a Blanca Suárez, a bela e espevitada Lidia Aguilar.

Seguindo nos episódios, também deu para perceber que o seriado tinha um viés mais novelesco – ao contrário do fenômeno La Casa de Papel e do próprio Vis a Vis – o que até justificava os clichês e o fato de ser um pouco mais longo do que agora vem se convencionando, que é de 6 a 10 episódios por temporada. Entretanto, apesar de eu até hoje não conseguir entender o motivo de Maggie Civantos ter abandonado um seriado pelo outro, confesso que As Telefonistas conseguir me prender.

A verdade é que não sei bem o que me manteve firme e forte na audiência da série e, além disso, gostando dela. Cheguei a conclusão de que não deve haver mesmo um motivo determinante.

Seguimos pela primeira, segunda, terceira e quarta temporadas acompanhando as histórias de quatro mulheres fortes e cheias de personalidade: Lidia (Suárez), Àngeles (Civantos), Marga (Nadia de Santiago) e Carlota (Ana Fernández), com foco, como já dito, naquela primeira.

Isto posto, você deve ter percebido que a pegada de As Telefonistas, que se passa no começo do auge da luta das mulheres por maior representatividade e respeito, tem uma pegada bastante feminista, abordando quase tudo por que as mulheres podem passar nessa vida: preconceito e cargos baixos no trabalho, abuso doméstico, pais machistas, bissexualidade e, claro, a maternidade, entre outras coisas.

Tudo estava certo e muito bom e eu não conseguia largar o seriado, até que a quarta temporada, e especialmente o último episódio, começou a dar sinais da queda vertiginosa de entusiasmo que estava por vir.

Essa quebra de expectativa é sempre terrível e todos nós já passamos por isso antes, com essa ou aquela produção, sendo que os dois casos mais famosos de decepção do grande público são Lost e, mais recentemente, Game of Thrones. Todos levaram a audiência ao auge da loucura, para então passar uma rasteira traiçoeira em nossos ânimos. Infelizmente, foi assim com As Telefonistas também, guardadas as devidas proporções, é claro.

Sendo assim, podemos começar com o tiro que quase matou Francisco (Yon González) e fez com que a relação de Lidia e Carlos (Martiño Rivas) acabasse de vez. O triângulo formado pelos três foi uma das coisas mais interessantes de toda a trama, uma situação bastante convincente que fazia a imaginação viajar e que, ainda bem, não era nada piegas. Mas aquele final de Lidia simplesmente fugindo para os Estados Unidos despedindo-se do noivo por carta foi algo difícil de engolir depois de tudo por que eles passaram.

Em seguida, veio o golpe mais duro de todos na história que já começava a causar desagrados: a morte de Àngeles, totalmente inesperada e tão súbita que foi difícil de acreditar. Civantos novamente sai de cena em seu auge, sendo que sua personagem era a mais promissora de todas: ela havia assumido o comando de um grupo de rebeldes, militando de dentro da própria empresa de telefonia, depois de ter atuado como espiã da polícia. Além disso, tinha acabado de retomar sua relação com o inspetor Cristóbal Cuevas (Antonio Velázquez).

E aí veio a primeira parte da quinta e última temporada provando que realmente, não havia mais nada para se contar. Para começo de conversa, não foi dada uma introdução adequada às situações deixadas pela temporada anterior, e a coisa toda já começa de supetão. A relação de Lidia e Francisco depois da já mencionada fuga da Espanha, foi simplesmente ignorada, dando um salto de vários anos e mostrando-se, depois disso, no mínimo insossa. Assim também foi com a empresa de contadoria que Pablo (Nico Romero) e Marga abriram, com a relação de Carlota e Sara/Oscar (Ana Polvorosa), que pareceu bem abalada sem qualquer motivo aparente, e até com o destino da empresa de Telefonia, principal cenário da história. Tudo é mencionado tão un passant que deixa uma sensação de vazio no espectador, acostumado com a série tão detalhista.

Ademais, o núcleo da trama passa a ser a filha de Àngeles, Sofía, personagem de pouquíssima relevância que torna-se, então, essencial para a continuação da trama. Chegamos então ao ponto em que a forçação de barra começa a acontecer. A garota simplesmente aparece com um problema cardíaco de nascença nunca antes mencionado pela mãe às amigas e, pior ainda, com um sentimento nacionalista que parece não fazer sentido algum. Nada do que ela viveu na Espanha nos poucos anos que passou no país inspira um sentimento de lar que ela pudesse querer proteger. Como ela mesmo menciona em um episódio, era ali que sua mãe sofria agressões pelas mãos de seu pai. Soaria mais coerente, já que ela puxou o espírito revolucionário de Àngeles, que ela estivesse ajudando os EUA, esse sim o país que se tornou sua casa, a se reerguer depois do crack da bolsa.

Uma vez, porém, que Lidia tinha que voltar para sua terra natal para reencontrar as amigas, a fuga de Sofía de volta à Espanha poderia até ser perdoada… Se a guerra civil espanhola não fosse representada de forma tão tosca. Um dos episódios mais violentos da história da humanidade é mostrado de forma tão blasé, que incomoda.

Assim, mesmo com a vibe novelesca e romântica que inspirou toda a série, As Telefonistas exagerou na dose. Posso citar vários exemplos, como as cenas de Pablo na guerra, que são totalmente ridículas. Os bombardeios aéreos, precedidos por um alarme infalível, são um simples inconveniente que obrigam as pessoas a entrarem rapidamente em algum abrigo para continuarem a conversa. Ou ainda a sequência surreal de Lidia, Carlos, e Sofía fugindo da casa paroquial e que culminou com a captura dos dois primeiros.

Ainda, mesmo sem levar isso tudo em conta, Marga, a mais engraçada das telefonistas, a mais ingênua e meiga de todas, se tornou uma chata, e não se sabe o que Carlota ainda está fazendo ali, de tão descartável (Sara/Oscar então, nem se fala). A adição de personagens novos como o jornalista americano James (Alex Hafner) e Isidro, novo chefe e amigo de Pablo e Marga, pouco fizeram para ajudar.

Nem mesmo a abertura da série se salva, uma vez que foi piorando ao longo das temporadas e essa última versão foi, sem dúvida, a pior. Uma pena que foi assim. A decepção é tão grande como o carinho que sentia por As Telefonistas antes dessa triste primeira parte de última temporada.

Maggie Civantos deixou a produção por incompatibilidade de agenda e se poupou desse fiasco, pelo menos. Mas que devia ter continuado em Vis a Vis, devia.

AS TELEFONISTAS – TEMPORADA 5 (PARTE 1)
1.5

RESUMO

A exemplo de muitos antecessores, As Telefonistas se perde e desagrada no final.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.