Crítica | Confiança e aprisionamento: os três primeiros episódios da 5ª temporada de ‘Better Call Saul’

Desde o lançamento de Better Call Saul, em 2015, o acontecimento mais aguardado era o emergir do advogado picareta que deu as caras pela primeira vez no episódio 2×08 de Breaking Bad (cujo nome é justamente Better Call Saul), quando Walter White e Jesse Pinkman contrataram o melhor advogado criminal da cidade, Saul Goodman. Cinco anos depois, categoricamente, é possível afirmar que a série tem trabalhando tão bem os aspectos da transformação de Jimmy McGill, que não mais há como determinar exatamente um ponto de partida: Saul sempre esteve em Jimmy.

Um dos pontos mais interessantes da série é iniciar suas temporadas pelo fim. Sob a terceira identidade do gerente do Cinnabon, Gene Takavic, desde a temporada inicial percebe-se a angústia crescente que vem da monotonia da rotina tão diferente dos anos anteriores da vida de Jimmy. O Saul Goodman aprisionado tinha como bússola moral seu irmão, Chuck, e provavelmente vai se tornar mais pleno com a crescente tensão entre ele e Kim (Rhea Seehorn). Em Gene, o fim do ostracismo provocado pelo inconveniente taxista despertou algo. O ex-advogado poderia continuar negando, mas não foi preciso muito para ele repetir seu slogan. Cuidar de tudo sozinho deve ser o início do fim, afinal de contas, Saul sempre esteve em Gene.

E quanto você está dentro, bem… falaremos disso mais adiante.

Em “Magic Man”, agora fazendo negócios como Saul Goodman, Jimmy (Bob Odenkirk, cada vez mais incrível) revela uma estratégia pouco ortodoxa que testa a tolerância de Kim à sua nova pessoa jurídica. Cada vez mais afeiçoado ao novo status quo, McGill embarca em um caminho cada vez mais sem volta (que vai levá-lo obviamente ao Nebraska no futuro). O que se desenrola em “50% Off” nada mais é do que o começo da construção da reputação do advogado em Albuquerque.

É interessante notar como o roteiro nestes dois primeiros episódios trabalham o desenvolvimento do novo lado de Jimmy, e coloca em paralelo seu distanciamento cada vez maior com Kim. Isso se dá nos detalhes, no olhar decepcionado dela, no jantar da noite de filmes que não acontecerá, e a cada passo dado por ele em seus negócios. A direção também é precisa ao enquadrar os personagens cada vez mais distantes, ou deslocados no quadro.

É fácil para Jimmy aplicar golpes como os do elevador com a Promotora, ou a falsa entrevista que ele dá no fórum. Ao mesmo tempo, Kim se sente devastada após recorrer ao conselho de Jimmy (mentir, é claro) sobre o acordo com seu cliente pro bono. Mesmo que este seja o caminho mais fácil. A sequência em que eles visitam uma casa que está sendo vendida diz muito sobre isso. Ambos sabem que não irão desfrutar disso no futuro, mas se permitem aproveitar o momento.

Magic Man (5×01) – Better Call Saul (AMC/Netflix)

O elo de ligação

Outro ponto interessante desse conjunto de episódios é o humor peculiar que a série costuma imprimir. A sequência de abertura em “50% Off” é interessante, pois tudo levava a crer que os viciados – que se comportam de maneira hilária – seriam os primeiros clientes de Saul Goodman associados à organização de Gus Fring. No entanto, aos acontecimentos que levam à prisão de Domingo, o Krazy-8, quem diria.

Mais um fato a ser observado: nada, seja em Better Call Saul, ou Breaking Bad, existe por acaso. A narrativa sempre se beneficia de momentos que parecem simples, como por exemplo, o sistema de encanamento pelo qual as drogas são enviadas aos viciados. O elemento é apresentado em um primeiro momento, para depois servir ao principal acontecimento do núcleo Salamanca neste início de temporada.

Este também é o momento da trama que aborda o tema da confiança. A relação entre Nacho e Lalo vai ganhar outro contorno. Nacho também precisa provar utilidade ao seu maior algoz, Gus Fring, ao mesmo tempo em que o núcleo principal, com Jimmy e Kim, será inevitavelmente abalado por ela não confiar mais no parceiro, em razão de seus métodos.

Magic Man (5×01) – Better Call Saul (AMC/Netflix)

Mike no limite

No começo da temporada passada, Mike não poderia imaginar que estaria tão perturbado quanto agora. Todas as decisões que levaram à execução de Werner foram bastante traumáticos para ele, talvez, um ponto de inflexão que pode ser o maior de sua vida até então, desde a morte do filho.

Avançando para os acontecimentos de Breaking Bad, é interessante lembrar como a personalidade de Michael foi menos esmiuçada quanto agora. Talvez o desgaste de trabalhar para Gus, e as coisas que invariavelmente precisam ser feitas, como o que ele fez na quarta temporada, provocam esse tipo de condição psicológica mais endurecida, que é o que leva ele justamente a surtar.

Com Mike, também percebe-se uma característica deste universo. Se Breaking Bad era uma série sobre um homem bom que se torna um homem ruim, Better Call Saul é uma trama que mostra como alguém com uma inclinação ao crime se transforma em alguém essencialmente criminoso pelos meios legais. Estes personagens se transformam completamente, e o Mike Ehrmantraut que conhecemos ainda não é o mesmo dos anos que virão, mas com certeza, é totalmente diferente daquele senhor cansado do estacionamento do fórum de Albuquerque. Seu comportamento no bar diz muito sobre isso.

The Guy for This (5×03) – Better Call Saul (AMC/Netflix)

Se você está dentro, está dentro

Não tem jeito, a vida de Jimmy mudou depois que ele se envolveu pela primeira vez com um Salamanca: Tuco. E uma vez que você está dentro, está dentro. As palavras de Nacho soam como uma sentença profética para Jimmy. A partir de agora, e principalmente após o “evento de apresentação” para seus novos clientes, a relação causa e efeito é o que vai perseguir este personagem até o Nebraska.

É engenhosa a maneira como o roteiro de “The Guy for This” insere Hank Schrader (Dean Norris) e Steven Gomez (Steven Michael Quezada) e traz de volta os queridos personagens de Breakig Bad. Não parece gratuito, e pelo contrário, quem diria, a conexão entre Saul Goodman, Hank e os criminosos começariam justamente por causa do próprio Jimmy. Aos que estão acostumados com os métodos do peculiar advogado, não é difícil perceber a encenação com Domingo na cadeia. Da mesma forma, é muito bom ver a dupla de agentes de volta, sempre sagazes em suas percepções.

Mas, indo para uma outra camada, talvez o tema central de “The Guy for This”, e até mesmo dessa temporada, é o aprisionamento desconfortável dos personagens. Nacho está nas mãos de Gus, que também tem a Mike, e ele precisa responder a Eládio, o que é cada vez mais perigoso; No fim do dia, Kim só deseja defender seus cliente pro bono, mas inevitavelmente, é parte integrante do Mesa Verde, que paga as suas contas; Os planos de Lalo vão muito bem, e ele agora tem um advogado em suas mãos, Saul Goodman. Ele é o mais confortável no momento, mas a julgar pelo futuro, não deve permanecer assim…

The Guy for This (5×03) – Better Call Saul (AMC/Netflix)

Últimas palavras

* Como é bom poder ver, pela última vez, Robert Forster, falecido logo após a estreia de El Camino (filme que contou o que aconteceu com Jesse Pinkman após a série). É a última vez que alguém vai procurar aspiradores de pó neste universo.

* Lalo Salamanca: Tony Dalton é uma incrível adição ao elenco regular da série. O personagem é sarcástico, ameaçador e tem carisma, mesmo sendo detestável em sua essência.

* O episódio 3 começa com uma sequência incrível de uma formiga, que logo se soma a uma multidão de semelhantes no sorvete derramado por Jimmy. Em um primeiro momento, parece apenas uma abertura com estilo e desconfortável. Mas se formos mais além, estabelece ainda mais a temática da causa e efeito, muito presente na série.

* Reparem a semelhança entre o homem que se recusa a sair de sua casa por acreditar ter direitos sobre sua propriedade, e o pai de Nacho. Ambos tem convicções, ou sobre o senso de pertencimento local, ou em relação ao negócio construído por uma vida toda. Porém, a natureza dos negócios de Nacho e Kim os tornam, queiram ou não, além de alguém inserido no meio, parte disso. Por isso ambas as reações são efusivas. Por mais que as causas sejam nobres.

50 Off (5×02) – Better Call Saul (AMC/Netflix)

* Por que ainda não vimos um flashback de Kim Wexler nessa série? O que falta para Rhea Seehorn ser indicada ao Emmy? No aguardo pelas duas coisas.

A partir do próximo episódio, review semanal de volta ao normal.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...