Crítica | ‘Luta Por Justiça’ é um bom filme de tribunal que não assume riscos

Se há uma verdade que pode ser observada nesse mundo é que todo sistema é falho. Até mesmo a América, que nós, estrangeiros, tanto superestimamos, porque não vivemos sua realidade, sofre com a detestável corrupção, a pior e mais triste mazela de qualquer sociedade. Luta Por Justiça (Just Mercy) veio para mais uma vez, como vários outros filmes antes dele, provar esse ponto.

Dessa vez utilizando a história do advogado Bryan Stevenson, o diretor Destin Daniel Cretton optou por produzir um longa bem “certinho” de tribunal. Desde já é preciso dizer, portanto, que a película não tem nada de ruim, mas como trata de um tema recorrente – que é mostrar o problema histórico sério que os EUA tem com o racismo -, também não apresenta nada que outras obras do gênero não tenham feito melhor.

Assim, na trama, Bryan, que é interpretado pelo ótimo Michael B. Jordan, é um advogado recém-formado e bem idealista que sai de casa para militar no estado sulista do Alabama e defender pessoas carentes de assistência judiciária decente – notadamente aquelas que se encontravam no famoso e temível corredor da morte. Ele então se depara com o caso Walter McMillian, vivido pelo mais-ótimo-ainda Jamie Foxx.

Se há uma coisa que é realmente tocante em Luta Por Justiça é a atuação dos dois, que retrata de maneira fiel a relação real que transcendeu o mero vínculo advogado/cliente para se tornar uma bonita e verdadeira amizade. Foxx está incrível (como sempre) e constrói a base sólida onde Jordan transita com facilidade para contar a história. O diálogo entre eles transmite uma verdade inquestionável e convincente que realmente cativa. Enquanto Bryan investiga incansavelmente o que realmente aconteceu no dia do crime que McMillian supostamente cometeu, McMillian vai conhecendo melhor seu jovem defensor.

Entretanto, o filme trilha um caminho tão seguro que acaba por não se sobressair em praticamente nada e o problema não é nem o clichê. É claro que todo filme de tribunal deve ter um discurso épico do advogado ou do promotor, o que, aliás, é sempre o clímax da história. Cita-se como exemplo o excelente Suprema da diretora Mimi Leder, que conta a história da Associada de Justiça da Suprema Corte dos EUA Ruth Bader Ginsburg e é protagonizado por Felicity Jones. Por incrível que pareça, porém, é justamente aí que Luta Por Justiça peca.

Jamie Foxx e Michael B. Jordan em “‘Luta por Justiça” (2019) – Warner Bros. Pictures

Os discursos de Bryan nos tribunais, embora eficazes, não chegam nem perto da emoção que despertam os de Matthew McConaughey no memorável Tempo De Matar de Joel Schumacher, para citar mais um exemplo.

E é aí, talvez, que se encontra o grande problema do filme, uma vez que Cretton trabalhou seu longa de uma forma, digamos, mais racional, com sua linearidade bem acertada, trilha adequada e montagem correta; enquanto Mimi Leder e Joel Schumacher preferiram utilizar a emoção.

Direito e Cinema, afinal, não são tão diferentes. É em razão disso que filmes de tribunal fazem tanto sucesso. Tanto o júri como os espectadores são conquistados não pelos fatos em si, mas pelos sentimentos que o advogado ou o cineasta imprimem nele. É por isso que as obras citadas acima ficarão gravados na mente por muito mais tempo que Luta Por Justiça que, embora seja um bom filme, é bem mais esquecível.

LUTA POR JUSTIÇA | JUST MERCY
3

RESUMO:

Luta por Justiça demonstra que só fazer um filme correto não é bastante… É preciso mexer com a emoção do público.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.