Crítica | ‘Frankie’ e seu típico galicismo

Falar em cinema francês é falar de filme “cabeça” e, como típico exemplar do mesmo, Frankie não nega sua origem. Como a grande maioria das películas gálicas, prioriza o diálogo a qualquer tipo de ação ou estilismos mais ousados.

Nesse longa do diretor Ira Sachs, a atriz francesa Françoise Crémont, ou Frankie (Isabelle Huppert), resolve reunir a família no que pode ser sua última reunião com as pessoas que mais ama, uma vez que sofre de um câncer terminal. Eles estão viajam à Portugal, mais precisamente à Sintra, onde ela espera resolver a vida de seu filho único, Paul (Jérémie Renier), convidando também uma de suas melhores amigas, Ilene (Marisa Tomei), que mora em Nova York, para conhecê-lo.

Justiça seja feita, porém, o longa tem o mérito de não dramatizar a doença da protagonista, fugindo do melodrama desnecessário ao mesmo tempo que permanece sensível a uma situação tão triste. Porém, Frankie não tem uma mensagem maior, e logo de início, percebe-se que o que o diretor faz de melhor é mostrar as paisagens de Sintra. Filmado praticamente com planos muito abertos, o espectador aproveita para fazer um passeio turístico com os personagens que, apesar de estarem teoricamente numa viagem em família, mal aparecem juntos, mas sim em pequenos grupos ou duplas – ora Frankie com Paul, ora Paul com Sylvia (Vinette Robinson), ora Sylvia com Maya (Sennia Nanua) e assim por diante.

Dessa forma, seja na estrada arborizada ou na praia, em um parque ou junto a uma fonte, no centro comercial ou na igreja, os dramas de cada um – até mesmo do guia turístico Tiago (Carloto Cotta) – nos são apresentados no ritmo lento desse filme da França, que foi filmado em Portugal, mas sofre influência americana – uma de suas personagens, Ilene – pasmem! – é a cabeleireira do elenco de Stars Wars.

É em razão disso que escutamos tantos idiomas durante o filme. Frankie conversa em francês com o filho, em inglês com amiga e, de repente, ela está na festa de uma octogenária portuguesa onde se fala português. Uma verdadeira Babel.

Marisa Tomei e Isabelle Huppert em “Frankie” (2019) – Paris Filmes

E falando em cacofonia, aliás, quanto à música, não há muito o que observar, já que Ira Sachs preferiu usar os sons da natureza e da própria cidade para compor seu filme. Percebe-se claramente o canto dos passarinhos, o correr da água da fonte e a tranquilidade de um hotel quase vazio em que Frankie resolveu passar alguns de seus últimos momentos em família. Uma escolha bastante coerente, a propósito, e que reflete o estado de espírito da personagem, que devia estar querendo mesmo paz.

Nada a reclamar da atuação de Isabelle Huppert, por sinal, muito pelo contrário. Ela consegue passar muito bem a imagem de uma atriz consagrada que, ainda tendo tanto para mostrar – mesmo ali em Sintra ela recebe proposta de trabalho -, está vendo a vida esvair-se pouco a pouco. Bem magra e às vezes abatida, frágil mesmo, mas ainda forte na vontade, nota-se a mulher notável que um dia ela foi e que o espectador nunca viu.

Contudo, mesmo as relações sendo a marca principal do longa, senti falta de um maior desenvolvimento ou exposição de algumas delas, principalmente aquela entre Paul e Sylvia (a enteada de Frankie), a que tinha maior potencial para dar em alguma coisa mais interessante.

Como já dito, porém, Frankie não tem nada de muito melodramático, é somente mais uma película francesa. Se você gosta do estilo, vai adorar. As imagens, pelo menos, que variam do verde da mata ao azul do mar, passando pelos azulejos portugueses, são belíssimas. Uma história tranquila, para almas tranquilas que gostam de apreciar a “normalidade” da vida.

FRANKIE
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RESUMO:

Muito diálogo e um ritmo lento na bela paisagem Sintra são a marca de Frankie, novo longa de Ira Sachs.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.