Crítica | ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ derrapa e 3ª temporada é a mais fraca até o momento

Algo comum em O Mundo Sombrio de Sabrina, e que, aparentemente, passa despercebido pela produção e roteiristas da série, é o ritmo inconstante que as temporadas apresentam. Em todas elas, os episódios são extremamente longos, com uma quantidade de tramas desnecessárias exorbitantes, mas que, no final, acabam sendo perdoadas pela interessante trama principal e o carisma da grande maioria dos personagens. 

Nesta terceira parte, as tramas apresentadas mostram fôlego nos 3 primeiros episódios, mas com o decorrer da temporada, são misturadas com a inserção de vários novos personagens e histórias paralelas que pesam consideravelmente a narrativa. A Parte 1 e a Parte 2, como dito, por mais que também apresentem um roteiro inchado, acabam compensando com um arco principal bem desenvolvido. Desta vez, os roteiristas parecem ter perdido a mão, e pensado o que vêm tomando conta de várias produções para a televisão/streamings e cinema: “quanto mais melhor”.  

Não há nada de errado em inserir tramas paralelas para desenvolver personagens secundários, ou até mesmo os principais. Mas, para que o tempo gasto com elas não tenha sido em vão, é preciso que, de alguma forma, elas tenham relação com a arco principal da temporada, e sirvam para ajudar a desenvolvê-lo, e não o atrasar. O Mundo Sombrio de Sabrina sofre desse mal desde o seu início, e alcança seu auge em uma temporada que possuía potencial de ser a melhor até então. 

Com Nick (Gavin Leatherwood) preso no inferno e Lúcifer (Luke Cook) aprisionado dentro de seu corpo, Sabrina (Kiernan Shipka) precisa encontrar alguma maneira de retirá-lo de lá, sem que o Lorde das Trevas seja libertado em conjunto. Pra que isso aconteça, ela, Harvey (Ross Lynch), Roz (Jaz Sinclair) e Theo (Lachlan Watson) , vão até o inferno para tentar negociar a libertação de Nick, ao mesmo tempo em que criam um plano para que o Lorde das Trevas seja aprisionado em outro local. 

Como estamos falando de uma série que não economiza nas complicações para a personagem principal, é claro que o plano não funcionará por muito tempo. Sabrina se torna rainha do inferno em troca da libertação de Nick, e Lúcifer passa a habitar o corpo de Blackwood (Richard Coyle), que é encontrado por Ambrose (Chance Peromo) e Prudence (Tati Gabrielle). Ao mesmo tempo, Caliban (Sam Corlett), também conhecido como príncipe do inferno, desafia Sabrina a participar de uma série de desafios para a conquista do trono. 

O Mundo Sombrio de Sabrina – 3ª temporada (Netflix)

Em meio a tantas complicações, se torna impossível Sabrina se desdobrar em duas para conseguir resolver e dar a atenção devida a todos os problemas. Porém, ainda não satisfeitos, os roteiristas inserem uma ameaça ainda maior: o surgimento dos pagãos. Colocados como os principais vilões da temporada, o roteiro desenvolve esse arco ao mesmo tempo em que tenta conectá-lo de alguma forma com as tramas secundárias, mas falha terrivelmente ao transformá-lo em uma bola de neve que se complica ainda mais a cada episódio. 

Se formos para analisar mais a fundo, as ideias propostas aqui são interessantes e poderiam render uma excelente temporada. Porém, o amontoado de tramas acaba eliminando qualquer possibilidade de conexão do público com o que está acontecendo. A principal solução seria condensa-las em, no máximo, duas com maior destaque, ao invés de tentar oferecer um arco individual para cada núcleo de personagens da série.  

A competição com Caliban, por exemplo, é deixada de lado por uma quantidade considerável tempo para que outras tramas ganhem espaço, e volta ao centro da narrativa tirando o espaço do que estava em ascensão anteriormente. Por mais divertido que seja acompanhar a rivalidade do príncipe do inferno com Sabrina, o encerramento da corrida pelo trono acaba sendo aquém do esperado, e se torna impossível não notar o desperdício com Caliban, que mostra um enorme potencial de inserção no núcleo principal, mas é deixado apenas de escanteio. 

Os amigos humanos de Sabrina continuam sendo um problema. É clara a tentativa de tornar Roz e Harvey um casal de peso na narrativa, mas a falta de química entre os dois impossibilita que ganhem o amor do público. Até mesmo o roteiro não parece confiar o suficiente no potencial do casal, deixando sempre fagulhas de sentimentos restantes entre Harvey e Sabrina. A junção do personagem com Roz soa mais como uma alternativa para não o deixarem sem um par romântico, do que algo realmente acrescentável à história.

Nick e Sabrina, em contrapartida, não mostravam o mesmo problema, mas após a volta de Nick do inferno e a libertação de Lúcifer de seu corpo, ele passa por uma grande mudança. Óbvio, não seria possível sair de uma experiência traumática como essa sem deixar sequelas, mas o desenvolvimento do personagem acaba sendo problemático e não justificável. Seu relacionamento com Sabrina cai em um limbo de repetições sem fim, deixando ainda com que ela passe metade da temporada tomando decisões baseadas no bem estar do namorado. É cansativo, e uma pena para um dos melhores personagens apresentados na série até então.  

O Mundo Sombrio de Sabrina – 3ª temporada (Netflix)

Mesmo com a quantidade exorbitante de tramas, esta Parte 3 ainda consegue entregar bons momentos. O embate final com pagãos, apesar do desenvolvimento bagunçado, ainda traz algo de diferente colocando Sabrina em uma situação fora da sua zona de conforto. Ainda assim, o peso dos acontecimentos não é sentido completamente pela falta de foco e desenvolvimento ao longo dos episódios anteriores, mas oferece uma boa chacoalhada na trama. 

O Mundo Sombrio de Sabrina continua precisando aprender com seus erros. Os episódios longos e cansativos podem ser deixados de lado para dar espaço a algo mais condensado e focado, deixando com que os principais acontecimentos tenham um peso maior na narrativa. Esta terceira parte acaba se mostrando a mais problemática até o momento, mesmo que ainda consiga entregar bons momentos e personagens carismáticos. Há um vasto universo a ser explorado aqui, basta saberem apresentá-lo de forma orgânica.  

O MUNDO SOMBRIO DE SABRINA - PARTE 3
2.5

RESUMO:

Em sua terceira parte, O Mundo Sombrio de Sabrina não parece ter autocontrole das próprias ideias, e recheia os episódios de tramas paralelas mal desenvolvidas que, na maioria das vezes, não chegam a lugar algum.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.