Crítica | ‘Entre Realidades’ escorre pelo ralo

Numa trama completamente tresloucada, Entre Realidades (Horse Girl) estreia na Netflix como mais uma produção original cujo conteúdo extremamente esquisito escorre pelo ralo depois de percorrer todos os cantos da mente do espectador tentando encontrar algum significado.

O filme de Jeff Baena passeia por vários gêneros – comédia romântica, suspense, drama, ficção científica – sem se encontrar em nenhum deles, ou então, querendo abraçar todos de uma vez. O resultado é uma confusão desnorteante em que o público fica à deriva sem saber para onde seguir.

No longa, acompanhamos a trajetória de Sarah (Alison Brie), uma mulher solitária que divide sua rotina entre o trabalho numa loja de artesanato, as aulas de zumba, as visitas a um estábulo onde vive a égua que ela adora e a série policial que mais ama, cujo nome é Purgatório. Aos poucos, essa realidade simples começa a se misturar com outra bem mais particular: a de sua mente instável.

Sendo assim, à medida que a história avança, ficamos tão perdidos quanto a personagem principal, a ponto de não saber mais distinguir entre o que é real ou não. Aliás, pior ainda, quem é real ou não. A situação fica tão caótica que a única coisa sólida da trama se torna a própria atuação de Alison Brie, essa sim digna de nota. A atriz se joga de verdade na loucura de Sarah e convence bastante no papel a que se propôs.

As neuras de Sarah podem até ter algum sentido dentro da história, como é o caso da relação que ela tem com a água encanada – ora da torneira, ora do chuveiro -, que sai carregando tudo em seu caminho e depois escorre pelo ralo, desencadeando, assim, todo o transtorno mental da personagem. A coerência estaria, assim, na ligação entre esse fato com o suposto suicídio de sua mãe, que se matou no banheiro depois de ter ligado o chuveiro para fingir que estava tomando banho. Mas se foi assim mesmo que aconteceu, não dá para saber, uma vez que Sarah, dentro de sua cisma especial com água, canos e ralos, pode ter encaixado a morte da mãe numa realidade que pudesse entender.

Entre Realidades (2020) – Netlix

Não obstante, diferente dela, a trama de Entre Realidades em si não cativa. Na verdade, chega até mesmo a incomodar, seja pela fotografia que, de repente troca o colorido tranquilo da comédia romântica pelo branco estourado da ficção científica (o que agride os olhos); ou pelo fato de que quase todas as pessoas parecem querer afastar Sarah quando, pelo menos no começo, ela é tão real quanto qualquer um (ou será que não?).

Muito do enredo não se explica ou então tem tantas explicações que confunde. O que significa o sangue que a toda hora escorre do nariz da protagonista? Podemos levar para o lado racional – seria um sinal de deterioração do cérebro em razão da doença? -; ou para o lado da ficção científica – seria ela uma alienígena desadaptando-se de um corpo estranho?

Até mesmo o figurino alimenta essa vibe maluca de Jeff Baena, principalmente quando Sarah se veste como uma ninja estranha, justamente no momento em que começa a aceitar sua condição, uma heroína esquisita de si mesma.

Mas a verdade é que, apesar da suavidade que Alison Brie imprime ao caos em que se transforma Entre Realidades, a película não é agradável. Fica um certo desconforto, inexplicável como o próprio filme. Além do mais, poderia ter sido bem mais curto. Lidar com a loucura de uma mulher aficionada por aliens e abdução por 103 minutos seguidos sem saber onde ela começa nem onde termina não é para qualquer um.

ENTRE REALIDADES (HORSE GIRL)
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RESUMO:

Entre Realidades se perde ao abordar um tema complexo.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.