Crítica | 2ª temporada de ‘Sex Education’ quebra tabus e mantém o excelente nível do ano anterior

Analisar o motivo do estrondoso sucesso de Sex Education não é algo complicado. A forma realista que a série decidiu abordar a sexualidade adolescente, trazendo-a sem medo de se arriscar ou deixar o público desconfortável com o tamanho da sinceridade inserida ali, com certeza, se tornou algo merecedor de palmas. 

Em programas voltados ao público mais jovem, sexualidade sempre foi abordada de forma pastelão ou, até mesmo, desesperadora, no sentido de que os personagens viam o sexo como algo que precisava ser feito a qualquer custo para retirar o termo “virgindade” das costas deles. Sex Education também aborda esse lado, mas de forma muito mais responsável e verdadeira. 

A roteirista Taylor Royberg não recua ao adentrar em assuntos polêmicos, discutindo-os com uma linguagem que seja de fácil entendimento para o público mais jovem, mas que também consiga dialogar com os adultos com a mesma sinceridade proposta. A figura de Jean (Gillian Anderson), mãe de Otis (Asa Butterfield), é a principal responsável por fazer essa conexão com o público mais velho, trazendo junto com ela uma inversão de papéis construída na primeira temporada – Otis se torna o invasivo da história, e Jean, a correta – além de trazer para os holofotes personagens secundários e assuntos que não necessariamente tiveram abordagem anteriormente, como é o caso de Maureen Groff (Samantha Spiro), mãe de Adam (Connor Swinndells).

Maureen, ao expor o vazio que sente sobre seu casamento, e a falta de interesse do marido em tocá-la, abre a discussão sobre um assunto que é corriqueiro na vida de muitos casais. Um casamento sem afeto e toque cai no limbo da frustração e da infelicidade com extrema rapidez, fazendo com que alguns se submetam a esse tipo de relacionamento por anos com a esperança de que a situação mude em algum momento. O encerramento desse arco consegue ser empoderador e um abraço caloroso para muitas mulheres que se encontram na mesma situação.   

Sex Education – 2ª temporada (Netflix)

Retornando a inversão de papéis, enquanto Jean brilha ao se tornar conselheira sexual da escola, Otis começa a desandar e a cometer um erro atrás do outro. Desrespeitoso com o relacionamento que sua mãe possui com Jakob (Mikael Persbrandt), e também com Ola (Patricia Allison) e Maeve (Emma Mackey), Otis parece não saber para onde ir. Considerando a idade que possui, a série acerta em mostrá-lo como alguém que não possui muita noção dos seus atos, mas sempre procurando mostrá-lo como alguém indefeso e que sofro com relação à problemas familiares. 

Distanciando-se do que a primeira temporada apresentou, o roteiro dessa vez procura criar pequenos núcleos individuais para cada personagem ao invés de juntá-los para trabalhar em conjunto. Vemos menos da parceria entre Maeve e Otis e o aconselhamento sexual na escola, deixando-os constantemente separados para que tenham seus próprios desenvolvimentos pessoais. Em partes, é difícil não admitir a falta que a dinâmica entre os personagens faz para a série, mas a o roteiro acerta, mais uma vez, em criar diferentes conexões imprevisíveis que se tornam extremamente bem-vindas.  

A sonoridade feminina, por exemplo, se destaca aqui, principalmente durante a reta final da temporada. MaeveOlaAimee (Aimee Lou Wood), Viv (Chinenye Ezedu), Lily (Tanya Reynolds) e Olivia (Simone Ashley), presas na dentação, conseguem deixar suas diferenças e intrigas de lado ao perceberem que todas elas já foram vítimas de assédio sexual. Em um gênero que a rivalidade feminina pode ser facilmente colocada para desenvolver o personagem masculino – o que, em partes, quase acontece aqui -, presenciar as personagens apoiando uma a outra e, principalmente, fazendo com que Aimee se sinta mais confortável após o assédio que sofre, é algo merecedor de palmas e um dos melhores momentos, não só da temporada, como da série também. E isso se repercute para fora do núcleo adolescente indo também para o adulto, como o já mencionado núcleo entre Jean e Maureen. 

Sex Education – 2ª temporada (Netflix)

Sex Education, por mais que acerte constantemente ao abordar assuntos polêmicos e tabus principalmente no universo adolescente, como é o caso de chuca e assexualidade, também ameaça entrar em território problemático ao desenvolver o relacionamento de Eric (Ncuti Gatwa) e Adam. Ele, que praticava bullying com o colega no passado, se mostra mudado e bastante arrependido dos seus atos. Seu desenvolvimento consegue ser justo e compreensível, principalmente ao adentrarmos ainda mais no seu passado. Porém, por mais que sua evolução seja admirável, o relacionamento com Eric não deixa de ser algo delicado, ainda mais com o surgimento de Rahim (Sami Outalbali). Porém, mesmo andando em um campo minado, o roteiro consegue contornar a situação em boa parte da narrativa.  

Entre os inúmeros produtos para o público adolescente, o seriado consegue se destacar consideravelmente. Ao mesmo tempo em que entretém, ainda consegue fazer jus ao título do programa dando uma aula de educação sexual ao espectador. Considerando que muitas escolas não se preocupam da forma que deviam com esse tipo de educação, os jovens terem um programa divertido e didático é de extrema importância.  

Com um bom elenco e excelentes personagens, a segunda temporada de Sex Education mantém o primoroso nível do ano anterior. Talvez, o gancho principal deixado no último episódio tenha feito com que a roteiro se aproxime um pouco dos famosos clichês adolescentes vistos em diversos outros programas para o mesmo público. Mas, ainda assim, o encerramento não tira o brilho que a série conseguiu manter.

Sex Education – 2ª temporada (Netflix)

SEX EDUCATION – 2ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

Sex Education mantém o alto nível da primeira temporada, conservando o realismo e a responsabilidade ao abordar assuntos polêmicos para o público adolescente.

 

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.