Crítica | Primeiro documentário indicado a Melhor Filme Internacional, ‘Honeyland’ retrata relação com a natureza através da solidão

Na edição dos indicados ao Oscar 2020, a grande maioria dos cinco nomeados na categoria de Melhor Documentário explora o resultado do capitalismo em alguma esfera social. O tópico aparece de forma mais exacerbada em alguns dos filmes, como por exemplo em Indústria Americana (2019), enquanto em outros ele segue sendo fundo de uma história mais humana e pessoal, como é o caso de Honeyland, primeiro filme a ser indicado para melhor documentário e melhor longa internacional na premiação.

O documentário acompanha Hatidze Muratova, uma mulher de meia idade que mora em Bekirlija, um vilarejo em Lozovo. Lá, ela vive sozinha com sua mãe idosa que necessita de cuidados especiais devido a um olho ferido. A mesma possui vida humilde e tem como forma de subsistência a apicultura. Entretanto, sua rotina passa a ser interferida quando novos vizinhos não tão preparados, começam a criar abelhas e comercializar o seu mel.

Através da direção quase despercebida, Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov acompanham Hatidze durante todo o filme de forma que eles não sejam notados, transformando o público em alguém próximo a mulher, que a acompanha e vive com ela as suas angustias de perto. O documentário ganha tom fictício ao se assemelhar a um longa-metragem, isso se dá principalmente pela forma como os diretores desaparecem durante todo o documentário, e o drama vivido por Muratova parece, de fato, saído de um roteiro. A vida pacata que a apicultora leva com sua mãe idosa é tranquila, mas solitária, tendo em vista que as duas são as únicas moradoras da região, assim, quando precisa de algo, Muratova precisa ir até a cidade onde vende o seu mel e compra aquilo que necessita.

Morando apenas com sua mãe, e possuindo como companhia, além dela, um cachorro e suas abelhas, Muratova é uma mulher solitária que não escolheu o destino que sua vida teria, apesar de colocar muito amor e dedicação nos trabalhos que faz. A invisibilidade dos diretores ao longo do filme enfatiza ainda mais a solidão vivida pela protagonista, o que é retratado principalmente pelos longos planos no qual ela passa em silêncio enquanto trabalha. A monotonia do local e a imensidão das colinas e montanhas ao redor do vilarejo torna ainda mais representativo o tempo que a apicultora passa sozinha no seu dia a dia.

Honeyland (2019)

Toda a quietude e paz local é interrompida quando a mulher ganha novos vizinhos. Um casal com seus filhos passam a morar ao lado de sua casa, e assim como ela, também desfrutam da apicultura como forma de renda. Novamente, os diretores aqui invisíveis, registram aos poucos a chegada dessa nova família e a entrada deles na vida da mulher, principalmente das crianças, destacando um jovem garoto com quem ela cria um maior vínculo. É triste e solitário a forma como Muratova o responde quando o mesmo a pergunta do porquê dela não deixar aquele local: “Tudo teria sido diferente se eu tivesse tido um filho como você.”. Não é necessário perguntas, ou maiores diálogos que representem o que a mulher sente, o desejo da maternidade ressoa em seu olhar.

 

Diferente de Muratova, o novo negócio dos vizinhos se dá através de um fornecedor que vende o seu mel fabricado para outras pessoas. Uma boa relação que havia sido construída entre eles e a mulher é interrompida quando o negócio dos novos vizinhos é feito de forma imprudente, atingindo assim diretamente o negócio de Muratova. Quando o mel é colhido muito cedo, as abelhas invadem outras colmeias e matam aquelas que habitavam o lugar. Sendo pressionado por seu entregador, o vizinho sempre colhe o mel antes do tempo, o que, consequentemente, prejudica Muratova, já que as abelhas dele tendem a ir atrás da colmeia mais próxima, ou seja, a dela.

As vivências de ambas famílias com as abelhas ressaltam o respeito e cuidado que elas possuem com os animais e consequentemente com a natureza. Muratova trata suas abelhas de forma empática e respeitosa, dividindo toda a produção meio a meio com elas, além de respeitar o seu tempo. Já o vizinho, com sua postura contrária, atinge Hatidze profundamente. A mulher não perde só o seu produto, como fonte de renda e alimentação, mas perde também a sua criação de anos.

A rotina da nova família, em contraste com as cenas de Hatidze, ressalta as diferentes formas de viver. De um lado a casa está cheia, com muitas crianças, gado e animais de estimação, enquanto isso Muratova segue sua rotina apenas com sua mãe, que necessita de cuidados mais precisos da filha. A forma como ambos vivem um ao lado do outro, em contraponto com o que já havia sido apresentado da vida de Muratova, dá ao filme um tom melancólico, principalmente ao ressaltar aos momentos em que ela passa ao lado das crianças da família. Não se sabe muito sobre a vida de Muratova e seu passado, mas, a mesma carrega um profundo peso no olhar, o que jamais sobressalta a sua doçura e compaixão.

Honeyland (2019)

Por mais que o passado de Hatidze não seja explorado, já que Honeyland acompanha a mulher no presente, a partir da edição de suas cenas fica fácil deduzir as angústias e felicidades da criadora de abelhas. Por mais que a falta da maternidade ressoe na mesma, as condições em que sua mãe se encontra enviesaram a prática de uma maternidade mútua, tendo em vista que uma cuida da outra. Assim, mesmo que a vida de Muratova não tenha sido do jeito que ela imaginava, é impossível não pensar em outras possibilidades de vida e principalmente, naquilo que poderia ter ocorrido de diferente. Apesar desse tipo de pensamento só servir como fardo, Muratova não se abate, ressaltando seus costumes através de sua sabedoria, carrega grande doçura, respeito por tudo aquilo que toca e por todos aqueles que a acompanham. E é dessa mesma forma que ela dá continuidade à sua vida.

HONEYLAND
4.5

RESUMO:

Representante da Macedônia do Norte no Oscar 2020, também indicado a Melhor Documentário, Honeyland acompanha a criadora de abelhas Hatidze Muratova.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.