Crítica | ‘Indústria Americana’ apresenta o choque cultural através do trabalho

Em 2008, com a queda da bolsa de valores em New York, os americanos vivenciaram uma das maiores crises econômicas do país. Muitas indústrias foram fechadas, o número de desempregados aumento,u e consequentemente, o número de pessoas que tiveram que deixar suas casas por não ter dinheiro para pagar o aluguel. No cinema, o que ocorreu na economia americana durante o período já foi abordado de diversas formas, seja da perspectiva dos maiores economistas como em A Grande Aposta (2016), ou dos trabalhadores que foram os principais afetados como em 99 Casas (2014). Dessa vez Julia Reichert e Steven Bognar apresentam em Indústria Americana uma perspectiva muito além daquelas que o cinema hollywoodiano apresentou.

O filme aborda a entrada das industrias chinesas no país, o seu impacto na política econômica americana e na vida daqueles que não estão mais sem emprego, mas não possuem a mesma perspectiva financeira que possuíam antes da crise. O documentário é um dos cinco indicados a Melhor Documentário no Oscar 2020, esteve no Festival de Sundance em 2019, e é uma parceria entre a Netflix e a Higher Ground, produtora de Michelle e Barack Obama.

Filmado no estado de Ohio, Reichert e Bognar acompanham a vida dos trabalhadores da nova indústria chinesa Fuyao, uma companhia de uma das maiores indústrias de vidro, instalada na antiga Moraine Assembly, uma fábrica fechada da General Motors. Fábrica essa que era local de trabalho de grande parte da população da cidade e arredores. Com a chegada da Fuyao, o presidente da companhia Cao Dewang decide por investir na coprodução americana e chinesa, com o objetivo de alcançar os mesmos índices obtidos em seu país de origem. Tudo ocorre da maneira como Dewang espera, até que os funcionários americanos não se veem satisfeitos na forma como o seu trabalho está sendo conduzido e articulam a criação de um sindicato que possa defender seus direitos.

Reichert e Bognar não parecem escolher exatamente o que pretendem abordar, mas a partir do contato de ambos com a indústria, a mesma os guia pelos mais diversos setores e assim Industria Americana ganha vida. Logo, o documentário não se instaura em apenas uma única vertente, mas explora tudo e todos que ali trabalham, abordando a perspectiva de cada um dos servidores daquela indústria. Assim, os diretores perpassam por uma série de acontecimentos no local que podem ser compreendidos e entendidos por cada um dos pontos de vista – dentre o patrão vs proletariado – sempre traçando um paralelo com a nostalgia deixada pelo que se foi vivido antes de 2008.

 

Os trabalhadores americanos da Fuyao são acompanhados entre 2015 e 2017. Ao falarem sobre o antigo emprego, vivem uma nostalgia e possuem grande apreço não apenas pela companhia americana automobilística, mas pela forma como eram tratados e principalmente pelo salário, agora se vem recebendo bem menos. Um dos trabalhadores da fábrica cita que sua filha, manicure, recebeu o triplo que o mesmo no último ano. Além disso, não possuem tantas folgas e o tempo de trabalho é maior do que antes, tudo isso é visto pelos chineses como um tipo de luxo e “boa vida”, esses que por outro lado são acostumados com um trabalho rigoroso e com um sistema mais duro, no qual são identificados por números e é necessário uma formalização alinhada na qual cada um se identifique do número um ao dezenove.

Indústria Americana (2019) – Netflix

É através da forma de atuação em cada uma das indústrias que Bognar e Reichert abordam o paralelo cultural para além da coprodução, explorando de forma implícita o modo de vida dos chineses e o contra ponto com a vida americana. Os primeiros a sentirem a diferença cultural são os americanos, um a um dos trabalhadores se sentem atingidos, tendo em vista que o resultado que o presidente Dewang espera é aquele mensurado pelos chineses em seu país.

 

Quando os objetivos do patrão e proletariado não se encontram, o documentário perpassa um novo tópico, ganhando um impulso político ainda maior. Enquanto o dono da empresa visa lucro a todo custo, aumentando em até dois dólares os salários dos empregados, eles por sua vez desejam uma qualidade de trabalho melhor e mais justa, na qual não precisem se preocupar com a sua segurança, ou longa jornada de trabalho. Como forma de fazer valer suas reclamações, os trabalhadores encontram na formação de sindicato uma saída para reivindicar por melhorias trabalhistas.

O longa ganha uma nova conotação e os diretores, juntamente com a trilha sonora criada por Chad Cannon, o impulsionam de uma forma que não tinha sido vista até então. Com os trabalhadores em ação, até Norma Rae (1979) de Sally Field é referenciada. O clima de perseguição pode ser percebido na indústria devido às reclamações contra algumas normas vindas de cima e o filme ganha um peso maior.

Tudo a atmosfera na Fuyao é transmitida de forma clara e transparente, principalmente pela construção que os diretores, também roteiristas do longa, fizeram ao decorrer do filme. Ao apresentar todos os integrantes do cenário de forma palpável, não invasiva, deixando-os livres para falar o que queriam, tanto chefe quanto trabalhador tomam partidos que torna não apenas o documentário, mas a convivência tensa e ríspida. Um ambiente que não deveria trazer preocupação, garantindo uma perspectiva de futuro, se torna gélido, áspero e incômodo. A estação de inverno, presente na cidade, reforça ainda mais a sensação de desconforto que é estar naquele local.

Durante o documentário, alguns personagens chaves acabam possuindo maior destaque, o que os deixa mais próximo do público. Entretanto, diferente de outros documentários, principalmente por este filme se debruçar sobre o espaço que irá abordar, pouco tempo sobra dessas 1 hora e 50minutos de filme, para que esses personagens possam ser mais explorados e para que se conheça mais de suas vidas além do trabalho. Isso acaba interferindo na criação de vínculo para além da empatia, o que acaba dificultando uma relação de proximidade, recaindo sobre uma forçação de reconhecimento.

Indústria Americana (2019) – Netflix

Reichert e Bognar fazem um trabalho difícil em Indústria Americana, o de ser imparciais e deixar que cada um dos sujeitos conte sua história. Os diretores ficam com o trabalho árduo de conduzir o fio da política capitalista que cria um difícil paralelo entre a exploração no ambiente de trabalho, a falta de segurança existente no mesmo, mas a necessidade desse emprego. Ressaltando todos os abusos trabalhistas mas principalmente da economia capitalista que necessita que esses trabalhadores abram mão de sua saúde física e mental para que tenham uma forma de sobreviver.

INDÚSTRIA AMERICANA | AMERICAN FACTORY
3.5

RESUMO:

Indústria Americana, indicado ao Oscar de Melhor Documentário, aborda o capitalismo sobrepondo necessidades trabalhistas através de choque de culturas.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.