Crítica | ‘Joias Brutas’: a maior atuação da carreira de Adam Sandler

O talento de Benny e Josh Safdie já havia sido mais do que comprovado no ótimo Bom Comportamento (2017). Na ocasião, um ator frequentemente (e injustamente) subestimado pelo público em geral, Robert Pattinson, entregou uma excelente atuação, em meio a uma frenética noite em uma Nova York suja. Em Joias Brutas, esses elementos estão de volta, com Adam Sandler atuando de forma hipnotizante, em meio a uma cidade retratada de forma caótica.

Antes, porém, verdade seja dita: Sandler, vez ou outra, embarca em um projeto em que realmente possa mostrar sua capacidade de atuação, e acaba retornando sempre ao lugar comum: “as comédias Adam Sandler”. Embriagado de Amor e Os Meyerowitz são as provas mais evidentes disso. Talvez você já saiba disso. Seguimos.

No longa, Sandler é Howard Ratner, um joalheiro judeu de Nova York, que faz uma série de apostas que podem levar ao maior lucro de sua vida. O filme narra uma jornada caótica, entrelaçando negócios, família e adversários em sua busca incansável pela vitória final.

Metaforicamente, o breve prólogo e a cena de abertura dizem muito sobre o filme. A opala – joia bruta – que chegará às mãos de Howard é apresentada, em meio ao caos provocado por mineiros da Etiópia, e por meio dela, todos os acontecimentos do filme de desenrolam. Esses eventos são viscerais, tal qual a colonoscopia (isso mesmo) de Howard, primeiro contato que temos com o protagonista. A partir daí, a trilha de Daniel Lopatin nos conduz a um emaranhado de eventos cacofônicos e acelerados, e quando o filme para, protagonista e público clamam pela agitação. Pegamos carona na jornada de Ratner, um homem que não encontra paz nos momentos de calmaria.

O roteiro, escrito pelos Safdie e Ronald Bronstein, é beneficiado pela edição. É necessário dizer, portanto, que os próprios montadores são os roteiristas, Benny e Ronald, o que confere um dinamismo calculado pela escrita. As transições de cena são implacáveis, e a sinergia dos aspectos técnicos impressiona, como é o caso da fotografia de Darius Khondji. Dos planos fechados escolhidos para os momentos mais tensos, às escolhas de luz geralmente apagadas quando Howard está prestes a dar mais um passo adiante, o filme é construído como uma experiência audiovisual cheia de personalidade.

Joias Brutas (2019) – A24/Netflix

Adam Sandler possui uma energia pulsante e raivosa o suficiente para nos guiar pela rotina insana do protagonista. Ele tem longas cenas de diálogo, está sempre em movimento, fala com muitas pessoas e seu personagem está frequentemente enrolado pelas suas escolhas. Ele grita, xinga e negocia a todo instante. Em uma análise superficial, Howard é um sujeito desprezível. Seu casamento está arruinado, sua filha o detesta e as coisas com sua amante são bastante complicadas. Ele deve dinheiro a todos ao seu redor. No entanto, os diretores, através de suas escolhas, conseguem fazer com que, ainda assim, o público torça por ele, humanizando-o a partir de seus instintos.

Além da grande atuação do protagonista, o elenco está em um patamar elevado, com atuações que são justificadas pelas motivações de seus personagens. LaKeith Stanfield, Julia Fox, Indina Menzel e Eric Bogosian entregam atuações incríveis. No entanto, Keith Williams Richards está assustador como alguém prestes a explodir, sendo um dos credores de Howard. Outro destaque fica por conta do ex-jogador de basquete, Kevin Garnett, que interpreta a si mesmo, quando ainda atuava na NBA em 2012, época em que se passa o filme.

A jornada de Howard está intrinsecamente associada ao vício. No entanto, esse é apenas um dos aspectos da auto-destruição do personagem. Embora o hábito de apostar seja mais implícito do que realmente dito (um grande acerto do filme), a compulsividade do personagem de Sandler é viver no limite. Ele negocia a todo momento, paga dívidas com dinheiro dos outros – portanto faz mais dívidas –, toma decisões necessárias, arriscadas e ao mesmo tempo estúpidas, e caminha para um rumo sem volta. Em determinado momento, ele confessa não fazer nada certo e que tudo dá errado. Ele tem razão, de certa forma, mas a montanha-russa de emoções que é o cotidiano deste joalheiro, não permite que ele possa, embora deseje em algum momento, mudar. Ele encontra paz no caos, e a única paz de verdade que possui é de custo elevado. É como se ele não pudesse vence; pelo menos por muito tempo.

É interessante notar como os diretores possuem total controle do material que tem em mãos. No fim do longa, somos devolvidos ao ponto de partida, como no fim de uma viagem alucinógena. A única ressalva, e que pode gerar um certo incômodo em parte do público, é justamente o frenesi em torno das ações. É compreensível que a decisão dos diretores em deixar três, quatro ou até cinco pessoas falando em uma cena em alguns momentos, retrate o que é o dia a dia de Howard em sua loja, e em sua vida. Em última análise, o filme é dotado de uma ansiedade crescente, tornando-se insuportavelmente desconfortável em alguns momentos. Esse pânico é proposital, mas não para todos os gostos.

Joias Brutas (2019) – A24/Netflix

Benny e Josh Safdie sabem como fazer um thriller enervante, com toques de humor peculiar e certos níveis de drama. Aos poucos, os diretores imprimem uma marca cada vez mais interessante, e não me lembro de desejar o próximo filme de um cineasta com tanto afinco como quando rolaram os créditos de Joias Brutas. Além disso, uma das maiores atuações de 2019, ano em que o longa foi lançado, é de Adam Sandler. A propósito, os minutos finais do longa ficam gravados na memória. Cinema em estado bruto.

JOIAS BRUTAS | UNCUT GEMS
4.5

RESUMO:

Após o ótimo Bom Comportamento (2017), os Irmãos Safdie entregam mais um caótico e grande filme em Joias Brutas, com uma grande atuação de Adam Sandler.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...