Crítica | Sem explorar seu potencial, ‘Os Órfãos’ não sai do lugar comum

O terror de Os Órfãos era promissor. Pelo trailer, notam-se elementos interessantes e favoráveis, mas, infelizmente, o filme deixa muito a desejar com um roteiro raso que alcança pouco de seu potencial. Baseado no célebre A Volta do Parafuso (1898), de Henry James, cuja história já teve uma cota de adaptações, a expectativa era de que esta trouxesse algum diferencial ou, no mínimo, fugisse do lugar comum.

A trama inicia-se quando Kate (Mackenzie Davis) muda-se para a típica mansão mal assombrada para ser tutora/babá de Flora (Brooklynn Prince) e Miles (Finn Wolfhard). É bastante óbvio que há vários segredos escondidos dentro daquelas paredes, tais quais, inclusive, as crianças parecem contribuir para os ocultos. A jovem logo começa a estranhar o clima na casa e a perceber situações estranhas.

A primeira inconsistência desta produção é a falta de motivação de Kate para permanecer naquele ambiente mesmo após estar sendo hostilizada pelos acontecimentos. Ela não cria um laço suficiente com Flora para que seja ela seu incentivo a se manter ali. Utiliza-se o fato dela ter crescido sem os pais para que construísse um senso de compromisso para com aquela atividade, mas tampouco tal alegação se mantém plausível.

Apesar disso, usa-se das cenas iniciais, em que a mãe de Kate aparece, para instaurar uma dúvida acerca do final. Em dado momento, passamos a nos questionar se a tutora realmente está sendo assombrada ou se apenas não está louca, condição que teria herdado de sua mãe. Essa confusão por parte do espectador é outro clichê em filmes do gênero — aquilo tudo é real ou o protagonista enlouqueceu? O maior problema é que nem o clichê é bem trabalhado. Ao final, a impressão é de que o longa termina do nada sem dar uma explicação razoável a quem o assiste.

 

Mackenzie Davis e Brooklynn Prince em “‘Os Órfãos” (2020) – Universal Pictures

O roteiro de Carey e Chad Hayes (Invocação do Mal) perde-se na criação de sustos banais e crianças com comportamentos bizarros. Esse fato desperdiça dois elementos em especial — a atuação das crianças e da babá e a direção de Floria Sigismondi, que é bem sucedida em criar uma estética bem interessante de um terror gótico. Além disso, os atores mirins —  que são promessas dentre o elenco infantil — tiveram suas potencialidades encurtadas.

Para o terror moderno, não cabem mais jump scares ou o lugar comum de mansões assombradas que guardam fantasmas e mistérios. É preciso ir mais além e buscar elementos da natureza humana e sociedade para constituírem o sobrenatural. A Volta do Parafuso será a história base para a segunda temporada da aclamada A Maldição da Residência Hill, da Netflix. Agora é torcer para que esta seja uma adaptação inteligente e instigante.

OS ÓRFÃOS | THE TURNING
2.5

RESUMO:

Repleto de clichês e convenções do gênero, Os Órfãos não explora todo o seu potencial e subestima suas próprias possibilidades.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"