Crítica | ‘Anne with an E’ se despede repentinamente da TV com um final justo e singelo – 3ª temporada

Cancelamentos na televisão são algo recorrente. Os “sériemaníacos” mais antigos parecem já estar anestesiados com essas notícias, mas, é incrível a força que, mesmo os anestesiados quanto os mais recentes espectadores, conseguem ter quando um programa de grande prestígio, porém com baixa audiência, chega a um fim repentino. Anne with an E é um dos mais recentes – e barulhentos – casos de cancelamento que conseguiu movimentar a internet de uma forma que até os que não conheciam o programa tiveram conhecimento da revolta. 

Houveram vários exemplos de casos que conseguiram uma visibilidade tão grande, que outras emissoras ou serviços de streaming, acabaram resgatando os programas e os trazendo para novas temporadas, como, por exemplo, Brooklyn Nine-Nine One Day at a Time. Até o momento de publicação deste artigo, Anne continua cancelada, mas já surgiram rumores que o Disney+ mostrou interesse em comprar a atração. Então, talvez, ela se junte ao grupo afortunado de séries que conseguiram sobreviver em meio a uma enorme tempestade. E, é válido dizer, que se houvesse um salvamento, não seria nada menos do que justo.  

A mais pura e justiceira jovem da televisão, felizmente, recebeu um fim justo e a altura do que merecia, mesmo com a incerteza de uma renovação quando os novos episódios estavam sendo escritos. Na verdade, Anne with an E vêm sofrendo com a possibilidade de cancelamento desde seu primeiro ano, o que trouxe a necessidade dos roteiristas de se adaptarem para um possível encerramento a cada fim de temporada. 

Anne (Amybeth McNulty) continua sua jornada de autoconhecimento e amadurecimento enquanto, ao mesmo tempo, lida com situações que colocam a prova cada vez mais sua força e justiça. Nas temporadas anteriores, a vida de Anne nunca deixou de ser difícil mesmo tendo um lar e uma família adotiva. Dessa vez, a dura realidade, não só sua, mas também a de seus amigos, baterá com muita mais força em sua porta a fazendo se auto desafiar para ajudá-los. 

Anne with an E – 3ª temporada (CBC/Netflix)

O principal ponto que fará Anne ir de encontro a essa realidade é a adição de Ka’kwet (Kiawentiio) e sua família indígena. Sua conexão com eles é imediata, e a jornada da família possui uma excelente abordagem, caindo como uma luva para a série que procura sempre trazer inclusão e assuntos pouco explorados. A tribo indígena Mi’kmaq, a qual Ka’kwet pertence, realmente existiu, e o pouco que vemos dela em cena já se torna possível perceber sua constante luta contra o preconceito, aceitação e justiça. A pesquisa sobre a tribo na internet após o término da temporada é uma dica para quem se interessar. Mas, é uma pena que a série decida não finalizar o arco de Ka’kwet, deixando-o em aberto para a quarta temporada, que durante a criação do roteiro ainda era uma possibilidade. 

Indo na contramão do peso que a história dos Mi’kmaq traz, o que também marca presença aqui é o amadurecimento de Anne em relação ao seu futuro, tanto profissional quanto romântico. Já havia sido abordado a dificuldade que Anne tem em demonstrar e entender seus sentimentos em relação a Gilbert (Lucas Jade Zumann), mas desta vez, essa dificuldade de entendimento se torna ainda mais urgente devido ao caos que seus colegas na escola começam a causar para conseguir um pretendente para o futuro. Sim, nessa época ainda era comum as mulheres encontrarem seus futuros maridos ainda jovens, e a série procura abordar os dois lados da moeda, tanto os que querem continuar nesse sistema que vêm de geração para geração, quanto aqueles que não se sentem confortáveis em possuir um pretendente logo nessa idade, enquanto ainda possui diversos sonhos para o futuro que não envolvem casar e ter filhos. Anne, claramente, é uma delas.  

Seu relacionamento com Gilbert ganha bastante tempo de tela, e acompanhar os desdobramentos, reviravoltas e dificuldades dos dois tentando entender e admitir seus sentimentos se torna algo adorável, e até mesmo estressante devido ao número de obstáculos que os dois precisam enfrentar para descobrir o amor um do outro. Os roteiristas sabem o que o público quer ver, e sinceramente? Um pequeno fã-service não faz mal a ninguém. 

Porém, mesmo com esse problema tomando conta dos seus pensamentos, Anne ainda precisa se entender e descobrir o que quer para o seu futuro: continuar com Marilla (Geraldine James) e Matthew (R.H. Thomson) ou desbravar em novas aventuras fora da cidade. Um grande fator que a impede de descobrir seus desejos é a falta de informação sobre seus pais e sua verdadeira identidade. Anne se mostra forte com as decepções em relação as descobertas sobre sua família de origem, mas ao mesmo tempo, não esconde a tristeza que é não saber de onde ela veio, se seus pais a amavam e a queriam por perto. 

Anne with an E – 3ª temporada (CBC/Netflix)

Como encerramento, os roteiristas procuram amarrar e dar um fim justo para todos os núcleos principais. Já que a série está parando por aqui, o final entregue consegue satisfazer, mas não deixa de transparecer o sentimento que ainda havia muito a ser explorado. Nesse atual momento de revolta pelo cancelamento, chega a ser repetitivo dizer que é uma pena ver uma série tão rica de sentimentos e ensinamentos acabar repentinamente. Mas, por mais que esses argumentos estejam escancarados até mesmo em outdoors na Times Square, eles são a mais pura verdade. 

Por agora, a torcida para que alguém salve o programa continua. Porém, se essa foi nossa última visita à Anne e seus amigos, é válido dizer que foi uma das mais bonitas e singelas despedidas que tivemos nos últimos tempos. Anne, você fará bastante falta! 

ANNE WITH AN E – 3ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

Anne with an E se despede de forma singela e justa da televisão, mas o sentimento de que havia muito mais a ser explorado não é abandonado em nenhum momento.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.