Crítica | ‘Jojo Rabbit’: comédia aborda um tema de grande relevância de um modo bem superficial

Jojo Betzler (Roman Griffin Davis) é um jovem de 10 anos, que sonha em ser um dos guardas pessoais de Adolf Hitler. Depois de sofrer um acidente durante um fim de semana da Juventude Hitlerista, a criança começa a procurar outros meios para tentar atingir seus objetivos. No entanto, Jojo acaba descobrindo que sua mãe (Scarlett Johansson) estava escondendo Elsa (Thomasin McKenzie), uma judia, em sua casa.

Não é a primeira vez que Hollywood se apropria de um evento que diz respeito a um outro país, ou nação, para fazer um filme, contando essa história numa versão onde todos falam inglês. Nem será a última. No que diz respeito ao Nazismo, é possível lembrar de produções como O Menino do Pijama Listrado (2008), A Lista de Schindler (1993), A Escolha de Sofia (1982), Bastardos Inglórios (2009), entre muitos outros. No gênero da comédia, talvez um dos melhores exemplos de filmes sobre esse tema seja O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin. O longa, que foi censurado em vários países, fazia críticas aos governos autoritários que estavam surgindo na Europa e ao evento que ficou conhecido como Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945).

Muito mais do que uma simples representação num filme, ou uma construção de críticas óbvias, é necessário que se faça um debate profundo e verdadeiro sobre temas tão sérios. O Nazismo – chefiado por Adolf Hitler -, em seu projeto imperialista, extremista e autoritário, levou à uma Grande Guerra; à difusão de pensamentos antissemitas, racistas, homofóbicos e anti-comunistas; e ao genocídio de milhões e milhões de pessoas (dentre esses, 6 milhões de judeus).

Todos concordam que o Nazismo foi um período de terror da história, mas a verdade é que muitos ao redor do mundo continuam, de alguma forma, colocando em prática as suas maneiras de pensar. De uns tempos para cá, grupos neonazistas voltaram a ter o destaque de parte da imprensa e partidos de extrema-direita começaram a ganhar mais força nos últimos anos em diferentes países, até mesmo na Alemanha, que investiu em um forte projeto para não apagar seu passado e aprender com os seus erros.

Jojo Rabbit (2019) – Searchlight Pictures

O roteiro de Jojo Rabbit, escrito por Taika Waititi – baseado no romance “Caging Skies”, de Christine Leunens -, apresenta de maneira satírica e irônica esse contexto do regime do Partido Nazista na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Todos os personagens, que são membros desse grupo, são retratados de modo bastante caricato. Falam absurdos, manuseiam armas o tempo todo, começam a gritar durante os seus discursos de uma hora para outra – isso sem contar os sotaques alemães. Mas será que o texto (o conteúdo do longa) cumpre com o papel de levantar uma discussão de fato acerca desse assunto?

O tema é trabalhado de maneira superficial. Os diálogos são todos voltados à ideia de ironizar – quase que menosprezando – os absurdos defendidos pelo Partido Nazista. Por mais que sejam absurdos, provocaram graves consequências no mundo real. Questões e noções importantes, que circulam o tema, são suprimidas no filme. A história nunca sai do ambiente do discurso. Pouquíssimas vezes são apresentadas reais ações promovidas pelo Regime e, quando isso acontece, são utilizadas apenas para o efeito de dramatizar apenas. E, mesmo assim, o “final feliz” está ali, assim como em todo filme hollywoodiano. Jojo Rabbit passa a impressão de que quer ao longo de toda a história suavizar o que seria a realidade.

Como é um tema complexo, é preciso tomar bastante cuidado com a representação dele numa produção cinematográfica. Desenvolver o assunto de modo diminutivo, sempre tendendo para uma simples comédia, pode passar a impressão de que não é necessário ficar bastante atento a esse tema. Pode parecer óbvio para muitos do que o Nazismo se trata – afinal, as pessoas viram esse assunto nas escolas, se informam com a imprensa. Mas esse não é um argumento válido, tendo em vista o real momento pelo qual o mundo passa, de avanço da extrema-direita.

Toda potencial questão a ser trabalhada nas características dos personagens são reduzidas a simples conflitos morais. Esses atributos nunca são aprofundados a ponto de se estabelecer relações de causa e consequência. Um ótimo exemplo disso é o autoritarismo presente no jovem Jojo (que será melhor discutido abaixo).

Jojo Rabbit (2019) – Searchlight Pictures

Outro ponto bastante questionável do conteúdo do roteiro é o simbolismo da “liberdade”, fortemente associada aos EUA. No entanto, essa não é uma questão particular da produção de Taika Waititi. Isso é uma grande contradição por alguns motivos. Primeiramente, os EUA não ganharam a Segunda Guerra sozinhos. O país do continente americano teve um grande apoio de outras nações. Em segundo lugar, as ações praticadas pelos EUA no que diz respeito à sua política externa provam que o país não é muito adepto do ideal de “liberdade” para os outros. Aliás, é válido fazer uma crítica ao termo “ganhar” que acabou de ser mencionado. Não há vitoriosos numa guerra; há aqueles lhe dão início e aqueles que perdem suas vidas por ela.

Porém, no que diz respeito à parte técnica, o filme se sai bem, como já era esperado. O trabalho de Taika na direção é muito bom. Ele já tinha desempenhado tal função em produções como O Que Fazemos nas Sombras (2014) e Thor: Ragnarok (2017). Em Jojo Rabbit, o diretor faz um bom uso de enquadramentos que contribuem para a comédia e sabe trabalhar a composição dos quadros. Ele também nunca quebra o ritmo de uma cena com uma piada, o que é outro ponto positivo. Destaque para duas cenas, nas quais Taika utiliza a câmera parada e o movimento dos elementos dentro do quadro: o diálogo entre Rebel Wilson, Sam Rockwell, Alfie Allen e Roman Griffin Davis na piscina; e o jantar de clima pesado entre Jojo e sua mãe.

O diretor também sabe construir situações consideradas nonsense ou absurdas, mas que funcionam muito bem. Muitas dessas cenas possuem a participação da versão de Adolf Hitler, interpretada pelo próprio Taika Waititi. Ele sempre aparece numa maneira imprevisível e seguindo a lógica do nonsense. Numa cena, o personagem aparece deitado na cama de Jojo; em outra, tentando nadar numa piscina; pulando de uma janela; comendo a cabeça de um unicórnio; etc. É interessante observar a forte influência que ele exerce sobre Jojo, uma vez que o Hitler de Waititi é o seu amigo imaginário. Muitas das características do jovem vêm do ditador em sua cabeça. Superficialmente falando, é engraçado. É possível que as pessoas se distraiam com essas situações. No entanto, a figura retratada é a grande questão. Muitas das ações horrendas cometidas sob as ordens de Hitler são deixadas de fora do filme. Em outras palavras, o tema é suavizado para que o gênero da comédia continue em funcionamento.

 

O protagonista, Jojo, é muito bem interpretado por Roman Griffin Davis. Esse é o seu primeiro papel no cinema e ele já conseguiu algumas indicações a diversas premiações, como o Globo de Ouro 2020 e o Critics´Choice Awards. O personagem é um jovem autoritário e fortemente nacionalista. Ele tem apenas 10 anos de idade, mas se preocupa bastante com os resultados negativos que a Alemanha vem tendo na Guerra. Sonha em ser um dos guardas pessoais de Hitler, mas não sabe amarrar o seu próprio sapato. Além disso, ele tem poucos amigos, sendo que o mais próximo é imaginário. Ao longo da história, Jojo começa a experienciar as sensações de incerteza acerca do que realmente é certo ou errado. Ele é o personagem central do filme e é a partir de sua relação com os outros personagens que fica possível compreendê-los melhor.

Jojo Rabbit (2019) – Searchlight Pictures

Scarlett Johansson interpreta Rosie, mãe de Jojo. É perceptível que ela tem muito espaço para desenvolver a sua atuação. E a atriz aproveita muito bem esse espaço. Scarlett, ao longo de sua carreira, se arriscou em alguns papeis mais sérios ou desafiantes. Uns deram certo, outros não. No entanto, na maioria dos casos, ela atuou em filmes que não exigiam tanto dela como atriz – são os casos das comédias românticas e dos filmes de super heróis. Seria interessante, vê-la retornando a esses papeis que saiam do comum (da caixinha). Sua personagem em Jojo Rabbit é completamente oposta ao seu filho. Rosie é carinhosa, é contrária à guerra e, consequentemente, se opõe ao Regime Nazista. Além disso, sabe quando deve ser mais rígida com Jojo e quando deve ser mais carinhosa. É com Rosie, que a história tenta fugir da comédia e seguir um caminho mais dramático, que, novamente, é trabalhado de modo bastante superficial. A atriz tem uma presença tão forte, que, até mesmo quando ela não está em cena, é possível senti-la.

Outro destaque é a atriz Thomasin McKenzie, que tem apenas 19 anos, e pode ter um grande futuro pela frente. Seu trabalho é mais contido. Ela utiliza bastante o olhar e a postura corporal. É uma pena que a sua personagem caia na crítica que foi feita mais acima. O roteiro fica tão preso ao discurso, que ele não é capaz de transmitir ao público a dificuldade que a garota enfrenta ao passar por aquela situação. É o famoso “não conte, mostre”. No entanto, um ponto positivo e bem aproveitado pelo roteiro é o modo como a personagem é introduzida na história, que faz muito sentido. Sua relação com Rosie é um acerto do filme. Mesmo que elas duas tenham poucas cenas juntas, as ótimas atuações de Thomasin e Scarlett contribuem para a criação de um laço quase que familiar entre as personagens. Já a relação entre Elsa e Jojo se dá, inicialmente, no âmbito das descobertas e dos pensamentos estúpidos do jovem de 10 anos e, depois, na amizade que vai sendo construída entre os dois.

O elenco do longa ainda conta com a participação de Rebel Wilson, Sam RockwellAlfie Allen. Rebel (A Escolha Perfeita) tem poucas participações e todas elas com piadas pontuais. Elas nunca quebram o ritmo do filme. Rockwell – vencedor do Oscar por Três Anúncios Para um Crime – vive se vangloriando pelos seus feitos em batalhas. O ator expressa muito bem a sua falta de vontade de estar naquele meio, treinando crianças, e a sua relação com o personagem de Alfie (Game of Thrones) é muito engraçada pelo fato de não ser tão explícita. O roteiro sabe trabalhar muito bem com os dois. Porém, o personagem de Sam passa por um grave problema no que diz respeito à sua clareza. Ele toma determinadas atitudes que fogem à regra do universo daquele personagem, o que determina uma falha na construção do roteiro.

O filme começa num ritmo bastante acelerado. Isso é muito bom, porque cobra do espectador uma atenção redobrada para não perder muitos detalhes. E, consequentemente, influencia na experiência cinematográfica. Mas esse ritmo tem uma grande queda a partir do segundo ato. Com isso, o terceiro ato também perde muito. Ele fica um pouco desinteressante, pois parece que não há uma real gravidade naquele contexto.

Jojo Rabbit (2019) – Searchlight Pictures

Outro ponto válido a ser destacado é a trilha sonora. Trabalhando com canções dos Beatles (“I Want To Hold Your Hand”) e de David Bowie (“Heroes”) – todas em alemão -, Taika consegue dar um estilo diferente ao filme. E elas deixam a produção um pouco mais atrativa – especialmente no início -, mesmo que em alguns momentos, não faça tanto sentido assim usá-las especificamente.

Jojo Rabbit tem o estilo de Taika Waititi certamente, fortemente marcado pelo uso da comédia, que é bem trabalhada, principalmente em cenas consideradas nonsense. O filme também conta com ótimas atuações. Sempre pautado na comédia, o roteiro acaba tratando o Nazismo como algo superficial e pequeno, passando a ideia de que ele pode ser menosprezado. Fica sempre nas críticas óbvias, não se aprofunda. Em um momento de avanço da extrema-direita ao redor do mundo e em que ideais nazistas aparecem cada vez mais em diferentes discursos, é necessário que tal tema seja discutido com mais seriedade.

JOJO RABBIT
2.5

RESUMO:

Jojo Rabbit, que recebeu seis indicações ao Oscar, é uma comédia bem elaborada por Taika Waititi, mas acaba trabalhando um tema sério de modo superficial, quase que o menosprezando.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.