Artigo | ‘O Farol’: a relação intempestiva entre dois faroleiros permeada por alucinações

Dois homens se aventuram a cuidar de um farol em uma ilha isolada, o experiente Thomas Wake (Willem Dafoe) e o jovem ajudante Ephraim Winslow (Robert Pattinson). No decorrer de O Farol (2019), em cartaz nos cinemas brasileiros desde 2 de janeiro, a relação entre os dois faroleiros se revelará conflitiva e permeada por muitos elementos simbólicos. Desde o início há uma hierarquia clara na dupla, Thomas ordena uma série de tarefas árduas a Ephraim durante o dia, enquanto anoite, ele faz a vigília no farol.

Na primeira metade de O Farol, acompanha-se a enfadonha e exaustiva rotina do novato marinheiro. Em pouco tempo, Thomas se revelou um tirano, o explorando implacavelmente. Ephrain não demorou para se sentir injustiçado com as demandas intermináveis de seu superior. Apesar de estabelecida uma espécie de relação senhor e escravo, houve momentos descontraídos entre os dois, regados com muita bebida. De jantares românticos, com revelações importantes, principalmente da parte de Ephrain, até brigas violentas.

O novato faroleiro em pouco tempo demonstrou uma enorme angústia em viver na ilha. Num primeiro momento teve sonhos bizarros e confusos, com elementos clássicos das lendas marítimas. Ele estava dentro de um barco e viu os tentáculos de um povo gigante, uma possível referência ao terrível Kraken. Em outro, sonhou que foi seduzido e enganado por uma sereia, e por fim, morto por ela. Ao longo do filme, o contorno surrealista ganhou força, misturando realidade com mitologia, perdendo-se assim certa referência. Esses incidentes bizarros deixam de ocorrer apenas nos sonhos e passam a permear o dia-a-dia de Ephrain quando está acordado.

Em uma das brigas com Thomas, o jovem o confunde com uma mulher e depois se dá conta de que estava abraçando o velho faroleiro. Ephrain aos poucos adota uma postura mais agressiva e paranoica. Chegou a pensar estar sendo perseguido por uma gaivota, um dia a agarrou pelo pescoço e a destroçou brutalmente. Mesmo o velho marinheiro, não era dos mais lúcidos. Ainda que dissesse com orgulho que adorava viver praticamente sozinho no farol, sem uma família, suas bebedeiras o transformavam.

A experiência de isolamento para a dupla tornou-se bastante destrutiva. Mas é válido lembrar, apesar de ser um forte gatilho para incidentes de surto, “não fica louco quem quer”, como diria Lacan. Ambos escolheram ir para a ilha, o que pode ser visto como uma opção estranha e insana. A psicanálise tende a pensar a loucura como uma condição estrutural, constituída ao longo do desenvolvimento do sujeito. Não será apenas um incidente isolado capaz de tornar alguém insano. Os contextos amedrontadores e sufocantes, podem contribuir para um rebaixamento da consciência e permitir certo domínio dos conteúdos inconscientes no psiquismo. Como por exemplo o amor, o ódio, a persecutoriedade, a sexualidade, entre outros. Dependendo da estrutura inconsciente de cada um, os fatores externos podem influenciar com maior ou menor força.

Além de possuir uma qualidade técnica impressionante, seja pelo som, iluminação, fotografia, em O Farol , as atuações de Robert Pattinson e Willem Dafoe foram magistrais. É importante notar que o filme se passa o tempo todo no mesmo ambiente, com apenas os dois atores. Apesar de ter um ritmo lento em certas cenas, principalmente quando Ephrain trabalha durante o dia, a interação entre ele e Thomas é incrível. A relação entre os faroleiros é tão confusa e imprevisível que contribuem ainda mais para o suspense do filme. Infelizmente nenhum dos atores está concorrendo em uma das categorias do Oscar, o que pode ser considerado uma tremenda injustiça. Ao menos o filme está no páreo na categoria técnica de melhor fotografia.

De forma geral, O Farol, dirigido por Robert Eggers, se mostrou uma experiência visceral. O cuidado com o roteiro e com os detalhes técnicos enriqueceram ainda mais a verossimilhança. Ao retratar a história do ponto de vista dos personagens, principalmente de Ephrain, o telespectador se aproxima da perspectiva delirante e alucinada deles, confundindo assim a realidade com a loucura. As tempestades, vendavais e trovões corroboraram o clima terrorífico, criando também um teor sobrenatural à narrativa, como se a ilha fosse amaldiçoada.

O filme, por ser em preto e branco, além de se aproximar do estilo de cinema das primeiras décadas do século passado, produz uma sensação de incômodo constante em um estilo baseado no realismo fantástico. No caso dos dois faroleiros, talvez o horror seja muito mais psicológico do que causado pelo ambiente. O sentimento de desamparo somado a um desequilíbrio psicológico são as piores companhias em um ambiente isolado. No fundo, os errantes marinheiros se afogaram em suas próprias angústias alucinatórias.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.