Crítica | ‘O Escândalo’ utiliza roteiro artificial para retratar uma importante história

A Fox News, comandada pelo empresário e executivo americano Roger Ailes, foi durante muito tempo, o canal televisivo americano mais assistido pelos conservadores do país. Canal que ajudou a eleição dos presidentes americanos republicanos Richard Nixon, Ronald Reagan e George H. W.. Entretanto, em 2017, uma onda de casos de assédio por parte de Ailes e outros magnatas da Fox são levados a público por várias repórteres do canal. Assim, O Escândalo, dirigido por Jay Roach, apresenta a incrível trama política vivida pela rede, bem como tenta explorar também as denúncias e a cultura da masculinidade tóxica da empresa de mídia norte-americana.

O longa é protagonizado por Charlize Theron, atriz que dá vida a Megyn Kelly, jornalista, advogada e comentarista de política norte-americana que entre os anos 2004 a 2017, foi âncora de jornalismo no canal. Como norteador temporal, Roach utiliza dos debates presidenciais, famosos do Fox News, que foram apimentados durante os anos de 2015 por parte da jornalista que questionava o atual presidente americano Donald Trump sobre suas opiniões e comentários sobre as mulheres. Assim, o filme apresenta de início não apenas o funcionamento da indústria televisiva da Fox, mas principalmente utiliza o jogo político criado por “Kelly vs Trump”, para representar o papel que as repórteres mulheres ocupam no cenário televisivo americano.

Com direção frenética, Roach acompanha durante todo o tempo as protagonistas em movimento, andando em escadas, pelos corredores, elevadores, criando assim a sensação de vida agitada existente não apenas nos bastidores dos jornais, mas principalmente na vida dessas mulheres, que quando não estão apresentando as notícias do dia, são alvos das mesmas. Porém, o tom ágil e rápido que o filme apresenta através de sua direção, não é o bastante para que o filme também passe rápido. Os 110 minutos de filme são prejudicados principalmente pelo zoom em excesso na cara das protagonistas, tornando o longa repetitivo e cansativo.

Além de Theron, Margot Robbie e Nicole Kidman protagonizam o longa, apresentando duas personagens com diferentes objetivos. Enquanto Kayla Pospisil (Robbie) é uma jovem iniciando a sua tão sonhada carreira na Fox, Gretchen Carlson (Kidman) é uma jornalista veterana que ao ser demitida pelo canal, é uma das primeiras jornalistas a processar Ailes por assédio sexual e danos morais. O compasso das duas que vivenciam épocas diferentes em suas vidas é posto em equilíbrio por Kelly (Theron), que na época estava no auge de sua carreira jornalística, mas revive memórias de seu passado quando o processo de Carlson contra Ailes vem a público.

As atrizes, ao darem vida às jornalistas que interpretam, vivem um papel metalinguístico, tendo em vista que cada uma como jornalista, tinha a necessidade de uma persona diante das câmeras, e quando tentava serem um pouco verdadeiras eram reprimidas. O que as ajudava não apenas a conduzir o público como também a criar um bom programa televisivo, de acordo a Ailes.

A veracidade de Theron ao interpretar Kelly entretanto, vai muito além de uma boa performance. A mesma apresenta uma jornalista perspicaz, ousada, e acima de tudo, atenta a cada um de seus passos, entretanto, para além disso, visualmente Theron se assemelha a fisionomia de Kelly de uma forma muito convincente e palpável. Esse trabalho se dá graças a maquiagem do filme, responsabilidade de Kazu Hiro, Anne Morgan e Vivian Baker. As três foram indicadas ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo, área que possui maior destaque no longa. Os personagens de Theron e John Lithgow estão presentes no filme de forma a apagar qualquer vestígio dos atores que os interpretam. Lithgow principalmente, ao interpretar um homem com muito poder e dinheiro, Roger Ailes, que tenta a todo o momento dominar e controlar a todos a sua volta.

A disputa existente através do debate político vivido entre Kelly e Trump acaba se tornando, no filme, uma alegoria dos mais diversos embates entre as jornalistas e Ailes. O longa apresenta o abuso de poder do magnata, bem como os seus sócios, além de apontar outros empresários que possuem conduta semelhante na indústria. Forma clara disso é o processo que Carlson trava contra o mesmo e as provas que ela possui, como frases com conotação sexual ditas por ele. Além disso, a forma como as jornalistas são tratadas por sua aparência seja na TV, nos rádios ou pessoalmente, reduzidas a meros objetos sexuais e de uso de prazer do homem deixa clara a forma como a indústria é resultado de uma sociedade fetichista, patriarcal e dominadora. Como resultado disso, logo que muitas dessas mulheres que sofreram abusos decidiram falar sobre, foram demitidas ou silenciadas pela indústria.

Assim, O Escândalo se propõe ao debate sobre a masculinidade tóxica, o principal objetivo e efeito dela com essas mulheres. Entretanto, o filme não passa disso, de uma proposta de debate. O longa apresenta o problema de forma simplória e superficial, mas aparenta ter medo de cavar o buraco mais a fundo. As atrizes que protagonizam essa história nunca são de fato exploradas para além de uma faceta estereotipada que apresentam, Kelly como o braço direito de Ailes, Carlson como a que busca por justiça e Karla como aquela que ainda irá descobrir o que há de pior na indústria.

O roteiro não oferece à essas mulheres que elas sejam algo a mais, bem como o elenco secundário do filme que apesar de grandes nomes como Allison Janney e Kate McKinnon, estão presentes apenas como alegorias. A grande quantidade de mulheres como coadjuvantes deixa apenas claro o número de vítimas que Ailes e seus sócios podem ter, entretanto não se esforça para que elas tenham algum significado de fato.

O tom frenético do longa lembra o estilo do diretor Adam McKay, responsável pelos longas Vice (2018) e A Grande Aposta (2016), filme do qual o roteirista de O Escândalo, Charles Randolph, também é responsável. Entretanto, o que funcionou para Randolph, deixou a desejar em O Escândalo; aqui a pegada humorística do roteirista é composta pela quebra da quarta parede, além da disputa política entre conservadores e liberais. O que também acaba sendo prejudicado pelo roteiro que nunca se encontra e não deixa evidente o seu objetivo, fazendo piadas rasas que assim como o resto do longa não vai mais a fundo nos temas que apresenta.

O Escândalo é um drama político que ao abordar o jogo da Fox News vs Trump acaba se saindo melhor do que ao entrar no tema do assédio sexual e moral vivido pelas jornalistas e mulheres que trabalham na Fox. De forma medíocre, Randolph e Roach não ultrapassam a artificialidade, e acabam sendo salvos pelas suas atrizes, em especial Theron, que mesmo com pouco material, consegue apresentar uma boa performance. Talvez esteja na hora de mulheres falarem sobre assuntos dos quais as mulheres vivenciam.

O ESCÂNDALO | BOMBSHELL
2.5

RESUMO:

O Escândalo se destaca pela suas atrizes e pela maquiagem, entretanto, o roteiro artificial junto com a direção frenética deixam a desejar.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.