Crítica | Roteiro de ‘1917’ não chega aos pés de sua parte técnica

Durante a Primeira Guerra Mundial, dois soldados, interpretados por Dean Charles Chapman Charles Mackay, recebem uma missão que poderia mudar o rumo da guerra. Eles deveriam atravessar boa parte do território inimigo em tempo curto para entregar uma mensagem, impedindo o ataque do 2º Batalhão do Regimento de Devonshire e salvando mais de 1600 homens.1917

1917, de Sam Mendes (Beleza Americana), tornou-se a principal aposta da temporada de premiações depois de ganhar o Globo de Ouro (Melhor Filme e Melhor Direção) e o PGA Awards, um dos principais termômetros para o Oscar. E na maior premiação de Hollywood, recebeu 10 indicações. A história, segundo o próprio diretor, é baseada num relato feito pelo seu avô, que na época era soldado na Guerra. “Era a história de um mensageiro que tinha um recado para levar.”, disse Mendes à Variety.

Muito tem se falado sobre o trabalho de direção em associação à fotografia, coordenada por Roger Deakins (vencedor do Oscar por Blade Runner 2047) – e isso será abordado mais abaixo. Porém, outro ponto que chama muita atenção é o roteiro em si, lembrando que Mendes foi indicado à categoria Melhor Roteiro Original.

O longa tem a sua premissa – que foi mencionada acima – e tem a base da sua história, que será discutida a seguir. Mas a grande proposta de 1917 é proporcionar uma experiência cinematográfica fortemente pautada na técnica. Chega a ser bastante parecido com Dunkirk (2017), de Christopher Nolan. De acordo com esse argumento, é importante que o ambiente no qual você vá assistir ao filme seja bem equipado, pois, certamente, influenciará na sua opinião sobre a produção. O alto som de aviões se aproximando; as grandes explosões; ou então os tiros disparados, que assustam o espectador, porque não sabe de onde saíram. Os efeitos visuais também são ótimos. Tecnicamente falando, o filme é excelente tanto visualmente quanto sonoramente.

Juntando a isso tudo tem as duas longas sequências realizadas sem cortes. O diretor mostra que tem total controle, especialmente, na composição dos quadros. São muitos elementos em cena e, ao mesmo tempo, em que eles aparecem completamente misturados, quase que de forma bagunçada, há também uma grande organização na tela. Sam Mendes sabe trabalhar com o ritmo, que também envolve o processo de montagem do filme. Os movimentos de câmera acontecem de modo bastante variado e harmônico. Em determinados momentos, é interessante a quantidade de espaços que o diretor consegue encontrar em ambientes bem fechados.

1917 (2017) – Universal Pictures

 

Roger Deakins mais uma vez apresenta um trabalho maravilhoso. A fotografia do filme é composta por um tom azulado não muito forte, representando aquele ambiente frio de guerra. Mas, principalmente no segundo ato, Roger passa a trabalhar com cores mais quentes e intensas. Há uma cena linda, visualmente falando, num confronto entre o protagonista e os alemães, na qual ao analisar o quadro é possível confundi-lo por um minuto com uma grande pintura. Sem dúvidas é um projeto ambicioso no que diz respeito à fotografia.

A trilha sonora composta por Thomas Newman funciona muito em conjunto com essa parte técnica. Há alguns momentos no longa que tornam-se grandiosos por causa da trilha, que tem o cuidado de ir crescendo aos poucos até atingir o seu ápice. Perto do final do filme, uma das músicas trabalha com a ideia de um relógio, contribuindo para o suspense no último ato (que nem é tão bom assim, conforme será analisado mais abaixo).

Voltando ao roteiro, é onde se localizam os grandes problemas de 1917. Assim como em Dunkirk, o roteiro não contribui muito e tem várias falhas. No entanto, é necessário ressaltar que o filme de Sam Mendes falha menos nesse sentido. Diálogos rasos, uma história bem superficial e que continua caindo em clichês de filmes de guerra, principalmente no que diz respeito aos discursos patrióticos e de busca pela “liberdade”. Parte da história, inclusive, lembra bastante O Resgate do Soldado Ryan (1999), de Steven Spielberg. A fim de evitar spoilers, nenhuma cena será descrita nesse texto. Mas esses clichês estão bem marcados no filme, é possível percebê-los claramente.

Seria muito melhor se o diretor focasse apenas na premissa e na experiência sensorial ao invés de tentar dar uma profundidade à história. Pode parecer contraditório, mas é aquela questão: se for fazer, faça direito. Também fica a dúvida do porquê da indicação do roteiro ao Oscar. Ele não apresenta novidade alguma. O terceiro ato não funciona tanto quanto deveria. No que diz respeito ao ritmo e à construção do clímax, é muito bom. Mas é previsível, o espectador já sabe exatamente o que esperar.

O grande problema é que, no início, o filme parece aceitar isso tranquilamente. Mas não foi o que aconteceu. O personagem de Mackay (Capitão Fantástico), por exemplo, funciona muito bem. Já o de Chapman (Game of Thrones), continua caindo em clichês. É a forte dramatização do personagem, a tentativa ineficaz de dar profundidade a ele, emoção. Porém como foi dito acima, o roteiro de Mendes erra menos do que o de Nolan. Nesse caso, não tem tantas cenas emotivas, com uma trilha sonora melancólica.

1917 (2017) – Universal Pictures

Portanto, 1917 conta com um excelente trabalho de direção por parte de Sam Mendes, que demonstra muito controle, especialmente, nas cenas de batalha. A fotografia de Roger Deakins e a trilha sonora de Thomas Newman contribuem para elevar o filme a outro nível. No entanto, a tentativa de aprofundar os personagens e trabalhar as emoções deles é um ponto negativo do roteiro e, consequentemente, prejudica o longa.

1917
3

RESUMO:

“1917”, de Sam Mendes, é tecnicamente excelente, mas, ao longo do caminho, encontra no roteiro o seu maior problema.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.