Crítica | Cynthia Erivo brilha, mas ‘Harriet’ não faz jus à heroína que retrata

Em 2016 foi anunciado que o rosto de Harriet Tubman, ex-escrava e militante abolicionista que atuou em 13 missões para libertar cativos, seria estampado nas notas de 20 dólares, a partir do ano de 2020, decisão essa mobilizada principalmente pela pressão exercida do grupo “Women on 20s”. Entretanto, a decisão tomada durante o mandato do ex-presidente Barack Obama não foi concretizada pelo atual presidente americano, Donald Trump. O mesmo alegou que que a troca do rosto de Jackson, um proprietário de escravos estampado na nota de 20 dólares desde 1928, pelo da abolicionista Tubman, seria “pura correção política”.

Apesar de não termos em 2020 Harriet Tubman em destaque no capital americano, a mesma foi representada de outra forma no país. Dirigido por Kasi Lemmons, o filme Harriet conta a história de Tubman, mulher que ajudou a libertar centenas de escravos no sul dos Estados Unidos após ela mesmo escapar da escravidão em 1849. O longa é protagonizado pela atriz e cantora Cynthia Erivo, única artista negra indicada nas categorias de atuação do Oscar 2020.

O longa acompanha Harriet antes mesmo dela ser conhecida por esse nome. Com o nome original de Araminta Ross, a jovem e sua família são forçados ao trabalho escravo no Condado de Dorchester, no Estado de Maryland, por volta de 1820. Quando a mesma é colocada à venda por seus senhores, ela decide fugir enquanto pode. Em sua trajetória, Harriet é guiada por visões que possui ao apresentar pequenos desmaios, que a acometem desde os 13 anos após ser golpeada na cabeça pelo seu senhor. Assim, Harriet acredita ser guiada por um poder divino, que irá ajudá-la a resgatar sua família, e todos os outros escravizados, após conquistar sua liberdade.

Assim como Harriet, Lemmons apresenta um objetivo audacioso e necessário: levar essa história à mais pessoas, principalmente para que elas tenham a noção de que uma mulher como Araminta existiu e salvou vidas das mais diversas formas, ainda que isso colocasse a sua em perigo. Apesar de fazê-lo, Lemmons se perde de sua proposta inicial ao conduzir uma cinebiografia clichê, que perde seu compasso nas cenas das visões, na trilha sonora, no roteiro, mas nunca em sua atriz título.

Com um roteiro escrito por Gregory Allen Howard e co-escrito por Lemmons, a grandiosa história de Harriet é contada no longa, podendo ser dividido em dois blocos, o antes e o depois de sua fuga. A primeira metade do filme apresenta de forma sucinta a forma como a vida de Harriet é estabelecida, ela e sua família – com exceção do seu pai – escravos da família Brodress; em poucos momentos de filme fica evidente a quem Harriet ama e protege, bem como aqueles que a perseguem e maltratam.

Joe Alwyn interpreta o jovem filho do senhor Brodress, que de forma fetichista e perversa apresenta grande dominação e sadismo por Harriet. Assim, a primeira parte do filme soa como um filme feito para TV. A dramaticidade do longa se torna artificial através dos diálogos que, por sua vez são repletos de frases de efeito, extremamente genéricos, o que torna tudo mais dramático, mas quase naturais quando Erivo conduz sua personagem.

Joe Alwyn em “Harriet” (2019)

Diferente de outros aspectos do filme, o que o situa como um longa de grande porte e um filme que tenta mais do que consegue é a fotografia. A fotografia de John Toll mescla a seriedade do tema com as ambientações naturais de Virgínia, onde o filme foi filmado. A fotografia utilizada no presente é vívida e ressalta de forma belíssima as paisagens naturais que cercam Harriet, seja o rio, a floresta ou o ambiente urbano. Entretanto, a fotografia utilizada nas cenas das premonições destoam totalmente de todo o filme. A cor azulada e a câmera desfocada são atributos presentes em filmes do início dos anos 2000, o que influencia ainda mais com a semelhança do longa para uma obra televisiva, tornando o filme batido e cafona.

A trajetória de Harriet é conduzida pela trilha sonora de Terence Blanchard, também responsável pela trilha de Infiltrado na Klan. Entretanto, diferente do que ele fez no longa de Spike Lee, uma trilha autoral unindo o original à pegada melancólica, em Harriet sua música soa como algo já antes feito, músicas gloriosas nos momentos ápices, mas canções essas que não possuem personalidade própria, remetendo a algo já feito.

A trilha em conjunto com o roteiro batido torna o filme cansativo, entretanto a história de Harriet e sua interpretação por Cynthia Erivo se destacam. Erivo que, na primeira metade é uma jovem amedrontada, ingênua e prefere a liberdade a qualquer custo, na segunda metade do filme se apresenta como uma mulher madura, que impõe sua liderança e que continua a preferir a liberdade perante qualquer outra coisa. A transição da primeira persona de Harriet para a segunda ocorre de forma fluida e orgânica, principalmente pelo fator da liberdade estar atrelada ao seu personagem durante todo o tempo, seja antes ou depois, sua luta continua a mesma com o mesmo objetivo. Entretanto. a personagem é quem amadureceu diante das coisas que viveu. Erivo encarna não só Harriet como a própria Araminta de forma muito composta e convincente, suas feições de tristeza e medo dão espaço para uma personagem de grande bravura, seu olhar amadurece e transpassa isso de forma única, que apenas o seu canto se iguala.

As músicas cantadas são utilizadas no filme como forma de comunicação entre Harriet e seu povo. Apesar de ser um artifício previsível, as músicas dão originalidade a partir de suas letras e também torna o filme menos histórico e mais afetivo. Erivo une duas das artes com a qual trabalha e transforma Harriet em uma mulher ainda mais admirável. As letras trabalham a história dela e conseguem, através de poucos minutos, resumir a grande vida que essa mulher teve. Apesar de curtas, as canções não poupam emoção e originalidade, artifícios esses que fizeram falta no longa. A atriz compôs as canções juntamente com Blanchard, que se sai muito melhor aqui do que na trilha sonora original do longa.

Cyntia Erivo em “Harriet” (2019)

Assim, Harriet  não se destaca de forma grandiosa como a mulher que retrata. Lemmons fez algumas escolhas dúbias, principalmente no roteiro, que é onde o filme perde sua magia. Magia essa que parece estar presente nas visões da protagonista, mesmo que na verdade fosse algo atrelado a sua espiritualidade. A forma como o longa aborda esses aspectos torna os momentos tão “mágicos” quanto repentinos. Artifício esse que era para ser um dos pontos altos do filme acaba sendo caricato e insonso.

Apesar das falas rasas ditas por Harriet e elenco, a mesma não perde forças nas mãos de Erivo. A atriz conduz a personagem de forma magistral e crível, desde os momentos mais frágeis, quantos as cenas cantadas, de perseguição e luta. Sua expressão bem como os silêncios da personagem dizem e trabalham muito mais do que quando a mesma é carregada por algum diálogo. A história de Harriet poderia ter sido melhor contada, mas dificilmente conseguiria ser melhor representada.

HARRIET
2.5

RESUMO:

Cynthia Erivo é o maior destaque no novo longa de Kasi Lemmons, Harriet, que conta a história de Harriet Tubman, mulher que ajudou a libertar centenas de escravos nos EUA.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.