Crítica | 2ª temporada de ‘Você’ não desvia das problemáticas, mas continua divertida e exagerada

Colecionando polêmicas desde o seu lançamento na NetflixVocê (You) é um daqueles raros casos de séries que passaram despercebidas durante a exibição na televisão, e que, ao chegarem à plataforma de streaming, conseguiram conquistar um estrondoso número de audiência. Talvez, se a série permanecesse sob os direitos somente do Lifetime, canal de exibição na televisão americana, ela não teria passado do primeiro ano.  

Desde o início, o intuito da série era gerar discussões sobre relacionamentos abusivos, mostrando desde o princípio a visão do abusador – e assassino também, neste caso – para que houvesse uma perspectiva diferenciada do assunto. Obviamente, trabalhar por esse ponto de vista é como andar em um campo minado pois a abordagem pode ir de encontro ao problemático e irresponsável com extrema facilidade. O carisma e talento de Penn Badgley interpretando o protagonista e a facilidade com que ele possui de conquistar o espectador era o principal fio condutor para que a série escorregasse para esse caminho. Mas, por mais que a primeira temporada tenha seus deslizes, a mensagem parece ter sido fixada corretamente.  

Desta vez, o carisma e sedução do protagonista continuam, mas a série acaba se atropelando em outras problemáticas que não cabiam a ser discutidas no ano anterior. Agora, a história gira em torno da mudança de Joe à Los Angeles com o intuito de recomeçar a sua vida e se tornar uma pessoa melhor, ao mesmo tempo em que tenta despistar sua recém-aparecida ex-namorada Candance (Ambyr Childers) que havia dado como morta. Mas, esse plano se complica quando seu caminho se esbarra com o de Love (Victoria Pedretti), e ele se apaixona novamente. 

Baseado no livro Corpos Ocultos, de Caroline Kepnes, o roteiro, dessa vez, parece focado em tentar entregar algo maior do que foi visto na primeira temporada. Antes, o núcleo de personagens era bastante fechado, focando somente no núcleo de Joe e seu vizinho, e o relacionamento dele com Beck (Elizabeth Dean Lail). Neste novo ano os horizontes são expandidos, e temos um maior número de personagens em tela, o que poderia ser bastante interessante caso fossem desenvolvidos e ganhassem a mesma atenção que alguns dos principais.  

Você – 2ª temporada (Netflix/Lifetime)

Leia a crítica da primeira temporada de ‘Você’

As novas vizinhas de Joe, Delilah (Carmela Zumbado) e Ellie (Jenna Ortega), por exemplo, são personagens que poderiam crescer com o desenrolar da história, mas acabam sendo jogadas de escanteio, e ganhando uma conclusão que dificilmente satisfaz quem se apegou a elas. Candance, em acréscimo, consegue ser ainda mais prejudicada, principalmente pelas expectativas criadas desde sua primeira aparição no final do ano anterior. A falta de atenção dada a personagem chega a ser desrespeitosa, prometendo um grande arco, mas que, no fim, não chega a lugar algum e é completamente desperdiçado. 

O grande diferencial de Você ao tratar de uma história sobre um psicopata é, exatamente, o que a deixa mais perigosa para o grande público: dar voz a ele. Desde a primeira temporada, o roteiro é narrado e acompanhado pelo ponto de vista do protagonista, fazendo com que embarcássemos facilmente em seus pensamentos, tornando a tarefa de odiá-lo algo bastante complicado. É clara a intenção de deixar o personagem o mais carismático possível para cair no agrado do público, mas, algo que a série não procura fazer constantemente, é fazer com que suas atitudes e crimes tenham peso negativo, e não que sejam compreensíveis por estarmos acompanhando pelo olhar de quem os está cometendo.  

O mesmo já foi feito anteriormente em Dexter, por exemplo, mas ao contrário de Você, lá éramos lembrados constantemente das graves atitudes do protagonista, e o próprio roteiro deixavam-nas terem consequências em sua vida e na narrativa. Aqui, isso quase não acontece, deixando com que Joe passe quase despercebido, não só pelos personagens, mas também pelo público, a cada crime cometido. Dificilmente sentimentos que o personagem está à um passo de ser pego, e se isso acontece, o problema é resolvido logo em seguida. A sensação passada é que tudo é conveniente demais para que Joe consiga se safar. 

Mas, mesmo diante disso, a série continua fazendo um excelente trabalho em entreter. A adição de Love é muito bem-vinda, por exemplo. Carismática, mas ao mesmo tempo extremamente enigmática, o roteiro procura deixar subentendido que há algo que ela e sua família escondem, e o desenvolvimento e conclusão desse “mistério” é o que a temporada entrega de melhor. Victoria Pedretti esbanja talento em tela, principalmente nos episódios finais. 

Você – 2ª temporada (Netflix/Lifetime)

 Forty (James Scully), irmão de Love, já não possui o mesmo carisma, e suas aparições acabam mais prejudicando do que acrescentando. Sua importância para a trama é enorme, mas sua insistência em se meter onde não é chamado, e de precisar que alguém segure sua mão a todo momento acaba deixando-o irritante e desagradável. O episódio em que ele e Joe passam por uma viagem alucinógena é um dos mais cansativos da série, quebrando o bom ritmo que havia sido construído até ali.  

Você continua sendo um bom exemplar de entretenimento. Por mais que o roteiro não procure desviar das problemáticas, a trama novelesca repleta de reviravoltas e situações exageradas continuam sendo o ponto forte da série. Já renovada para uma terceira temporada, o episódio final deixa em aberto diversas possibilidades de entregar algo ainda mais exagerado e improvável, e que, a essa altura, só nos resta embarcar pois qualquer senso de realidade já foi descartado há muito tempo. 

VOCÊ - 2ª TEMPORADA

RESUMO:

A segunda temporada de Você (You) não é um exemplo de responsabilidade, mas mantém a diversão com uma trama novelesca, repleta de reviravoltas e exagero.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.