Crítica | ‘Kursk: A Última Missão’ se perde entre o blockbuster e o cinema de arte

Kursk: A Última Missão (Kursk) é o que acontece quando um diretor de tendência mais artística e íntima como Thomas Vinterberg cruza com um roteirista de blockbuster como Robert Rodat (O Resgate do Soldado Ryan – 1998). O encontro da intimidade da arte com a exterioridade dos efeitos visuais e da ação poderia ter resultado em uma experiência interessante, o que infelizmente não aconteceu, tornando o filme mais aceitável do que notável.

Baseado no livro A Time do Die, de Robert Moore, Kursk: A Última Missão chega até nós bem atrasado (o filme é de 2018) para contar a história do submarino russo Kursk, que afundou em 2000 matando dezenas de marinheiros, mas se perde por não conseguir fazer seus vários pontos positivos se sobressaírem no plano geral.

Para começar, a película entrega uma já conhecida receita de três frentes narrativas: a do herói protagonista, bom, leal e forte; a da família desse herói, que sofre com a espera e angústia de não saber se ele vai ou não sobreviver; e a das autoridades do governo, que têm o poder de decisão sobre fazer alguma coisa ou manter-se quieta.

Tal divisão em si não é o problema e, por um momento, pareceu que Vinterberg iria fazer a diferença, principalmente quando Léa Seydoux entra em cena. Assim, a sensibilidade mais exacerbada do diretor quis transformá-la numa personagem mais relevante e forte do que costumam ser as mulheres dos protagonistas em filmes desse tipo – basta observar Mandy Moore no recente Midway: Batalha em Alto Mar, tão coadjuvante que é quase descartável. Inchada pela gravidez e cheia de olheiras, a interpretação da atual Bond girl é notável.

Porém, tal estratégia talvez tenha sido o motivo do pouco brilho do longa, já que tirou tempo de tela do foco principal da história – o naufrágio do Kursk – e ainda assim não conseguiu se aprofundar o suficiente na situação da família dos marinheiros que ficaram presos no submarino ou mesmo na dos agentes dos governos russo e americano.

Kursk: A Última Missão (2018)

Matthias Schoenaerts, que interpreta o protagonista Mikhail Averin, é esforçado e não faz feio. Ele é a urdidura que mantém unida e viva uma parte dos colegas depois que eles sobrevivem a várias explosões causadas pelo superaquecimento de um míssil – o típico herói patriota. É ele quem comanda a cena mais tensa e claustrofóbica da película, quando atravessa a nado um compartimento completamente submerso para buscar cartuchos de oxigênio.

Já o vencedor do Oscar Colin Firth, o honrado comodoro americano David Russell, entra em um papel no mínimo medíocre para ele, dadas suas limitadas e fáceis aparições. Não obstante, ele representa a importância da cooperação internacional (ou será que representa a bondade dos americanos?) em questões como a ilustrada em Kursk: A Última Missão. A ele se opõe a arrogância e a negligência do líder de governo russo Vladimir Petrenko, vivido pelo excelente Max von Sydow em mais uma instigante atuação.

O final da história do submarino é de conhecimento geral, e a tragédia foi retratada com a fotografia incrível da película. A cena do Kursk saindo do cais e submergindo no oceano com o plano se abrindo gradualmente na tela é genial. Mas não foi dessa vez que um roteiro de blockbuster numa direção artística conseguiu fazer a diferença. Kursk: A Última Missão é bom, mas não passa disso.

KURSK: A ÚLTIMA MISSÃO
2.5

RESUMO:

Sem brilho, Kursk: A Última Missão é mais uma boa ideia que não deu tão certo assim.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.