Crítica | ‘The Farewell’ aborda as diferenças culturais e geracionais a partir de drama familiar

“– Qual você acha melhor? China ou Estados Unidos?
– É diferente.”

Inspirado em mentiras reais. É a partir desses dizeres que a diretora e roteirista Lulu Wang dá início ao seu longa, The Farewell. Baseado em fatos vividos pela diretora chinesa que passou mais da metade de sua vida nos Estados Unidos, o filme gira em torno de sua avó, Nai Nai (Shuzhen Zhao), que após ser diagnosticada com câncer e possuir apenas mais algumas semanas de vida, não é informada a respeito do seu diagnóstico por decisão da sua família. Em vez disso, seus filhos e netos arranjam um casamento de última hora para que todos os parentes mais distantes possam vê-la por uma última vez. O plano inicial parece simples e fácil de seguir, se não fosse pelos valores morais e emocionais postos em cheque pela neta Billi (Awkwafina) ao se questionar se sua avó deve ou não saber acerca de seu quadro.

O filme rapidamente encontra o elo que procura questionar, as vivências culturais de uma grande família com vivências diferentes. Assim, ao voltar para a China para o suposto casamento do primo, Billi (e seus pais), que vive nos Estados Unidos é colocada em um novo âmbito, muito diferente daquele que está acostumada a viver.

Colocada pela avó como independente, autossuficiente e guerreira, Billi tenta se encontrar numa Nova York que ao mesmo tempo que lhe parece familiar, também soa solitária. Vivendo com seus pais no país desde os três anos de idade, mora sozinha e os jantares em família costumam ser em mesas quadradas e regados à piada. Enquanto isso, na China, as refeições ocorrem com toda a família à mesa – redonda – na qual, enquanto a mesa gira com os pratos do dia, as discussões não são evitadas. Assim, Wang consegue utilizar a comida como forma de conexão entre os tios, sobrinhos, avós e pais, mesmo que, essa conexão não seja sempre positiva.

The Farewell (2019)

Os debates acerca da cultura americana versus cultura chinesa são abordados pela roteirista de forma muito sutil, inicialmente. Desde conversas no telefone entre Billi e Nai Nai, uma antiga geração comparada a uma nova que possuem perspectivas e conhecimentos diferentes acerca dos lugares onde moram. Até debates mais calorosos como aqueles vividos durante as refeições, horários nos quais toda a família está reunida.

Uma das particularidades utilizadas para falar sobre a cultura de cada país é o idioma. O filme é falado em inglês e mandarim, e assim como para os mais velhos é essencial falar o mandarim de forma clara, também é sinal de modernidade se falar bem o inglês. O entrave, então, aparece quando algum familiar não entende aquilo que se diz, o que ocorre com certa freqüência durante o filme. Seja ao falar sobre a doença da Nai Nai em língua inglesa para que ela não entenda, ou nos jantares calorosos nos quais duas matriarcas falam em mandarim evitando o entendimento dos mais jovens. Logo, Wang não mede esforços ao deixar a questão cultural sempre em vista, nunca uma sobressaindo à outra, apenas apresentando como ambas possuem suas particularidades e como elas são importantes de formas diferentes.

Para além dos diálogos, a diferença cultural também é evidenciada através das ambientações dos locais em que Billi e seus pais habitam. Apresentando inicialmente um aspecto mais gráfico dos Estados Unidos, o filme, no geral, é vivido quase completamente na China. Entretanto, os poucos minutos que recapitulam como é a vida da jovem no país americano é o suficiente para se entender o choque e a diferença cultural ao sermos levados para a China. Choque cultural esse que não está em vista apenas como uma questão física ou de língua, mas principalmente de gerações.

Evitar falar para a matriarca da família sobre sua doença é tido como um costume cultural e seguido fervorosamente pelas gerações mais tradicionais, entretanto, para a jovem que cresceu mais da metade de sua vida nos Estados Unidos, esconder a informação de sua Nai Nai não seria apenas errado – tendo em vista a mentira – mas também, desleal. Wang aborda o estranhamento cultural por ambas as partes da família de forma muito palpável e conflituosa, mas não de forma ideológica que exalte uma perante a outra. O discurso do filme segue o caminho dos conflitos de gerações e de culturas, mas de forma a criar debates e questionamentos reais acerca daquilo que conhecemos ou alegamos conhecer.

The Farewell (2019)

Como dito, Wang é bastante precisa e perspicaz ao apontar o seu foco de análise, para além dos conflitos culturais. Os conflitos geracionais ganham bastante destaque entre todos os âmbitos familiar do longa. A pressão familiar imposta na jovem Billi é inicialmente quanto ao seu lado emotivo, já que desde início a mesma é excluída e apontada pela família como aquela que não irá segurar a emoção diante da avó. Entretanto, ao longo do filme, é exposto que as pressões em cima da moça surgem de várias esferas, seja em relacionamento, trabalho, moradia, aptidão ou postura social. Assim como, a pressão existente sobre sua mãe Lu Jian (Diana Lin) por parte da Nai Nai também são inúmeras outras, principalmente como provedora do lar que deve cuidar bem do marido e filha. Dessa forma, a pressão familiar surge de todos os lados, sobre todos os membros, cada um de uma forma diferente. Esse aspecto aproxima a família ao telespectador, que não precisa ser chinês, ou americano, para se identificar com aquilo que vê, entendendo que a dinâmica familiar e os problemas familiares muitas vezes são os mesmos, mesmo que a cultura seja diferente.

O ótimo trabalho no roteiro de Wang é apenas reforçado com o desempenho da protagonista, Billi interpretada por uma Awkwafina completamente diferente da rica Peik Lin Goh de Podres de Ricos (2018). Aqui a atriz entrega muito pelo o olhar e pelo silêncio, já que sua tristeza é impedida de ser evidentemente sentida pela sua família. Ao ter que carregar o fardo de mentir para sua avó, acrescido da dor de talvez perdê-la, a jovem se encontra sozinha e incompreendida, principalmente ao ter todos os seus familiares apoiando a mentira. Nos momentos em que se encontra sozinha em cena, a protagonista se mostra ainda mais abafada, já que nem assim consegue por pra fora o que visivelmente está sentindo.

Nai Nai, interpretada magistralmente pela Shuzhen Zhao, a matriarca da família, conduz todo o seu arco de forma muito singela, apesar de suas regras e imposições. A senhora rouba a cena ao ser a única familiar que não sabe o que se passa, seu olhar inocente e seu jeito sincero torna a história cômica mas difícil de assistir, principalmente, de se posicionar perante a divisão familiar.

Por fim, a mãe de Billi interpretada por Diana Lin, também se destaca nas discussões familiares, se tornando peça-chave para os diálogos mais reflexivos. Seus olhares sempre duros mas preocupados, em junção com o comportamento julgador – quando sozinha com sua filha – porém defensor – quando em frente aos familiares -, apresenta uma figura materna que diferente das unilaterais das quais o cinema é cheio, se mostra uma mulher com muitas questões e imperfeições, mas que de fato age pensando no que seria melhor para sua família. É no olhar de canto, e no sorriso de lado que seu desempenho marca, sem necessariamente precisar de grandes monólogos ou longos choros para a câmera. “– Eu não gosto de colocar todas as minhas emoções na tela, como se eu fosse um animal no zoológico.”, afirma a personagem.

A trilha sonora pontua o filme de forma comovente, principalmente nos momentos de maior tensão. Além disso, a música tema Come Healing de Leonard Cohen cantada por Elayna Boyton pode ser considerada um dos melhores usos de música em filmes no ano de 2019.

The Farewell (2019)

The Farewell.é um filme cativante, doloroso, mas sincero. Não se esquiva de abordar os conflitos familiares, culturais, os aspectos morais e principalmente o abuso de poder existente na hierarquia familiar. Abordando tudo de forma simples sem que seja necessário um grande plot para abarcar tudo aquilo que se propõe, o longa de Lulu Wang desponta na temporada de premiações sendo lembrada, principalmente nas categorias de atriz coadjuvante para Shuzhen Zhao e roteiro original, tanto nas premiações voltadas para o cinema independente como o Gotham Awards e Independent Spirit Awards, mas também nas premiações televisionadas como BAFTA Awards, Globo de Ouro e Critics Choice Awards. E que isso sirva principalmente de incentivo para que Wang continue a escrever filmes tão lindos quanto esse.

THE FAREWELL
4

RESUMO:

Indicado ao Globo de Ouro, novo filme de Lulu Wang, The Farewell, explora a dinâmica familiar e os aspectos morais em roteiro baseado em fatos reais vividos pela mesma

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.