Crítica | ‘Star Wars: A Ascensão Skywalker’ encerra a trilogia de forma covarde e sem personalidade

Debater sobre a nova trilogia de Star Wars deixou de ser algo saudável há muito tempo. Dada como patrimônio cultural para os fãs de cultura pop, a franquia é endeusada por uma grande parcela do público tornando-a como algo imutável,  e que não deve obter nem ao menos um olhar diferenciado do que estão acostumados há tantas décadas. Qualquer tentativa de algo que saia da zona de conforto é recebida de braços abertos por alguns, mas com descaso e nervosismo por outros. 

Criar esta terceira trilogia era entrar em um território perigoso, mas que com o O Despertar da Força, lançado em 2015 e dirigido por J.J. Abrams, pareceu ter agradado não só a crítica, como também o público. Dito pelo público como um remake de Uma Nova Esperança, o filme conseguiu introduzir novos personagens, mas sem correr riscos em relação ao roteiro, que seguiu a risco a estrutura do original. As coisas parecem ter desandado – ou ao menos, é o que alguns dizem – com o lançamento de Os Último Jedidirigido por Rian Johnson, dois anos após seu antecessor. Corajoso, o filme trouxe novos ares para uma franquia que sempre procurava não se arriscar. Porém, essa diferente visão que os diretores possuem gerou um grande conflito entre os fãs, tornando barulhenta a opinião dos mais extremos, influenciando consideravelmente no escritório da Disney e da Lucasfilm 

Essa influência pode ser vista no resultado final de A Ascensão Skywalkerque esquece da identidade própria para dar espaço à um roteiro que parece se preocupar mais em “consertar” o que foi feito no filme anterior, do que realmente seguir a história do ponto onde Johnson deixou. J.J. Abrams passa a sensação de querer andar – mais uma vez – em um território seguro, com o intuito de agradar o maior número de pessoas possível, deixando de lado toda a originalidade e coragem vista anteriormente.  

A responsabilidade que Abrams possuía aqui era descomunal, afinal, este não é somente o capítulo final da trilogia, mas também o final de toda a saga Skywalker, que perdura nos cinemas há mais de 40 anos. Agradar a todos era uma tarefa impossível, mas as escolhas do diretor acabam sendo duvidosas por não transparecer estar cuidando de um episódio final, e sim de somente um episódio qualquer.  

Star Wars: A Ascensão Skywalker (2019) – Disney/Lucasfilm

Desta vez, o roteiro, escrito por Abrams em parceria com Chris Terriogira em torno da busca de um objeto que ajudará a Resistência a encontrar e lutar contra a temível Ordem Final, criada por Palpatine (Ian McDarmid), vilão dado como morto desde o O Retorno de Jedi (1983), – o qual o roteiro não se preocupa em entrar em detalhes sobre seu retorno. Enquanto isso, Rey (Daisy Ridley) passa a treinar com a General Leia Organa (Carrie Fisher), e Kylo Ren (Adam Driver) continua em meio a conflitos internos pendendo para os dois lados da Força, ao mesmo tempo em que recebe ordens diretas do vilão para matar a garota. 

Logo nos primeiros 10 minutos, é possível perceber a árdua tentativa do diretor e roteiristas de apagar o maior número de arcos possíveis de Os Últimos Jedi. Se fomos parar para notar, o que foi mantido se resume apenas na conexão entre Kylo e Rey, e a morte de Luke Skywalker (Mark Hamill). Este capítulo final parece mais preocupado em fazer pequenas alfinetadas no antigo diretor, do que construir propriamente uma história que faça sentido dentro da trilogia, e que ao mesmo tempo, encerre o arco de todos os personagens da saga. 

Ao longo do filme, por exemplo, podemos ver Abrams dando uma resposta direta à cena em que Luke descarta seu sabre de luz jogando-o para trás, a partir de uma fala bastante explícita do próprio personagem dizendo à Rey que um sabre deve ser tratado com maior respeito. Chega a ser cômica a tentativa de se redimir pelos “erros” do passado, quando na verdade, o filme cresceria ainda mais se o roteiro se orgulhasse do que fosse construído anteriormente, e usasse isso ao seu favor. A construção narrativa não pareceria algo picotado, e veríamos um episódio final extremamente mais satisfatório do que foi apresentado aqui. 

Entretanto, o arco de Rey e Kylo é o menos prejudicado pelas falhas, mas que ainda assim sofre pelo roteiro corrido. A ligação entre os dois é bem utilizada, mas que em alguns momentos se mostra apressada demais para chegar do ponto A ao B. Quando se trata de Kylo, por exemplo, seu arco de redenção passaria batido se não fosse pela presença de Harrison Ford, pois não é dada nem ao menos uma linha de diálogo à Driver durante o ato final. O personagem se mantém forte apenas pela sua atuação que se mostra mais uma vez excelente.  

Star Wars: A Ascensão Skywalker (2019) – Disney/Lucasfilm

Quando se trata de Rey, o desenvolvimento se torna mais problemático. É deixada de lado toda a magia construída em volta da personagem não ter parentescos com grandes famílias da saga, e ser o perfeito exemplo da Força conseguir se manifestar em qualquer pessoa, para dar lugar à uma reviravolta previsível e barata, em que a garota é, na verdade, neta do vilão Palpatine. Sem sentido, a revelação não se mostra nem ao menos grandiosa dentro do próprio roteiro, sendo praticamente esquecida durante os minutos seguintes. Pouco se fala sobre a relação de neta e avô, dando a entender que esta é só mais uma tentativa de satisfazer os fãs que não se contentam em Rey ser apenas uma mulher com a Força dentro de si.  

Mesmo com tanta correria por parte do roteiro, o ritmo consegue fluir bem, tornando o filme divertido, e sempre com algo acontecendo em tela, – até mesmo para tentar disfarçar as incongruências expostas. Esta é a primeira vez que podemos ver o trio principal – Rey, Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac) – juntos em ação pela primeira vez. A dinâmica entre os 3 é excelente, e quando estão trabalhando em conjunto, é onde o filme acerta consideravelmente.  

Mas, apesar de toda a diversão, é curioso notar que o roteiro se mostra ainda mais covarde dentro da própria proposta. Ele se nega a entrar de cabeça nas decisões tomadas, voltando atrás a todo momento que apresenta algo surpreendente em tela. Por exemplo, a morte de Chewie pelas mãos de Rey, e as memórias apagadas de C3-PO seriam decisões extremamente corajosas se fossem levadas a sério, e o roteiro não procurasse revertê-las pouquíssimo tempo depois.  

Além de tudo, é curioso notar a diminuição do tempo de tela de Rose, interpretada por Kelly Marie Tran. Em Os Últimos Jedia atriz sofreu ataques pela sua participação no filme, a qual desagradou uma quantidade seletiva de fãs. Rose havia sido introduzida na trama para participar de uma missão ao lado de Finn. Agora, sua participação é reduzida há apenas alguns segundos de tela em um filme de 2h22min. Fazendo isso, J.J. Abrams se mostra – mais uma vez – sem coragem de bater de frente com opiniões contrárias, e desta vez também, com o preconceito escancarado de parte dos fãs.  

Star Wars: A Ascensão Skywalker (2019) – Disney/Lucasfilm

CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA TRILOGIA

Star Wars pode não ser exemplar em construção de roteiro, mas sempre se mostrou pé no chão com que o gostaria de contar, até mesmo durante a trilogia prequela qual também sofreu severas críticas. Mesmo com todas as reclamações, George Lucas entregou a história que planejava contar do começo ao fim. Aqui, isso não parece ter acontecido. Se havia um planejamento de história desde o início, ele não parecer ter seguido à risca, mostrando ter passado por desavenças e mudanças ao longo dos anos. Ao apresentar a proposta de três filmes, é preciso planejar minuciosamente a história que será contada, mesmo que haja diferentes diretores para trazer cada parte dela às telas. Quando há um planejamento, a história flui corretamente, entregando algo conciso, mesmo que haja diferentes opiniões do público sobre o desenrolar da trama.  

A Ascensão Skywalker parece uma colcha de retalhos. Há claras tentativas de agradar o maior número de pessoas aqui, mas falha na construção do roteiro. O fim de cada personagem pode não ser absurdo, mas o desenvolvimento da jornada de cada um acaba tornando a experiência, no mínimo, decepcionante. A diversão está presente com ótimas cenas de ação, mais lutas de sabre de luz do que nunca, humor certeiro, e um ritmo que nunca deixa a peteca cair, mesmo tentando disfarçar as falhas de roteiro. Não é bom, nem ruim, apenas estranho.  

A partir de agora, nos resta discutir o rumo que a Disney dará para a franquia. Com uma nova trilogia sendo planejada com nenhuma relação com a família Skywalker, o que será que veremos no futuro? Os rumores de nomes por trás da trilogia são promissores, encabeçados por Kevin Feige, e Rian Johnson. Mas, acima de tudo, o que deve ser levado de aprendizado para essa nova fase, é que os fãs merecem ser levados em consideração, mas que não se deve deixá-los ditar os rumos de uma franquia.  

STAR WARS: A ASCENÇÃO SKYWALKER | STAR WARS: THE RISE OF SKYWALKER
2.5

RESUMO:

Star Wars: A Ascensão Skywalker é o perfeito exemplo de filme Frankenstein.  É uma colcha de retalhos onde J.J. Abrams tenta de todas as formas agradar o maior número de pessoas possível, mas esquece do mais importante: originalidade e personalidade.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.