Crítica | Damon Lindelof entrega em ‘Watchmen’ uma das melhores séries do ano

Cocriador da série de maior impacto cultural dos anos 2000, Damon Lindelof encerra a década seguinte em alta, após o final controverso de Lost (2004-2010). Depois de sua cocriação seguinte, The Leftovers (2014-2017), ter alcançado status cult e ser ignorada pela crítica mesmo sendo uma obra-prima da TV moderna, é com Watchmen que o showrunner, escritor e produtor finca de vez seu nome como um dos mais proeminentes nomes da televisão.

Uma das questões mais interessantes ao analisar a bem sucedida jornada de Watchmen não é apenas a narrativa, mas a abordagem em relação ao material de origem. Lindelof tinha em mãos uma missão complicada. A história de Alan Moore, um dos autores mais importantes de todos os tempos, é considerada uma das mais influentes na cultura pop. Publicada entre 1986 e 1987, as 12 edições desenhadas por Dave Gibbons foram responsáveis por trazer uma realidade mais madura e existencial, com menos superficialidade e simplicidade das jornadas de heróis tradicionais; uma forma alternativa de se contar histórias do gênero.

A HBO nunca vendeu a série como uma continuação direta apenas, mas não se afastou do material original para criar este novo universo.  “Watchmen abraça a nostalgia da novela gráfica original ao tentar abrir novos caminhos”, dizia a descrição do canal antes da estreia da série. E é exatamente isso o que Lindelof faz aqui. Ele, que já havia declarado em entrevista que ama o material original e que tudo era cânon para o universo da série, garantiu que não haveria reboot ou algo parecido. O que frustrou alguns fãs da adaptação cinematográfica de 2009, feita por Zack Snyder. E convenhamos, a decisão não poderia ter sido melhor.

Watchmen (2019) – HBO

Os primeiros minutos da série são extremamente corajosos. A sequência do massacre de Tulsa diz que sim, há um universo totalmente novo a ser explorado, uma temática explícita que rima com a América – e o mundo – atual. À medida em que a história se desenrola, todas as conexões surgem de forma orgânica. A série consegue conciliar a estranheza que uma chuva de lulas naturalmente causa no espectador comum, ao estabelecer que esse mesmo evento é o que molda um mundo que ainda se alimenta de uma paranoia, usando a busca pelo poder como um importante pano de fundo, que se move nas sombras. Um mundo com tecnologia avançada, sem smartphones ou computadores, que episódio e episódio, acaba fazendo sentido por si só, dentro de sua lógica própria.

A cortina não é aberta de uma vez, e aos poucos, os elementos permitem se conectar. À medida em que conhecemos novos personagens, como Angela Abar (Regina King), Looking Glass (Tim Blake Nelson), Will (Louis Gossett Jr.), Lady Trieu (Hong Chau) e Cal (Yahya Abdul-Mateen II), a introdução de Adrian Veidt (Jeremy Irons), Laurie Blake (Jean Smart), o culto ainda que distorcido ao Rorschach e a importância que o Dr. Manhattan ganha na trama são surpreendentes. Desconcertantes, eu diria. É tudo uma coisa só e não poderia ser diferente.

Lindelof, que afirmou ter lutado para se afastar da reverência pura e simples, e então correr riscos, tem a coragem de explorar temas raciais, justiceiros, violência policial, que desembocam nas questões existenciais que permeiam suas obras, como o autoconhecimento e a busca por um sentido. Há muitas camadas em Watchmen, até mesmo mais do que se poderia explorar nas HQS. Toda a jornada de Will Reeves, o complicado plano do Dr. Manhattan, o protagonismo de Angela Abar, a vilania espelhada entre a Sétima Cavalaria e as “boas intenções” de Lady Trieu, a meia redenção do Ozzymandias, o estado das coisas pós 1985 representados na figura do traumatizado Looking Glass… há muita coisa sendo dita ao mesmo tempo, cada uma delas rendendo boas discussões. E na maior parte do tempo, tudo parece não fazer sentido, até que os últimos episódios fazem a conexão de todos os núcleos.

Watchmen (2019) – HBO

Além de possuir um roteiro coeso, que esbarre vez ou outra em pequenas mas necessárias redundâncias (algumas explicações que poderiam soar como expositivas acabam sendo necessárias para quem não conhece a HQ), todos os episódios são bem dirigidos, em especial por Nicole Kassell, que comanda o ótimo “A God Walks into Abar”, penúltimo episódio, e “This Extraordinary Being”, quando conhecemos as pílulas de nostalgia pelas mãos de Stephen Williams. Nesses dois capítulos, criatividade e estilos distintos são colocadas a serviço da história. A decisão de Kassell em não mostrar o rosto do Dr. Manhattan é uma escolha ousada e acertada. As idas e vindas no tempo não se confundem, fato que também ocorre no episódio dirigido por Williams, uma viagem alucinante pelo passado de Will Reeves, através das pílulas de nostalgia.

Artisticamente, Watchmen é dotada de momentos marcantes. A HBO não poupou esforços e o design de produção da série, a fotografia e os efeitos visuais são incríveis. Cito aqui cinco momentos impressionantes: a lula gigante, fantástica!; Dr. Manhattan criando vida em Europa; a nave da polícia no episódio piloto; a vida de Adrian Veidt fora da Terra; e a sequência que envolve o massacre em Tulsa.

Nenhum dos fatores acima, porém, seriam desataque sem o material humano. O elenco de Watchmen é primoroso. Regina King mostra que não possui três Emmys e um Oscar a toa. Por um momento, a narrativa chega a nos confundir em relação ao seu protagonismo, mas quando ela reassume isso, em especial a partir do capítulo seis, toma conta e magnetiza as atenções. No entanto, brilhantes também estão Jeremy Irons, Hong Chau e Jean Smart. Todos acertam o tom de seus personagens, sem esquecer é claro do grande Louis Gossett Jr.. Escalações que parecem ter sido feitas a dedo, como a ótima participação de Don Johnson como Judd Crawford, e Jovan Adepo, que vive o jovem Will.

Watchmen (2019) – HBO

Ainda que possa dividir opiniões em certas decisões, Watchmen é uma produção corajosa, que faz sim reverência ao material de Alan Moore, mas ignora qualquer possibilidade de utilizar a clássica HQ como muleta. A série, que foi concebida para ter apenas uma temporada com início, meio e fim, prova ter vida própria e justifica a decisão de Damon Lindelof. Sabiamente, o final está aberto a interpretações, permite uma continuação, e, da mesma forma, fecha um ciclo. A TV e a década de 2010 agradecem.

WATCHMEN (HBO)
5

RESUMO:

Após The Letfovers, Damon Lindelof acerta em cheio mais uma vez em Watchmen, com extrema reverência à história original de Alan Moore, trazendo um universo alternativo, porém, alicerçado em questões relevantes do nosso mundo.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...