Crítica | Mati Diop utiliza do fantástico para questionar a racionalidade em ‘Atlantique’

No Festival de Cannes de 2019, a diretora Mati Diop se tornou a primeira mulher negra a competir pela Palma de Ouro na mostra oficial do festival. Com a sua co-produção entre a França e o Senegal, Diop foi uma das diretoras mais comentadas do ano, não apenas pelo seu já grande feito, mas também pelo dinamismo entre gêneros pelo qual o seu longa, Atlantique, percorre.

Na França, Diop levou o Prêmio do Júri, considerado também o segundo lugar na competição. Após Cannes, vieram Festival de Toronto, Festival de Nova York, e assim, Atlantique se tornou aos poucos um dos filmes estrangeiros mais comentados do ano. Através de uma mistura de gêneros com fundo dramático, Diop usa o fantástico e mistério para contar sua história.

O longa se passa em um subúrbio popular de Dakar, onde trabalhadores no canteiro de obras de uma torre futurista, sem receber pagamento por meses, decidem deixar o país pelo oceano para um futuro melhor. Entre eles está Souleiman (Traore), o amante de Ada (Mame Bineta Sane), uma jovem de 17 anos que está prometida a outro homem.

O longa de Diop é rápido em estabelecer o conflito que irá guiar todo o filme, a passagem através do mar. Não são as pessoas, os amores, os jovens, ou famílias que criam o arco trágico pelo qual o filme irá mostrar, mas sim, duas das esferas através da qual o homem se movimenta, aqueles que ficam na terra e os que vão no mar. Assim, nas primeiras cenas do filme, Souleiman, o jovem por quem Ada é apaixonada, perde seu olhar diante do mar, mesmo estando em um caminhão com seus companheiros, que são mergulhados por sentimentos de frustração e revolta após não receberem seus salários. Pais de famílias, irmãos, tios, netos, sobrinhos, provedores da casa. O mar vem para confrontar esse jovem, esse mar que não se apresenta com um azul vivo e pacífico, mas sim pálido e frio.

E é novamente no mar que Souleiman se perde, mesmo estando ao lado de Ada. Jovens que se encontram as escondidas, sempre na espreita, sempre na praia. Seja ao redor de construções abandonadas, ou pelas noites em boates, a praia é o refúgio deles, que, encontram nas margens da sociedade uma forma de agirem verdadeiramente. “Você não olha para mim, só olha para o mar”, Ada questiona. Souleiman não responde, mas já tem em mente para qual caminho deve seguir, para o mar.

A cidade de Dakar está em desenvolvimento, novos edifícios sendo construídos, o prefeito da cidade e a alta sociedade ocupam os locais mais refinados e modernos. Enquanto a outra esfera da população, os jovens pedreiros, suas namoradas e famílias, vivem em casas pequenas, com portas e janelas improvisadas. O casamento arranjado entre na dinâmica como uma forma de ascensão social rápida, e é essa a forma que a família da jovem Ada encontra de dar um futuro melhor para a filha, mesmo que isso envolva um casamento com alguém que ela não ame. Diop utiliza o mar novamente como ponto de encontro entre Ada e seu noivo Ndiaye (Diankou Sembene). Entretanto, nesse mar diferente, Ada não quer estar, o mar lhe tirou aquele que ela mais amava, mesmo que outro fosse inserido em seu lugar. Esse outro que oferece tudo o que pode, mas nada do que ela precisa.

Atlantique (2019) – Netflix

A partir da conjuntura instaurada entre Ada, Soulemain e Ndiaye é que Diop trabalha as escolhas em Atlantique , que na verdade não são. Ada se vê obrigada a se casar com Ndiaye como exigência vinda da parte de sua família, assim como Soulemain não vê alternativa a não ser ir para o outro lado do mundo em busca de uma nova vida. Todos eles exercendo o papel da obrigação transvestida de escolha, entretanto, os olhares dos personagens falam muito mais do que suas ações. Seja Souleiman ao se despedir de Ada na praia – dando os sinais de que aquele seria o seu último encontro – ou Ada sendo convencida por uma amiga a fugir após se casar com Ndiaye.

É através do azul do mar que é composto o design de produção e figurino dos personagens, o azul que permeia todo o filme em seus mais variados tons, seja dia ou noite. Noite essa que também se torna protagonista na segunda metade do filme, aonde o drama conduzido inicialmente por Diop foi transformado e novos gêneros passam a compor o longa. Torna-se impossível enquadrá-lo em uma caixinha redonda e definir a qual gênero o longa faz parte, mas também não se faz necessário. Diop enche o prato com tudo aquilo que o cinema possui de mais fantástico, o suspense, o mistério, romance, o drama.

Diop se serve de todos os gêneros possíveis, de forma organizada, fazendo com que um não sobressaia o outro. Mas todos se complementam de alguma forma, forma essa que transforma a segunda metade do longa em um novo filme. A trilha sonora de Fatima Al Qadiri entra em cena de forma ainda mais perceptível, já que desde a primeira cena a sua condução é que apresenta o perigo eminente vindo do mar e instaura a tensão no ambiente. Seu momento de glória vem em uma cena de casamento, onde as mulheres celebram cantando alegremente, entretanto, a trilha sonora surge de fundo de forma agonizante, e transpassa a voz dessas mulheres, sobressaindo assim não o amor e a glória, mas a nova etapa da vida de Ada permeada por muita tristeza e frustração.

O filme possui grandes momentos desenvolvidos pela imaginação e referencias do fantástico utilizado por Diop, principalmente na segunda metade do filme. Seu uso preciso dos gêneros com o aspecto social vivido por Ada marca a filmografia da diretora como sendo uma das mais promissoras cineastas do ano. O filme que segue uma linha dramática por diversos caminhos, entretanto passeando entre os gêneros, mas que ainda volta para o drama na cena final, merece no mínimo, uma atenção especial como destaque no ano de 2019.

ATLANTIQUE
4

RESUMO:

Em Cannes, Mati Diop levou o Prêmio do Júri com um Atlantique. mesclando gêneros com fundo dramático e usando o fantástico para contar sua história.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.