Crítica | ‘Pássaro do Oriente’ é sombrio, mas verdadeiro

“Diziam que a fotografia tira a alma das pessoas”. A ideia de que, ao sermos fotografados, uma parte de nós é entregue àquele momento. Uma verdade não vista a olho nu na realidade existencial. Esta poderia ser a premissa do novo suspense da Netflix, Pássaro do Oriente. Um filme que consegue nos passar o peso, tristeza e melancolia presentes em um ambiente e em histórias.

Lucy Fly (Alicia Vikander) é uma jovem sueca que se mudou para o Japão para fugir de seu passado sombrio. Ao conhecer Teiji (Naoki Kobayashi), um fotógrafo, ela começa a se abrir a novas possibilidades, como um amor. Em meio à intensidade desse relacionamento que, aos poucos, torna-se uma obsessão, Lily Bridges (Riley Keough), amiga de Lucy, desaparece e esta vira uma suspeita.

Pássaro do Oriente é, muitas vezes, claustrofóbico. Clima enfatizado, principalmente, pelos cenários de Tóquio em 1989. Mesmo em quadros abertos ao ar livre, com paisagens verdes configuradas por montanhas e natureza, é possível sentir um fardo. Um desconforto. Um infortúnio. Como se, a qualquer momento, um evento catastrófico pudesse acontecer.

O roteiro em si é bastante interessante, mas somente ganha força pela presença do trio protagonista. Teiji, misterioso e sedutor. Lily, extrovertida e alegre. Mas o destaque vai para Alicia Vikander, que entrega uma atuação perfeita e impecável. As micro expressões em seu rosto, dignas de alguém extremamente fechado, falam-nos exatamente quem é sua personagem. Estremecida por traumas, que carrega a culpa por uma série de tragédias que lhe cercaram, e sombria. É tão perceptível a dor existente dentro dela, mesmo que pouco disso seja externalizado. Lucy Fly é uma mulher presa em seu interior.

Alicia Vikander em “Pássaro do Oriente” (2019) – Netflix

Com o desenrolar da trama, percebe-se como a paranoia e toda a obscuridade da personagem começam a vazar. Seu relacionamento com Teiji torna-se compulsão e ao vê-lo iniciar um romance com Lily, sua sanidade é posta em dúvida e realmente nos perguntamos se ela não teve a ver com o desaparecimento da amiga. Ao mesmo tempo, o clima caótico e desconcertante é tão bem construído, que questionamos a veracidade das imagens vistas pela perspectiva de Lucy.

A culpa funciona como um fantasma que pesa a existência, dificulta a respiração e a interação com a realidade. O final de Pássaro do Oriente não surpreende, mas impressiona. Uma tragédia que abala, de certa maneira. É um filme sincero e verdadeiro que vale muito à pena, principalmente pelo trabalho fantástico de Vikander. Que quanto mais tinha suas fotos tiradas pelo namorado, sentia sua alma sendo sugada. Falhou em tentar impedir por muitas vezes, até que conseguiu.

PÁSSARO DO ORIENTE | EARTHQUAKE BIRD
3.5

RESUMO:

Com grande atuação da vencedora do Oscar Alicia Vikander, Pássaro do Oriente, da Netflix, é sombrio, mas verdadeiro.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"