Artigo | ‘Um Novo Capitalismo’: a conciliação entre lucro e bem estar-social

Uma nova mentalidade sócio-política-econômica 

A desigualdade social chegou em um patamar avassalador. Em 2017 estimou-se que as 63 pessoas mais ricas do mundo possuem a mesma quantidade de dinheiro que as 3,5 bilhões mais pobres. Os 5% mais abastados acumulam em suas contas bancárias a mesma quantia dos 95% do restante da população. Por que essas pessoas necessitam ter tanta riqueza? Será que não é possível ser bem sucedido e viver com conforto com uma menor quantidade de dinheiro? Essas duas perguntas são as principais provocações de Um Novo Capitalismo (2017), dirigido por Henry Grazinoli.

O documentário aborda três histórias paralelas, situadas na Índia, Brasil e México, com a narração e comentários de Antônio Ermírio de Moraes Neto. Em todas elas mostrou-se a possibilidade em viabilizar negócios com o intuito de lucrar e proporcionar melhores condições de vida a população mais carente principalmente. Há uma mentalidade em contrariar o capitalismo selvagem, focado somente na exploração. Em certos casos, observa-se até mesmo a escravidão de uma parcela dos pobres. Esse projeto apenas é possível se houver uma diminuição significativa do lucro para o empreendedor.

Capitalismo Sustentável

Na primeira história de Um Novo Capitalismo trata da enorme quantidade de pessoas cegas na Índia, cerca de 8 milhões, o que representa quase 25% do total de deficientes visuais no mundo (39 milhões). Uma grande parte, possui catarata, uma patologia facilmente tratável com uma cirurgia simples. Entretanto, devido a miséria, tendem a permanecer cegos. Uma clínica de oftalmologia oferece a cirurgia gratuitamente e a um baixo custo para aqueles que podem pagar minimamente. O número de pacientes pagantes é três vezes maior do que os gratuitos. Ou seja, há uma satisfação maior e uma dignificação para o paciente pela retribuição do pagamento.

No segundo caso aborda o problema dos terrenos particulares invadidos por favelas no Brasil. Muitas vezes os invasores são expulsos de uma maneira brutal e suas casas são atropeladas por tratores. Os dados preocupam, cerca de 16 milhões de famílias brasileiras habitam moradias precárias. Em torno de 9,8 milhões de brasileiros moram em terrenos irregulares. Uma firma de advogados propôs mediar o conflito, impedir que os moradores fossem despejados e negociar a dívida com o dono do terreno. Para isso, inicialmente organizou-se uma passeata na frente da prefeitura de São Paulo, com a intenção de chamar a atenção do poder público e da mídia.

No último caso, um banco mexicano de financiamento ofereceu crédito a uma população carente. Justamente por não terem bens e ganharem salários baixos, os grandes bancos recusam empréstimos a eles, pois não quererem correr o risco do calote. Essa empresa abriu mão de uma certa segurança e de um lucro mais rentável para ajudar os pobres a montarem seus próprios negócios com empréstimos relativamente baixos e uma tarifa menor de juros. É interessante ressaltar que esse banco cresceu exponencialmente, muito mais do que uma ONG que não visa lucro nenhum. Sem contar que muitas ONGs por não lucrarem teoricamente, recebem muitas vantagens do governo, além de propiciar a lavagem de dinheiro, a demagogia e a corrupção de uma forma geral.

Além das três histórias principais de Um Novo Capitalismo, há outros casos paralelos de empreendimentos sustentáveis. Em todos eles há o mesmo objetivo: conciliar o lucro com uma melhora na condição social dos menos favorecidos. Busca-se eliminar a caridade e a gratuidade de certos serviços, por meio de custos mais baixos, a comunidade carente é capaz de pagar pelos benefícios recebidos. O ato de dar algo sem nenhum custo inferioriza os mais necessitados, colocando-os em uma posição humilhante e paralisante. Ao poder dar algo em troca, devolve-se a dignidade e responsabiliza o sujeito pelas suas escolhas e pelo seu desenvolvimento. Portanto, o altruísmo das instituições de caridade se mostra bastante comprometido e gerador de dívidas simbólicas impagáveis e limitantes.

Um Novo Capitalismo apresenta uma nova mentalidade e talvez até mesmo uma certa conciliação com os ideais sócio-políticos-econômicos com uma ideologia de esquerda. Apesar da estrutura capitalista ser mantida, há uma tentativa de redistribuição do dinheiro. Alguns entrevistados almejam uma espécie de equidade social, entretanto isto se revela um tanto utópico e ingênuo. Afinal sempre haverá os mais abastados no Capitalismo e talvez em qualquer outro sistema econômico. O que talvez seja possível é a redução dos abismos sociais e da pobreza gradativamente.

Um Novo Capitalismo (2017)

O gozo e o lucro

Ainda assim, o que leva esse seleto grupo de bilionários a querer acumular cada vez mais riqueza? Inevitavelmente, o dinheiro e o poder estão interligados, a questão não é ter mais dinheiro para poder comprar bens ou luxo, mas acumular o poder e a dominação. Lacan uma vez afirmou que os ricos são os piores sujeitos para serem analisados. Eles acreditam na ilusão de que por terem dinheiro possuem tudo e assim se distanciam de conflitos psicológicos e angústias.

Lacan associa diretamente o lucro com o gozo. Segundo ele, o gozo não está necessariamente associado só ao prazer, mas também a pulsão de morte. O gozo teoricamente é impossível de ser atingido, pois alcançá-lo se remeteria a um estado de completude inimaginável. Semelhante talvez com a fantasia alucinatória de fusão entre mãe e bebê, não havendo qualquer tipo de falta ou castração, em uma espécie de relação incestuosa mítica e perfeita.

O ser humano por se inserir na linguagem se distancia ainda mais do gozo, pois a partir da operação da castração se depara com sua falta e a falta do Outro, proporcionando assim o movimento do desejo. Gozo e desejo são antagônicos. Como a completude é impossível, o desejo tende a sempre se deslocar para novos objetos. Apesar disso, mesmo depois da passagem para a linguagem, o gozo permanece como um resquício, mas nunca alcançável por inteiro. Além disso, o gozo é o principal responsável pela produção de sintomas psicológicos, permanecendo muitas vezes misterioso no inconsciente.

De certa forma, assim como o lucro, o gozo é um objeto dúbio e desmedido em termos imaginários. O lucro também proporciona um certo prazer e o seu acúmulo também produz uma sensação ilusória de onipotência, quase como se fosse possível negar as faltas, as feridas e as mazelas da vida. O ricaço se sente protegido em uma espécie de cúpula impenetrável. Não é à toa que muitos desafiam os limites da Lei, pois fantasiam estar acima dela. Infelizmente, diante dessa cegueira da fantasia de completude, provavelmente os donos das grandes fortunas não reparam na vulnerabilidade social que há ao seu redor e como contribuem para ela indiretamente. Pois simplesmente gozam da posição egocêntrica de privilégio.

Um Novo Capitalismo propõe uma redistribuição desse gozo de uma forma mais democrática. O quanto talvez seja importante as pessoas carentes poderem ter um “ressarcimento” de alguma fantasia de completude sem caírem diariamente no desamparo. Poderem enriquecer psicologicamente, se tornarem sujeitos dignamente e sofisticar os seus conflitos, assim como um certo sentido na existência, não precisarem apenas se contentar com a sobrevivência. Afinal, de certa forma, por mais maduro que se seja, os conflitos são inevitáveis, porém mais complexos e desafiadores, buscando assim a possibilidade de uma autonomia maior, quando analisados devidamente. Com uma mudança paliativa de mentalidade, talvez seja possível reduzir o legado da nossa miséria.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.