Crítica | ‘Atypical’ amadurece e 3ª temporada é a melhor até o momento

Atypical é um perfeito exemplo de série que demonstra crescimento a cada nova temporada. E quando se diz crescimento, não é referente somente ao de público, mas sim em relação ao amadurecimento e desenvolvimento dos personagens e tramas. Esta é uma joia de ouro da Netflix, e é extremamente satisfatório notar que o público parece cada vez mais engajado em fazer o sucesso da série acontecer.  

Em um período que as superproduções tomam conta da televisão e streamings, uma série que foca em contar a rotina de um jovem autista e das pessoas que vivem ao seu redor alcançar um grande número de pessoas é algo que, definitivamente, merece ser destacado. Atualmente, é possível mencionar apenas The Good Doctorgrande sucesso da TV aberta americana, que possui um personagem autista como protagonista, narrando seus feitos e dificuldades seguindo carreira médica. É um assunto pouco abordado tanto na televisão, quanto no cinema, mas mesmo com poucos exemplares, o carinho e a responsabilidade colocadas no roteiro e na produção dessas séries é gigantesco. 

Nesta temporada, Atypical vai focar no primeiro ano de faculdade de Sam (Keir Gilchrist), que demonstra desde o início estar preparado e disposto a mudar sua antiga rotina, e agora se mostra ainda mais preciso ao tentar até mesmo mudar-se para os dormitórios universitários. Mas, mesmo com tanta determinação e força de vontade, a maior dificuldade não será a mudança de rotina, e sim a própria faculdade.  

Sam vai ser colocado a teste, e o roteiro acerta em cheio em trazer outros personagens autistas para seu núcleo de amizades. Algo que o público vem chamando a atenção dos roteiristas de Atypical é na precariedade de acréscimo de personagens que possuem as mesmas dificuldades e dilemas que Sam. Ele dificilmente possui alguém para se identificar e, principalmente, para se sentir confortável em meio à um grupo de pessoas. E aqui, mesmo fora do grupo de colegas autistas, ele parece se sentir muito mais acolhido do que quando estava no período da escola. Seu crescimento é, mais uma vez, o grande forte deste terceiro ano.  

Atypical – 3ª temporada (Netflix)

Sua amizade com Zahid (Nik Dodani) também será responsável de tirá-lo da zona de conforto. Zahid sempre se manteve como uma figura que traz força para Sam, incentivando-o a ter novas experiências, além de o ensinar sobre a vida de uma forma bem-humorada e fora do comum, deve-se dizer. Os personagens terem um momento de desavenças na amizade é algo extremamente normal, e independente de qual lado seja certo ou errado, este momento é mais um ponto chave para o amadurecimento de Sam. 

Mesmo com o maior foco da série sendo em Sam, desta vez, Casey (Brigette Lundy-Paine) acaba dividindo o protagonismo com sua jornada de autodescoberta. Ao final do segundo ano, acompanhamos a personagem tentando entender sua sexualidade e o que realmente sente por Izzie (Fivel Stewart). Agora, essa confusão de sentimentos se torna ainda mais forte e inquieta fazendo com que não dê mais para ignorá-los. O relacionamento das duas é construído à base de erros e acertos, afinal, estamos falando de adolescentes se descobrindo, estranho seria se o relacionamento fosse à base de flores e arco-íris. 

A série procura abordar a descoberta da bissexualidade de forma sincera, e por mais que alguns possam questionar o envolvimento de traição para adentrar no assunto, ele é bem desenvolvido pelo roteiro, que nunca isenta Casey dos erros cometidos, e sim a faz amadurecer os reconhecendo. É uma excelente forma de mostrar que a autodescoberta não é uma jornada fácil para todos, mas que, no fim, se mostra sempre necessária. 

Em meio a acertos com o núcleo de personagens adolescentes, Atypical perde a mão ao desenvolver o relacionamento entre Elsa (Jennifer Jason Leigh) e Doug (Michael Rapaport). Desde a primeira temporada, o casal passa por uma crise que demonstra não ter fim, girando em círculos a todo momento. É difícil não interpretar a forma com que o roteiro decide desenvolver este núcleo como enrolada e cansativa. Porém, com o final dado para os dois aqui, talvez no próximo ano tenhamos um significante avanço entre o casal.  

Atypical – 3ª temporada (Netflix)

Atypical continua se mostrando como uma das séries mais delicadas e prazerosas produzidas pela Netflix. Seu terceiro ano se mantém forte e em constante crescimento tanto dos personagens, quanto das tramas, que se mostram ainda mais maduras aqui, mas sem deixar o bom humor e leveza de lado. 

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.