Crítica | The Crown: 3ª temporada mantém o brilhantismo da série

Na terceira temporada de The Crown, sucesso da Netflix desde 2016, a vencedora do Oscar, Olivia Colman (A Favorita), assume o lugar de Claire Foy (Millennium: A Garota na Teia de Aranha) como sua majestade, a rainha Elizabeth II da Inglaterra. O tempo passou e a soberana passou de “uma jovem mulher… a um morcego velho’, nas palavras da própria personagem. Todavia, Elizabeth tornou-se mais sisuda, fria e segura em sua posição real.

Tal austeridade é, sem dúvida, a grande diferença que marca a transição das temporadas anteriores, já que Foy e Colman mostraram interpretações bastante diferentes da monarca britânica. Muito embora as conjunturas sejam diferentes, uma vez que o tempo sempre transforma as pessoas (sejam príncipes ou plebeus), é difícil se convencer que as duas atrizes vivem a mesma personagem; o que não acontece, por exemplo, com o Philip de Tobias Menzies (Outlander) que, de modo brilhante e inacreditável, assumiu os mesmos trejeitos de seu predecessor, Matt Smith. Os dois são Philip, sem dúvida.

Em todos os outros quesitos, entretanto, The Crown se mantém firme na qualidade que garantiu seu vasto público de espectadores mundo afora, a começar pela abertura sensacional, que possui mais um dos incríveis temas do também vencedor do Oscar, Hans Zimmer.

Assim, a história de Elizabeth II, que já tem o reinado mais longo do Reino Unido (são quase 70 anos usando a Coroa) continua a nos ser contada em paralelo com os grandes acontecimentos da História, como não podia de ser, sendo ela uma das grandes líderes do cenário mundial. Destaco aqui o desastre da vila galesa de Aberfan, em 1966, quando o deslizamento de uma mina de carvão matou 116 crianças e 28 adultos, num dos episódios mais tristes já acontecidos naquela ilha.

The Crown – 3ª temporada (Netflix)

Dessa forma, mostrando uma Elizabeth totalmente sem emoção – que tem que fingir enxugar uma lágrima de um olho seco ao fazer uma visita tardia às famílias dos mortos -, é que Peter Morgan, criador da série, vai nos inteirando dos fatos do século passado ao mesmo tempo que consegue nos fazer conhecer as personalidades da realeza inglesa com genialidade.

Outro momento que merece atenção é a chegada do Homem à lua, em 1969. O entusiasmo de Philipe com a conquista, mostra que, mesmo livre de vários vícios da juventude (como a bebedeira e a farra com os amigos), o duque de Edimburgo continua o mesmo homem espontâneo e vivo de sempre (ponto para Tobias Menzies e sua excelente atuação).

E apesar de as mesmas características poderem ser aplicadas à princesa Anne (Erin Doherty), extremamente inteligente e perspicaz, o mesmo não pode ser dito de Charles, o primogênito da rainha e herdeiro do trono britânico. São vários os momentos que fazem o mundo pensar se ele realmente será um bom rei quando/se suceder a mãe.

Em uma belíssima cena, por exemplo, num jogo de reflexo com um porta retrato, a imagem do príncipe de Gales (Josh O’Connor) se funde com a de David, ou Edward VIII (Derek Jacobi), seu tio avô, mostrando que o jovem tinha muito mais em comum com ele, que abdicou do trono por ser pouco afeito pelas convenções constitucionais, do que com sua mãe que tanto preza pelas tradições, mas que pouco afeto lhe demonstrava. Conhecendo sua história, dá até pena do rapaz, hoje um senhor de 71 anos de idade que ainda não se tornou rei. “A Coroa sempre dá um jeito de encontrar a cabeça certa” – diz Edward VIII, que a usou por menos de um ano, à Elizabeth. “A do meu pai, a do meu irmão, a sua”.

E pode ser que ele esteja mesmo certo. Como nos mostra um flashback muito interessante, quando ainda não passavam de crianças, a doidivanas da princesa Margareth pediu à irmã mais velha, Elizabeth, para assumir a Coroa em seu lugar. Interpretada em sua fase mais velha por Helena Bonham Carter (Harry Potter), cujas cenas são as menos interessantes (quase chatas até), imagine como teria sido seu reinado…

The Crown – 3ª temporada (Netflix)

Os ingleses devem então agradecer à essa sábia Coroa, e nós devemos agradecer a Peter Morgan por mais essa temporada genial que, mesmo trazendo a Elizabeth extremamente carrancuda de Olivia Colman, ainda nos faz sentir uma grande empatia por sua majestade.

THE CROWN - 3ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

Mesmo com mudança de elenco, a 3ª temporada de The Crown, do criador Peter Morgan, é brilhante e mantém a qualidade de sempre.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.