Artigo | Um vilão retratado pela loucura e marginalização em ‘Coringa’

Análise com spoilers do filme Coringa (2019) 

Desde o fim da trilogia do Cavaleiro das Trevas, dirigida por Christopher Nolan, apesar do sucesso de Mulher-Maravilha e Aquaman, a DC/Warner já não fazia filmes tão complexos e profundos. As duas obras citadas, ainda que tenham certa qualidade, se mantiveram em roteiros engessados seguindo a infalível fórmula da jornada do herói.

Em meados dos anos 80, com o impulso das várias crises desta década somado ameaça de uma guerra nuclear, os super-heróis também perderam o seu caráter idealizado e invencível. Muitos deles foram fragilizados, seja em termos de força quanto à moralidade, um ótimo exemplo disso foram os Watchmen, criado por Alan Moore (leia a análise do filme). Coringa (2019), em cartaz nos cinemas brasileiros desde o dia 03 de outubro, ainda que seja considerado um dos mais perversos vilões do universo do Batman, também foi humanizado cuidadosamente pela interpretação magistral de Joaquin Phoenix e pela direção primorosa de Todd Philips.

Criar uma história de origem para o Coringa, um dos vilões mais aclamados do universo dos quadrinhos, foi uma escolha corajosa, principalmente pelo personagem não ter uma origem bem definida. Nos quadrinhos, estipula-se que tenham surgido em momentos diferentes ao menos três Coringas! O que torna a origem do vilão ainda mais misteriosa e inexplicável, como se ele fosse mais um fantasma capaz de ser personificado por qualquer um do que propriamente uma construção individual.


Compreendendo Arthur Fleck

O diretor optou por um ótimo caminho ao especificar desde o início que Arthur Fleck (Phoenix) era um homem transtornado com muitos problemas psicológicos. No começo de Coringa, apesar das dificuldades e viver em certo estado de miséria, Arthur conseguia se virar com o trabalho de palhaço em uma agência de talentos em que passava o dia segurando uma placa. Além disso, trabalhava como palhaço em um hospital, como um doutor da alegria. Pouco a pouco sua vida desmoronou, como quando um grupo de garotos rouba a sua placa. Depois de correr atrás deles, é encurralado em um beco, a placa foi quebrada em sua cabeça e foi espancado covardemente, sem qualquer motivo plausível, além de um sadismo desumano.

Após ser roubado, seu chefe não acredita no incidente narrado por Arthur e ameaça descontar do seu salário caso não devolva a placa. Um colega de seu trabalho, comovido pela história, lhe presenteia com um revólver, caso precise se defender novamente e assim, passa a andar armado o tempo todo. Em uma ocasião, enquanto se apresentava no hospital para os pacientes, a pistola caiu da sua calça ficando a mostra para todos. Consequentemente, ele é demitido. Além de todos os seus problemas, o perturbado protagonista sofria de risada patológica, causado por um transtorno neuronal.

Uma vez Arthur estava no metrô, com outros três homens e uma mulher dentro do vagão. Esses homens passaram a assediar a mulher, enquanto isso, ele começou a gargalhar, o que rapidamente chamou a atenção deles. Por mais que o intimidassem e lhe batessem, ele não conseguia parar de rir. Em situações de estresse, o protagonista parece gargalhar ainda mais, em muitos momentos, percebe-se seu esforço em parar de rir, chegando ao ponto de chorar simultaneamente. Em um momento de catarse, Arthur puxa a arma e atira nos homens, e mata dois deles. O terceiro foge, mas rapidamente o alcança e o executa. Esse é o grande ponto de virada do Coringa. No começo, Arthur se assusta com a sua violência, mas depois, percebe o quanto foi libertador ter esboçado essa reação, livrando-se assim de qualquer remorso.

No decorrer do filme, o futuro Coringa, possuía o sonho de se tornar um comediante de sucesso, inspirado diretamente no comediante e apresentador Murray Franklin (Robert  de Niro). Todos os dias ele assistia ao programa e tentava copiar o estilo de Murray e se esforçava em criar piadas. A grande contradição é a que suas piadas não são engraçadas, muito pelo contrário, boa parte delas se revelam desagradáveis. Talvez o sentido dele desejar ser comediante seja baseado na visão de sua mãe, Peny (Frances Conroy), ela sempre lhe dizia que sempre foi feliz e deveria espalhar isto pelo mundo.

A relação de Arthur com a sua mãe possui também um caráter patológico e dependente, além dela, ele não têm outros vínculos significativos. Apesar de ser complicado e arriscado diagnosticar personagens, não é difícil considerar Arthur um psicótico. Isso é evidenciado quando percebe-se que a sua namorada (Zazie Beetz) não passou de um delírio. Em muitas cenas, ela parecia lhe acompanhar, porém, eles nunca sequer conversaram. O protagonista se apaixona por ela, quando estavam no elevador e ela brincou com ele. Provavelmente ela apenas despertou esse interesse nele, pois foi umas das poucas pessoas a notá-lo. Devido a sua condição, muitas vezes tende a ser visto como uma aberração. Já a sua relação com a sua mãe pode ser analisada como uma psicose compartilhada, também chamada de loucura a dois.

Sua mãe lhe fez uma revelação importante, disse que ele era filho do milionário Thomas Wayne (Brett Cullen). Na busca pela verdade, o errante protagonista se depara com mais dúvidas, depois de encontrar com o seu suposto pai, ele lhe conta uma outra versão. Segundo o milionário, Penny foi diagnosticada com um transtorno mental grave e fantasiou ter tido um caso com ele. Arthur na verdade foi adotado por intermédio de Thomas. Durante sua infância, ela cometeu uma série de negligências e abusos, como o trauma craniano que o filho sofreu quando ainda era pequeno. Mais um fator que deve ter contribuído para a sua condição mental.

O interessante dessa parte da narrativa é que muitos trechos da história do Coringa continuam encobertos. Será que Tomas Wayne realmente não é o seu pai e ele forjou o quadro psiquiátrico de Penny para evitar o escândalo de ter um filho bastardo? A mãe de Arthur delirou o seu caso com Thomas, corroborando assim para um quadro de eretomania (ler a análise do filme Bem Me Quer, Mal Me Quer)? Impossível saber ao certo, contudo, seria um tanto absurdo e talvez até inadmissível Batman e Coringa serem irmãos.

Após Arthur descobrir a fraude da história contada por sua mãe, em seguida a assassina, mesmo estando debilitada no hospital. De um objeto bom, Penny rapidamente se torna um objeto mal e persecutório para o protagonista, demonstrando mais uma vez um comportamento tipicamente psicótico.

Pouco tempo depois de acertar as contas com o seu passado, Arthur finalmente consegue a tão almejada oportunidade de participar no programa de Murray. Mais uma vez age de uma forma inadequada, tensa e despreparada, necessitando ler as suas próprias piadas no seu caderno. O então novo Coringa, cunhado pelo próprio apresentador, no fundo sabia que havia sido chamado por ele para ser humilhado, servindo assim de escada para Murray. Em um momento de surto durante a entrevista, Arthur puxa o revolver e o mata brutalmente em rede nacional, com um tiro na testa.

A partir do assassinato dos três homens no metrô, Arthur havia se tornado um símbolo nacional de luta contra a opressão de uma elite. Durante o programa, ele revelou os seus crimes e após o assassinato de Murray foi preso, mas logo depois foi resgatado pela multidão e ovacionado. No meio do caos, Thomas e Marta Wayne estavam saindo do cinema com o pequeno Bruce e são assassinados por um dos manifestantes.

Insanidade Marginalizada

É importante destacar a forma como Thomas Wayne foi retratado em Coringa. Nos quadrinhos, na maioria das vezes, o bilionário foi mostrado como o médico milionário bondoso e generoso. Assassinado cruelmente sem um motivo aparente, causando o maior trauma na vida de seu filho, fator chave para que ele se tornasse o Batman. Já no filme, ele é construído como um “cidadão de bem”, com propostas messiânicas e higienistas, com uma prepotência semelhante ao presidente Donald Trump. Talvez o seu maior equivoco tenhas sido defender os três homens mortos no metrô e ter demonizado o Coringa.

Em muitas análises do Coringa existe a preocupação em diagnosticar precisamente Arthur Fleck, é possível chegar à algumas conclusões, mas talvez este não seja o ponto mais importante do filme. Discutir o quanto esse Coringa seja mais perverso ou mais psicótico não é a essência da narrativa. Assim como tentar descobrir se o filme todo não passou de um delírio, com exceção da cena final, em que está internado em um hospital psiquiátrico.

De fato, o filme pregou algumas peças, como no caso de seu relacionamento amoroso delirante e em uma das cenas em que fantasiou estar na plateia do programa de Murray. Há também a lente esverdeada presente em quase todo o filme, permitindo a partir deste detalhe da fotografia do filme, perceber uma atmosfera mais fantasiosa e irreal. Entretanto, tentar decifrar o que é realidade e delírio é uma tarefa ingrata e superficial, pois nem o próprio diretor pretende esclarecer este enigma “casmurrento”.

Coringa é um filme que trata do desamparo, do descaso e da incompreensão da população e do Estado perante os portadores de transtornos mentais, abrindo mão da abordagem maniqueísta. Não é à toa que talvez a frase mais importante dessa história seja: “O difícil de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não a tivesse”. Coringa talvez não seja engraçado, pois durante todo o filme revela as verdades desagradáveis do mundo. Não há um recurso humorístico sofisticado, mas uma crueza dos incômodos sociais. O Coringa de Joaquin Phoenix é bem diferente do finado Heath Ledger, pois o primeiro possui um toque mais humanizado e castigado pela sociedade. Devido a sua fragilidade psíquica, contra-atacou de uma forma impulsiva e violenta, o que em nenhum momento justificou os seus atos.

O palhaço perverso de Heath Ledger era maquiavélico e ousado, pronto para desafiar os paradoxos da lei e levar Batman ao limite. Já Arthur Fleck se tornou o palhaço assassino por um rompante, um surto, uma espécie de defesa contra os abusos sociais. A hostilidade de Gotham foi retratada com muita perspicácia em Coringa , por meio de um clima inóspito, prédios cinzentos, poluição e um metrô perfurando a arquitetura da cidade. São Paulo, por exemplo, segundo uma pesquisa realizada em 2013, é a cidade com um maior número de pessoas com transtornos mentais do mundo. Cerca de 30% da população sofre com algum transtorno. Segundo uma matéria da revista Veja, publicada no final de julho desse ano, 86% dos brasileiros possuem algum transtorno mental. Gotham é o reflexo de todas as megalópoles caóticas da atualidade. Para um transtornado, esse é um cenário ideal capaz de engatilhar um surto.

Não foi preciso uma grande revolução para que a parte marginalizada da população fizesse a anarquia no desfecho de Coringa . Bastou a morte de três “cidadãos de bem” abastados e o comentário infeliz de Thomas Wayne para haver uma manifestação violenta. Em nenhum momento Arthur teve a intenção de se tornar um símbolo ou um líder. Queria apenas alguma visibilidade e reconhecimento pelo seu suposto talento, ainda que de uma maneira insana. Já fazia algum tempo que Gotham estava à beira do abismo, a chacina do metrô e respectivamente a vitimização dos assassinados foram a oportunidade que os menos favorecidos precisavam para confrontar o Estado.

Um pouco da história da loucura e do movimento anti-manicomial 

Nas décadas de 70 e 80, a luta anti-manicomial surgiu com bastante força pela Europa ocidental, influenciado grande parte do mundo, inclusive a América do Sul. Muitas conquistas foram realizadas, principalmente no que se refere às políticas de internação nos hospitais psiquiátricos. A grande maior parte das internações não podem durar mais de um mês e ocorrem como última medida, quando o paciente está em surto e recusa as outras formas de tratamento.

No Brasil, no final da década de 80, com a ajuda do SUS, foram criados os CAPS, um serviço assistencial direcionado ao portadores de transtornos mentais e dependência química. Lá os pacientes são medicados, acompanhados por uma equipe multi-profissional e podem realizar atividades grupais. Infelizmente, nos últimos anos, devido à corrupção, a crise política e financeira, os serviços dedicados à saúde mental foram negligenciados e deixaram de ser prioridade do Estado. No filme há uma cena em que Arthur se queixa para a psicóloga que ela não o tem escutado como deveria. Ela responde que iria perder a assistência do Estado e que na verdade, o governo não se importa com ele e nem com ela. Embora Coringa trate da história de um único homem, o filme é uma ótima metonímia do abandono da população psiquiátrica.

Na obra História da Loucura, de Michel Foucault, o autor contará a respeito do surgimento das instituições de internação a partir do século XVI, início da Idade Clássica. Para ele essas instituições surgiram com o propósito de esconder todos aqueles considerados anormais, não somente os loucos, mas os mendigos, deficientes intelectuais e todos aqueles que poderiam desafiar a lógica da racionalidade imposta pelo cogito cartesiano. Temia-se o escândalo da loucura e a possibilidade do seu contágio, portanto deveriam permanecer distantes do contato social.

Mesmo com o estabelecimento dos alienistas (antecessores da psiquiatria) no século XVIII, eles surgiram apenas como uma ciência mais precisa para classificar os loucos e anormais, auxiliando assim o poder judiciário, diferenciando os crimes intencionais dos cometidos durantes episódios de surto, encaminhando os criminosos “racionais” para a cadeia e os loucos para as instituições de isolamento. Com a psiquiatria foram criados os hospitais e as primeiras técnicas de tratamento, mas com o intuito de adestrar e expurgar a loucura. A maior parte deles ocorriam pela água, com banhos muito quentes ou gelados e com fortes jatos no corpo.

Em pleno século XXI, mesmo com os avanços na área da saúde mental, ainda é chocante o despreparo do Estado em lidar com os portadores de transtornos psiquiátricos. Por mais que o tempo passe, a falta de alteridade das pessoas umas com as outras e principalmente com a população psiquiátrica, ainda perdura. Atualmente, embora as políticas de internação sejam mais rígidas e menos banalizadas, essa população continua a ser marginalizada e subjugada. Talvez seja a inadequação de seus berros e pelas suas gargalhadas incompreensíveis que ela consiga se fazer escutar minimamente.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.