Crítica | ‘O Irlandês’ é um clássico instantâneo

Em um período que a discussão relacionada à filmes lançados diretamente em serviços de streaming serem reconhecidos ou não no Oscar ainda estão em pauta, Martin Scorsese utiliza um termo interessante para defender seu ponto de vista: “cinema híbrido”. Para ele, seu mais recente trabalho, O Irlandês, não conseguiria levar multidões aos cinemas e, sabendo disso, mas querendo que o maior número de pessoas o assistisse, disponibilizá-lo diretamente na Netflix, seria a melhor forma de alcançar seu objetivo. A estratégia deve ser bem-sucedida. 

A experiência de assistir O Irlandês pode ser assustadora para algumas pessoas, afinal, são três horas e trinta minutos de duração – a maior da carreira de Scorsese. É um filme imersivo, o que faz a extensa duração não pesar caso o espectador consiga se conectar com a história. E, mesmo sendo visado a ser disponibilizado pela Netflix, a possibilidade de o experienciar uma sala de cinema ajuda consideravelmente com que isso aconteça. Talvez, para a grande maioria que assisti-lo por meio do streaming, a duração pese, mas ela não se torna um problema devido ao excelente roteiro, ambientação e elenco que o filme apresenta. 

Scorsese, então, não só entrega um novo filme no universo de máfia que havia deixado para trás há tantos anos, mas também seu filme mais melancólico dentro do gênero. Ao nos contar a história sobre o crime organizado dos Estados Unidos em um período pós-Segunda Guerra Mundial, ele consegue transitar por diversos territórios e discussões com um realismo e sinceridade extremamente marcantes. 

O filme é narrado pelo ponto de vista de Frank Sheeran (Robert De Niro), personalidade real que teve sua polêmica biografia divulgada um ano após sua morte, contando desde o momento em que era um simples entregador de carne, até quando se encontra envolvido no crime e em assuntos relacionados ao assassinato de John F. Kennedy e o Sindicato dos Caminhoneiros. É uma vida e tanto, deve-se dizer, e não havia nenhum ator mais adequado para viver o personagem do que De Niro, que se mostra aqui confortável, estupendo, e navegando em mares já conhecidos. 

O Irlandês (2019) – Netflix

Sheeran inicia a história já em seu último ano de vida, narrando todos os acontecimentos em uma casa de repouso para idosos, o que faz todo o resto do filme necessitar da tecnologia de CGI para rejuvenescer não somente De Niro, como também outros dois grandes nomes que encabeçam o elenco: Al Pacino Joe PesciA presença de três suprassumos do cinema torna o filme quase que uma revisita à era de ouro do diretor que nunca chegou devidamente a terminar. É uma homenagem à própria carreira de Scorsesee aos próprios atores que provam, mais uma vez, o talento e a importância que possuem para a história do cinema. 

Tendo colocado O Irlandês como melancólico, o filme subverte as expectativas criadas em cima de um filme do gênero para dar mais espaço a discussões sobre família, legado, vida e morte, e envelhecimento. A violência, traições, e os jogos de poder estão lá, mas é clara a intenção do roteiro de não ter como foco algo que já foi trazido as telas diversas vezes – até mesmo por Scorsese para discutir assuntos que estão muito mais próximos da atual fase em que o diretor se encontra. 

Mesmo com De Niro presente em tela durante 90% da projeção, é Al Pacino quem consegue se destacar durante quase todo o segundo ato. Explosivo, mas ao mesmo tempo bem-humorado, o ator consegue entregar uma atuação hipnotizante chamando toda a atenção para si. Joe Pesci não fica muito atrás, retornado ao cinema para apresentar um dos melhores papéis de sua carreira, seu personagem é intrigante, sem nunca deixar transparecer no olhar seus verdadeiros objetivos. Mas, entretanto, é notável o grande destaque que Pacino possui entre os três atores principais. 

O Irlandês (2019) – Netflix

 

Muito foi-se discutido em relação a presença de Anna Paquin no elenco. Sua participação é pequena, o que pode gerar uma certa insatisfação em parte do público. Porém, mesmo com poucas falas, e poucos momentos presentes em tela, sua personagem é chave para o desenvolvimento de Frank SheeranPaquin pode não estar tendo uma linha de diálogo em cena, mas sua presença e expressões são sempre representativas e incômodas para Sheeran 

O filme possui um grande mérito de não subestimar a inteligência do espectador. A todo momento, novos personagens com novos backgrounds são inseridos na história, até chegar no ponto onde se torna impossível lembrar de todos que já passaram pela vida de Frank. Isso não é um demérito, pois todos eles acrescentam em algo para que o roteiro se torne mais rico e verossímil. Nós acompanhamos a vida desse personagem por várias décadas, e Scorsese nunca deixa claro em qual ano ou período estamos, deixando para que o espectador consiga se encontrar por meio de menções a vários acontecimentos da história dos Estados Unidos.  

O Irlandês é mais um clássico instantâneo de Martin Scorsese, um dos melhores e mais sinceros trabalhos de sua carreira. Sem deixar a peteca cair em nenhum momento, o ritmo, que pode parecer lento para alguns, não cansa, sempre apresentando diversas reflexões e surpresas ao longo das mais de três horas de duração. Para quem tiver coragem de se aventurar, vai presenciar um filme épico, repleto de homenagens, com um roteiro extremamente bem amarrado, e com um final que ficará entalado na garganta durante muito tempo. 

O Irlandês (2019) – Netflix

O Irlandês estreia dia 27 de novembro na Netflix

O IRLANDÊS / THE IRISHMAN
4.5

RESUMO:

O Irlandês é um clássico instantâneo. Sua longa duração nunca se torna inimiga de si mesma, e Scorsese consegue entregar um épico melancólico, subvertendo todas as expectativas de um filme do gênero para trazer discussões pontuais sobre família, legado, vida e morte, e envelhecimento.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.