Crítica | ‘Pacarrete’ é um filme que brilha tanto quanto sua protagonista

Em 1985 a atriz Marcélia Cartaxo marcou o cinema nacional ao interpretar, em A Hora da Estrela, Macabéa, uma das personagens femininas mais queridas da literatura e do cinema brasileiro. Estreando como atriz, Cartaxo venceu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim e o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília.  Após 34 anos desde o seu primeiro filme, Marcélia volta a protagonizar um dos filmes mais aguardados do ano, dando vida a personagem título, Pacarrete.

Pacarrete é uma das moradoras da pequena cidade Russas, localizada no interior do Ceará. Para comemorar o aniversário da cidade, a já aposentada professora de dança tem como sonho fazer uma grande apresentação de balé para a população local. Entretanto, a falta de interesse por espetáculos do tipo logo se torna um grande oponente.

O filme de estreia do diretor cearense Allan Deberton utiliza, de forma orgânica e sustentável, a dinâmica da cidade do interior do Nordeste para dar vida a seus personagens. Pacarrete é uma figura excêntrica, com um jeito único de falar, de se vestir, de se portar e de existir. As falas que saem da boca dessa personagem, não poderiam sair da boa de mais ninguém. Para tanto, é necessário conhece-la. Para criar sua personagem, Deberton se inspirou em fatos de sua infância em Russas para dar vida a Pacarrete. Figura essa que representa um arquétipo de figuras conhecidas em cidades menores, aquelas mulheres e homens que são famosos onde vivem apenas por ser do jeito que são.

Pacarrete possui atitudes, que – apesar de serem um tanto quanto imprevisíveis – nunca são exageradas para alguém como ela. Marcélia Cartaxo vive a personagem como sempre viveu cada um de seus trabalhos, com muito talento e precisão. A diferença, entretanto, entre os outros trabalhos da atriz para este, é que, aqui ela tem espaço para brilhar, espaço esse necessário para uma personagem tão expansiva. É triste lembrar que em todos os seus últimos trabalhos ela nunca teve, de fato, o protagonismo que merece.

João Miguel, Zezita de Matos e Soia Lira dão vida aos personagens que estão em volta de Pacarrete, sendo eles seu principal público. Atentada por crianças que tocam a campainha e saem correndo todos os dias, vista como estranha por alguns moradores, Miguel (João Miguel) é um dos únicos amigos da bailarina. Através do carisma, ele não conquista apenas a amizade da moça, como também é aquele por quem possui mais afeto.

Marcélia Cartaxo em “Pacarrete” (2019)

Quando em casa, Pacarrete vive com sua irmã Chiquinha (Zezita de Matos), de quem cuida todos os dias, e com quem a personagem possui os momentos mais fraternos e íntimos. Maria (Soia Lira), empregada de Pacarrete, é a personagem que garante alguns dos momentos mais cômicos do longa. Em especial, uma cena em que não há diálogos, apenas o olhar das duas personagens contam a história. Assim, a presença desses personagens, bem como a fluidez das cenas com Pacarrete, permite que Deberton explore outras facetas da mesma, se distanciando assim, do estigma do ‘excêntrico’.

Para demonstrar a extravagância da personagem, o figurino utilizado por Pacarrete são de cores vibrantes, estampas divertidas, chapéus antigos que costumavam ser chiques e requisitados no passado. Assim como sua casa, que é composta por muitos objetos e móveis antigos. Logo, o design de produção e figurino representam de forma clara o que a personagem é: alguém que teve muito prestígio no passado, mas que atualmente é considerada fora de moda.

Entretanto, isso não é uma realidade para ela. Para Pacarrete, nada daquilo é antiquado, tudo é relíquia. E é através da relíquia que, Deberton explora o passado e o futuro da personagem, que vive pensando em algo que pretende fazer no futuro. Entretanto, sua esperança é com base naquilo que viveu no passado, enquanto ainda era professora de balé. Assim como, os vinis em francês aos quais escuta, os vídeos cassete que assiste, tudo isso vem de seu passado com o qual tenta fazer ponte para um futuro de grande prestígio. A sapatilha surrada e tule sem penas não são o bastante para impedir que a personagem alcance seu objetivo: quem sonha, sempre alcança.

Apesar de grandes momentos cômicos, os aspectos psicológicos da personagem servem de palco para Marcélia Cartaxo entregar o drama vivido por Pacarrete. Deberton tem o cuidado com o roteiro ao não deixar com que ela caia no ridículo, principalmente ao expor um drama familiar. A excessiva lavagem da calçada, por exemplo, muda seu impacto conforme o diretor apresenta as motivações da personagem. Com um quê de Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (1950), Pacarrete é excêntrica, divertida, exagerada, e em contrapartida também é melancólica e depressiva. A dosagem dessas características forma a personagem de tal forma que fazem de Pacarrete um dos melhores filmes do ano.

João Miguel em “Pacarrete” (2019)

Assim, Cartaxo e Deberton formam uma das duplas mais lindas para o cinema nacional em 2019. Enquanto Marcélia carrega em si uma grande atriz, Deberton tinha uma grande história para contar. Juntos, o resultado só poderia ser diferente se o diretor não tivesse o cuidado e a sensibilidade de não satirizar a personagem, nem de banalizar aquilo que a afeta. Allan inicia sua jornada de forma interessante, coesa, nos deixando curiosos para saber o que mais pode sair de seu cinema.

PACARRETE
4.5

RESUMO:

Marcélia Cartaxo dá vida a Pacarrete, uma professora de balé aposentada, no novo filme de Allan Deberton, vencedor de oito Kikitos no Festival de Gramado.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.