Crítica | Woody Allen comprova seu desgaste em ‘Um Dia de Chuva em Nova York’

Chegava a ser duvidoso se um dia iríamos ver Um Dia de Chuva em Nova York nas telonas. Após as inúmeras polêmicas envolvendo o passado de Woody Allen com Mia e Dylan Farrow terem voltado à tona com extrema força, o filme perdeu sua distribuidora, a Amazon Studios, e ficou no limbo por quase um ano. A poeira pode ter abaixado, mas as polêmicas nunca sairão da boca do povo. Mas, o ego gigantesco de Allen nunca se deixa abalar, e o diretor – mesmo que de forma indesejada – decidiu ignorá-las mais uma vez e ir à frente com o lançamento do projeto. 

Não seria extremo dizer que o limbo talvez fosse o melhor local para o filme permanecer. Há anos a (falta de) qualidade dos projetos do diretor vêm sendo pauta para discussão entre os cinéfilos. Sua era de ouro já se foi, é inegável, e desde então seus novos filmes não passam de algo medíocre ou aceitável. Um Dia de Chuva em Nova York não é o pior entre eles, mas isso se deve somente ao carisma do elenco, e não ao roteiro que prova, mais uma vez, o desgaste do diretor e sua falta de inspiração. 

Allen entrega mais do mesmo aqui. A história gira em torno de uma viagem para Nova York que Gatsby (Timothée Chalamet) e sua namorada Ashleigh (Elle Fanning) planejam fazer no fim de semana. A princípio, a viagem seria apenas para o garoto apresentar a cidade para a namorada e para passarem um tempo juntos. Porém, os planos começam a ir para o ralo quando Ashleigh consegue uma entrevista com um diretor de cinema renomado do momento para um trabalho da faculdade. 

Por mais que o desenrolar do roteiro tente surpreender pelo rumo que segue com alguns personagens, as decisões tomadas nele não conseguem entregar algo criativo e fora da zona de conforto do diretor. É tudo muito comum, sem criatividade e sem sagacidade. Em alguns momentos, Allen parece querer revisitar seu último grande sucesso Meia-Noite em Paris com o personagem de Chalamet vagando sem rumo pelas ruas chuvosas de Nova York, mas sem chegar perto da criatividade vista anteriormente.  

Um Dia de Chuva em Nova York (2019)

O carisma do elenco é o responsável por não deixar a experiência completamente dispensável. Seguindo seu costume de trazer grandes nomes em ascensão em Hollywood para seus projetos, Allen acerta em cheio ao colocar Chalamet e Fanning como protagonistas. Os dois possuem uma ótima química juntos, mas quando estão separados, é Fanning quem mais se destaca. Divertida, a atriz esbanja carisma toda vez que entra em cena. Porém, em contrapartida, é decepcionante ver o talento de Chalamet ser pouco aproveitado por um roteiro que não oferece muito para que ele consiga se destacar. 

O elenco feminino se mostra o centro das atenções, dando chance à Selena Gomez de apresentar um de seus melhores trabalhos até o momento. A atriz surpreende ao interpretar uma personagem diferente do que está acostumada, com muito mais papas na língua, deboche, ironia e boas sacadas. Em um filme com um elenco de peso, ela consegue alcançar a difícil tarefa de se sobressair e se destacar.  

Por mais que não se arrisque em nada, o roteiro de Allen chega a dar uma pulga atrás da orelha quando Rolland Pollard (Liev Schreiber) está em cena. Não por causa do seu personagem em si, mas sim pelo nome escolhido para o personagem, e a ostentação colocada em cima dele. A semelhança de Rolland Pollard com o nome de outro diretor que também coleciona polêmicas por aí seria coincidência? Ou seria proposital? Considerando que estamos vendo um filme de Woody Allen, descartar a ideia de ser proposital não é uma tarefa fácil. E, caso seja esse o caso – o que não seria nenhuma surpresa -, o diretor, mais uma vez, se mostra bastante problemático em suas atitudes e escolhas. 

Um Dia de Chuva em Nova York (2019)

Provavelmente, nunca saberemos se o nome e a ostentação foram propositais ou não, mas é um fato que Um Dia de Chuva em Nova York é mais um projeto sem criatividade e inspiração do diretor. Pelo menos, ao contrário de Roda Gigante, o filme possui carisma, mesmo que não tenha a mesma qualidade de fotografia que o anterior possuía. No fim, a reflexão deixada é de quando não vamos mais precisar ver os mesmos projetos todos os anos vindo de Woody Allen e da sua zona de conforto.  

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK | A RAINY DAY IN NEW YORK
2.5

RESUMO

Um Dia de Chuva em Nova York é mais um exemplar que comprova o desgaste e a falta de criatividade de Woody Allen. O roteiro é mais do mesmo, porém o carisma do elenco se responsabiliza por não fazer a experiência ser completamente dispensável.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.