Crítica | Sequência de O Iluminado, ‘Doutor Sono’ supera história que lhe deu origem

Lançado em 1980, O Iluminado de Stanley Kubrick talvez seja um dos filmes do gênero terror mais famosos da história do cinema. Entretanto, assim como a obra literária homônima de Stephen King que lhe dá base e contrariamente à opinião de muitos fãs, o longa é um tanto quanto superestimado. Agora, quase quarenta anos após sua estreia e para mostrar o quanto isso é verdade, Mike Flanagan trouxe para as telonas a sequência dessa história, Doutor Sono, que em muito supera a história original, principalmente no cinema.

E não há muito segredo no motivo. Isso acontece especialmente em razão dos personagens e da forma como eles foram transferidos das páginas para as telas. O Iluminado é composto basicamente de quatro elementos: Jack Torrance (Jack Nicholson), sua mulher Wendy (Shelley Duvall), seu filho, Danny (Danny Lloyd) e o Hotel Overlook, o grande vilão da trama.

No entanto, a gradativa transição de Jack da sanidade para a loucura é feita de forma um pouco afetada por Nicholson; e Wendy é uma pessoa totalmente diferente na versão cinematográfica, parecendo mesmo a literal donzela em perigo que só sabe chorar e gritar. Não é à toa que King não gostou do resultado apresentando por Kubrick. Ali, o único que se salva é o pequeno Danny.

Doutor Sono (2019) – Warner Bros. Pictures

E é justamente ele o foco central de Doutor Sono. Antes um menino de apenas cinco anos de idade, Danny agora é um homem de meia idade buscando equilíbrio em sua vida. Interpretado por Ewan McGregor, ele reprime seu dom, a que chama de Iluminação, mas mesmo assim, uma força mais poderosa que ele acaba o encontrando. Essa força se chama Abra (Kyliegh Curran), uma pré-adolescente de doze anos com poderes similares aos dele, e ela pede que Danny a ajude a enfrentar um grupo nômade que se autodenomina Verdadeiro Nó.

É nesse grupo que entra o maior trunfo de Flanagan em seu filme: Rebecca Ferguson. Dessa vez, o vilão não é um lugar, não é o icônico hotel, mas sim uma mulher que “come” iluminação. Rose Cartola sem dúvida é a melhor coisa do longa, brilhantemente interpretada por Ferguson. Muito mais complexa e interessante do que o Overlook (justamente por ser humana – ou será que não?), mas de motivação simples em seus assassinatos, pode-se dizer que Rose, com sua beleza, é a cor que mais se destaca nos tons azulados da produção.

Mas não é só isso. A parte psicológica (característica inerente a qualquer obra de Stephen King), é trabalhada magnificamente pelo diretor, a ponto de o público conseguir notar perfeitamente quando a ação se realiza na mente ou fora dela.

Doutor Sono (2019) – Warner Bros. Pictures

Mais ainda, apesar de Doutor Sono trabalhar muito a morte, a vida também é parte integrante da história, como um par binário do qual nunca se separa. Assim, pelas mãos de Danny, o Overlook retorna ainda mais vivo e assustador do que em O Iluminado. E juntamente com o coração que sempre se escuta ao fundo, como o som que mais se destaca na trilha sonora, o filme pulsa qualidade e superioridade em relação a seu tão superestimado antecessor.

4.5

RESUMO

Com Doutor Sono, o diretor Mike Flanagam supera Stanley Kubrick com um elenco de peso e mostra como fazer terror de qualidade no cinema.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.