Artigo | ‘O Iluminado’: o clássico de Stanley Kubrick por uma via psicológica

Análise com spoilers de O Iluminado, de Stanley Kubrick

No próximo dia 7, estreará finalmente Doutor Sono, a tão aguardada sequência de O Iluminado (1980), após quase 40 anos. Antes de assistir a continuação, vale a pena relembrar e analisar o clássico de Stanley Kubrick, estrelado pelo icônico Jack Nicholson. Esse filme costuma ser lembrando como um dos maiores filmes de terror, mundialmente reconhecido pelo grande público e pelos especialistas.

Apesar do sucesso, Stephen King não gostou da forma como o seu livro foi adaptado. Uma de suas principais críticas é referente a personagem Wendy (Shelley Duvall). Segundo o escritor, além dela ter sido mal aproveitada, o diretor a retratou apenas como uma histérica. Por mais que o livro tenha sofrido mudanças na adaptação, o que costuma ser uma prática bem comum, Kubrick conseguiu desenvolver uma ótima narrativa e um clima de suspense único. Anos mais tarde, King decidiu produzir uma nova versão em formato de minissérie em 1997, mais próxima de seu livro. Ainda há muitas discussões a respeito de qual versão é a melhor.


Os estranhos acontecimentos no hotel Overlook

Em O Iluminado de Kubrick, Jack Torrance (Nicholson) é convidado para ser o zelador do hotel Overlook. Embora o estabelecimento tenha uma péssima fama, Jack aceita o convite para ficar lá com a sua família por longos 3 meses, durante todo o inverno, isolados de praticamente qualquer contato humano. Afinal, nessa época, o hotel é quase inacessível, devido às fortes nevascas. Jack era um professor de literatura, mas por ser alcoólatra, foi demitido da escola, não restando assim outra alternativa a não ser aceitar o cargo de zelador. Ao mesmo tempo em que encara o novo emprego como uma oportunidade de poder escrever um livro com a ajuda do isolamento.

Na entrevista, o gerente contou a história de que o zelador anterior enlouqueceu, chegando ao ponto de assassinar toda a sua família e por fim se suicidou. Ainda assim, Jack se mostrou cético e aceitou o cargo sem questionamentos. No decorrer do tempo, de fato, estranhos eventos aconteceram. Dany (Dany Loyd), filho de Jack, passa a ver fantasmas pelo hotel, principalmente os de duas gêmeas. Aos poucos, Jack se descontrola por questões banais e discute com a sua esposa Wendy (Duvall).

O Iluminado (1980)

Dany, além de ter as estranhas visões, costuma conversar com o seu próprio dedo, uma espécie de amigo imaginário, que ele o descreve como o “menino que mora na minha boca”. No começo de O Iluminado, ele é retratado como menino sensitivo e com poderes paranormais, capaz de conversar por telepatia com outras pessoas com o mesmo dom. Exatamente como ocorreu em um diálogo entre ele e Dick, um funcionário do hotel. Durante todo o filme, seus pais se mostram inábeis ao cuidar dele. Jack voltou a beber e com o tempo, surtou. Além disso se manteve tão obcecado com a escrita do livro que se afastou da família. Wendy também se descontrolou e passou a viver com medo do marido, sentindo-se encurralada.

Um dia, Jack conversa com um garçom do hotel e se queixou pra ele sobre a sua família e o quanto perdeu o controle sobre eles. Rapidamente o garçom sugeriu para que ele fosse firme e se impusesse a todo custo. Após isso, o zelador ensandecido perseguiu a sua família com um machado. Para que não pudessem pedir ajuda, ele cortou a comunicação.

Na cena mais icônica do filme, Jack golpeia a machadadas a porta do banheiro em que sua esposa e filho estão trancados. Dany escapou pela janela, mas Wendy não conseguiu passar. Jack arrebentou uma parte da porta, quando tentou abrir a porta, Wendy o esfaqueou na mão. O zelador então desistiu e foi perseguir o filho. Dany o atraiu até um jardim em forma de labirinto e criou pegadas na neve invertidas. Jack ficou confuso e perdido, acabou congelando e aparentemente morreu e assim, Dany e Wendy fogem.

Na última cena, ocorreu o momento mais confuso e desconcertante do filme. A câmera lentamente focou em uma fotografia antiga, de 1921. Nela é possível ver o sinistro zelador com um smoking, acompanhado de várias outras pessoas em uma festa. Afinal, teoricamente, se Jack está presente em uma foto tão velha, naturalmente ele deveria ter uma aparência mais idosa em 1980! Talvez esse paradoxo refletiu o quanto o escritor estava preso ao hotel de alguma forma, como se fosse um “fantasma” atemporal.

O Iluminado (1980)

O encontro inevitável com o ódio e a loucura

A narrativa de O Iluminado foi construída com um aparente embasamento sobrenatural, por meio de espíritos, desatinos por influências malignas, dons extra-sensoriais como os de Dany e eventos inexplicáveis e contraditórios. Ainda assim, é possível fazer uma leitura psicológica e psicanalítica do filme. Pode-se partir da premissa que desde o começo da história, antes mesmo de chegarem ao hotel, Jack e sua família já enfrentavam problemas sérios.

Jack desde do início já apresentava um vício em álcool e uma tendência violenta. Na escola em que lecionava, se descontrolou e agrediu fisicamente um aluno, gerando assim a sua expulsão automática. Por mais que ele e Dany enxergassem os fantasmas, talvez devido a condição desequilibrada de ambos e pela sugestão dos funcionários do hotel, acabaram alucinando com os espíritos. No fundo o escritor não suportava sua nova condição rebaixada de zelador, pois almejava fazer sucesso com os seus livros.

Pra piorar a falta de inspiração, durante muitas semanas datilografou na máquina de escrever uma mesma frase. Por se sentir fracassado como escritor, não compreender as estranhezas do filho e o distanciamento de sua esposa, age de uma forma reativa e alucinou com os conselhos do garçom. Projetou todas as suas frustrações de pai, marido e escritor em sua família, decidindo eliminá-los implacavelmente durante o seu surto. Isto a partir da introjeção da macabra história do antigo zelador que matou a própria família. Dessa forma os tornou objetos maus e persecutórios, propiciando assim a tentativa da repetição da chacina, mecanismos inconscientes típicos da psicose.

O Iluminado (1980)

Dany, por sua vez, apresenta um quadro dissociativo. Diante do desamparo dos pais, traumas e abusos, criou um amigo imaginário para lidar com os conflitos. Seu poder telepático, talvez não passe de um delírio, a falta de diálogo com os pais somado a reclusão no hotel, colaboraram para o desenvolvimento de seu suposto “dom”. Em muitas cenas do filme nota-se o garoto com uma expressão apagada, como se estivesse “fora de órbita”, provavelmente estava em ausência. Diante do caos que o rondava manifestou essas defesas cindidas para suportar a situação. Vale destacar que cada personagem alucinou com algo diferente um do outro, demonstrando assim a subjetividade de cada um com as suas respectivas alucinações. Devido a sua fragilidade, Jack se identificou com a figura forte e violenta do antigo zelador. Já Dany se enxergou na posição de vítima das gêmeas, prevendo a possibilidade de ter um desfecho igual ao delas.

Antes de dirigir O Iluminado, Kubrick leu um texto interessantíssimo de Freud chamado O Estranho. Provavelmente essa foi uma fonte de inspiração importante para criar o clima de tensão e a dissociação dos personagens. Para Freud, o estranho ao mesmo tempo misterioso e aparentemente distante da consciência é bastante familiar. Por se referir a alguma parte obscura de nós, há o movimento inconsciente de enterrá-lo no fundo do psiquismo, até como uma forma de proteção. Apesar disso, alguns fragmentos tendem a escapar do inconsciente. O hotel possui um simbolismo de poder revelar as partes tenebrosas dos personagens, principalmente as de Jack.

O estranho que nos habita, em muitas histórias, é retratado pela metáfora do duplo (ler o artigo sobre transtorno dissociativo de múltiplas personalidades), no filme isto é também perceptível. O instável zelador claramente é apresentado com duas “personalidades” distintas, como o pai e marido cuidadoso, profissional responsável, embora tenha cometido erros no passado. Do meio para o fim da trama, evidenciou uma faceta violenta, insana e assassina, somado ao gatilho do alcoolismo, seu lado doentio se manifestou com ainda mais facilidade, agindo como um senhor Hyde (O Médico e o Monstro).

No fundo, talvez a esfera mística, seja uma representação do universo psicológico humano e não como algo mágico capaz de controlar as nossas vidas, devido à alguma força cósmica. Na tentativa de rechaçar essa faceta psíquica sombria, projeta-se no mundo por meio de assombrações, demônios, monstros, entre outras figuras mitológicas. Por não aceitarmos nossos conteúdos nebulosos, o projetamos no externo com uma aura misteriosa e inexplicável racionalmente, corroborando assim para se manter uma distância de possíveis descobertas desagradáveis sobre nós mesmos.

O Iluminado (1980)

Ódio inerente

No final de O Iluminado, em que se avista a foto antiga de Jack com outros hóspedes, esse paradoxo só pode fazer algum sentido enquanto metáfora. Afinal, no que se refere a verossimilhança da história, isso seria inconcebível. Talvez o macabro zelador represente essa faceta negativa do psiquismo, adquirindo uma aura de eternidade, um espirito maligno preso ao hotel e ao inconsciente.

Ao analisar brevemente a história da humanidade, percebe-se rapidamente como ódio permeia as relações humanas, seja nas guerras, disputas ou conflitos de uma forma geral. O que prova o argumento da psicanálise de que esse sentimento é inerente à constituição do psiquismo, juntamente com o narcisismo e as pulsões de vida e morte. Existe em nós o impulso natural a odiar tudo aquilo que seja diferente de nós mesmos. Isso é bastante claro no que se refere ao preconceito e ao racismo, o diverso tende a ser visto como uma ameaça. O irônico é refletir a respeito do desenvolvimento da discriminação ética com uma base científica, como no caso da eugenia. Muitos cientistas tentaram comprovar a superioridade de uma etnia sobre as outras por meio da genética e da hereditariedade. Até chegar ao auge com o Nazismo e o extermínio sistemático e tecnológico de vários povos.

Jack pode ser compreendido como uma espécie de “fantasma”, não no sentido sobrenatural, mas um representante dessa faceta carregada de ódio e loucura que a humanidade oculta. Como essa característica é intrínseca ao psiquismo, o ódio se torna perpetuado, em certos tempos, se esconde, é recalcado, mas um dia retorna, sempre sobrevive ao períodos de paz. O que talvez poderia explicar o fato do zelador não envelhecer e permanecer de algum jeito preso ao hotel. O Overlook pode ser interpretado como uma metáfora do inconsciente, com seus fantasmas e acontecimentos aparentemente inexplicáveis e sinistros, que apesar de se esconderem, se revelam da forma mais chocante. Dany pode ser o iluminado, mas é a partir da dinâmica dele e de sua família com o hotel que foi possível iluminar as esferas mais aterradoras do psiquismo.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.